PROSA (trecho)

O dia em que o fotógrafo não quis fotografar



Consta nos arquivos da imprensa brasileira e, mais particularmante nos registros  da reportagem fotográfica, aquela viagem memorável, de sonho e pesadelo, que empreenderam pelos sertões mato-grossenses o escriba Eduardo Almirante e o fotógrafo Élcio Velasco.

Vejam bem, mesmo nos dias de hoje, em pleno século 21, são muitos os que insistem em pensar que Mato Grosso ainda é em boa parte sertão, mas não, não falamos aqui de dias atuais, de modo algum, . Falamos, isto sim, do início da década de 1970, quando, logo após a fundação do Diário de Cuiabá, diretores e editores do jornal mandavam seus melhores profissionais  estado agora visando captar, em suas lentes e penas privilegiadas, sobretudo os novos municípios, distritos, povoados, lugarejos que vinham se somar aos já existentes para dar forma e cor ao mosaico fundiário e político que hoje conhecemos. 

Para um estado como Mato Grosso, cuja ocupação maciça do solo é coisa recente, aí sim, há coisa de 30-40 anos, ainda havia muito sertão. E foi por esse sertão, de estradas esburacadas (onde havia), de trilhas por entre o mato e o cerrado, de pântanos a se perder de vista, de muita navegação em canoas improvisadas na hora - com a ajuda valiosa de índios, inclusive -, que nossos personagens se embrenharam. Até um certo ponto, até onde o território era mais civilizado, foram num jipe Toyota Bandeirantes de propriedade do Almirante, que ele deixou na fazenda de um velho amigo, o coronel Agenor Meirelles. Dali em diante, sim, viajaram do jeito que deu: os últimos trinta quilômetros, por sinal, foram percorridos alternadamente em lombo de burro e a pé, pois às vezes as condições de estrada eram tão precárias, as picadas tão fechadas no meio do mato, que apenas um podia passar: primeiro o cavaleiro, depois a montaria, puxada pelo cabresto. Ponte também era coisa demasiado escassa por aqueles rincões, em alguns pontos havia pinguelas e, no mais, a passagem de ribeirões e riachos era feita mesmo a vau. Então um passava primeiro a nado, o outro lhe jogava os equipamentos e mantimentos na outra margem e depois passava.

No caminho, foram fazendo o serviço mais ou menos de conformidade com as metas estabelecidas pelos patrões: produzir um painel de certa região de Mato Grosso, pegando as cabeceiras do Pantanal entre Cáceres e Barra do Bugres e dali subindo para o Médio-Norte, ali pelas bandas de Diamantino, Nova Marilândia e vizinhanças, visando à elaboração de um suplemento de fim de ano para o jornal. A partida fora no Dia da Proclamação da República e lhes foi garantido que podiam demorar até um mês por lá, mas tinham de trazer textos e fotos suficientes para preencher o tabloide, além de fazer grandes reportagens para ser publicadas em datas espaçadas no jornal e, na medida co possível, informar e encantar os leitores. Ia o Almirante anotando tudo, puxando conversa com velhos e novos pioneiros: paulistas, gaúchos, baianos, paranaenses, goianos, mineitos, até japoneses, afora os nativos, tudo era motivo para dois dedos de prosa, muitos dos quais temperados pela fumaça do "paiêro" ou do Continental, para espantar os mosquitos, e uma boa cachacinha. E sugerindo ao fotógrafo, nas raras vezes em que lhe prevalecia o bom humor: "Velasco, me faz uma foto aqui: o velho com o pito na boca, a velha socando o pilão, a galinhada, os meninos..."; "ali, o carro de boi atolado". No mais das vezes, porém, em seu habitual mau humor, o reporter disparava ordens  duras, mal-educadas: "Aqui, seu cabeça de jumento!..."; "vê se aproveita bem a luz!"; "não quero fazer como da última vez, ter de jogar fora mais da metade das fotos, de tão ruins!"

O bom baiano Velasco, com sua natural malemolência, a princípio obedecia numa boa, mas, pouco a pouco, foi se enchendo das ordens desaforadas e do eterno azedume do outro e passou a cultivar a ideia de se vingar. Como? Ora, ora, sonegando-lhes fotos, fingindo sempre fazer tudo o que o chefe mandava, mas registrando apenas os ângulos que interessavam a ele próprio, isto é, fazendo a partir dali um material á parte, todo seu, sem atender ao espírito de equipe do início da jornada. A culpa pelo resultado desastroso que haveria de se revelar depois ele jogaria no equipamento do Diário, que equipamento de jornal nunca presta mesmo!... De volta à capital, quando fossem revelados os filmes e o Almirante fulo de raiva perguntasse: "Quedê aquela foto lá da Baixa da Égua que mandei você tirar?", "e mais aquela outra lá de onde Judas perdeu as botas?", ele responderia com a calma mais inocente do mundo: "Ora, tirar eu tirei, mas esta porcaria de máquina não captou o meu comando e não registrou! Não saiu..."

Agora, toda a maldade o Velasco concentrou ao chegar à clareira de Santo Afonso, núcleo onde hoje é o centro da cidade de três mil habitantes e que se ergueu principalmente às custas do diamante. Ali o danado do baiano do Caetité não fez por menos: fingiu fazer "ene" fotos mas não fez umazinha sequer, fotografou, por assim dizer, "necas de pitibiriba". E por um motivo bastante prosaico: ao ver aquelas cinco ou seis casinhas tristes e o velho barracão de zinco abandonado sob o aguaceiro impenitente de novembro, os moradores devorados pelo mosquito porvinha na manhã sufocante de calor, nosso fotógrafo simplismente não acreditou  que tão acanhado vilarejo pudesse virar qualquer coisa que prestasse pelos séculos dos séculos. "Santo Afonso?... Quá, isso vira nada não!... Desse mato não sai coelho, quanto mais cidade! Vou fotografar nada não!". E não fotografou.

Esta razão pela qual, dia desses, o meu amigo historiador Suelme Evangelista Fernandes, o Biela, consultando os arquivos da imprensa mato-grossense acerca da criação de novos municípios na segunda metade do século 20, para sua tese de doutoramento, encontrou aquele precioso tabloide editado pelo Diário no início dos anos 70, mas com uma inexplicável falha na iconografia: nenhuma imagem, nada, nadinha de Santo Afonso, nem do Garimpo da Mãe Joana de tantas e tão dilacerantes lembranças. Só uma meia dúzia de linhas desenxabidas do repórter, em tudo destoando do tratamento dispensado aos demais lugares, muitos dos quais, diga-se, nem mesmo cidades viraram...

O Velasco sabe muito bem o porquê, o Almirante desconfia, Santo Afonso lamenta o lapso e nossa História, pela guerra surda entre dois notórios turrões, ficou um tantinho mais pobre. 

Uma pena.

via

Da publicação acima (Entrelinhas Editora), presente em nossas estantes, é a prosa aplicada nesta edição

mari

Marinaldo Custódio, autor querido e muito reconhecido nos meios editoriais e na mídia impressa cuiabana

 

 


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