CRÔNICA

Sexo nos berçários



E, de repente, vejo o Palhares, o canalha. O público que me acompanha, se é que me acompanha, já o conhece. Todavia, a coluna mais irrelevante tem sempre um ou outro leitor novo. E um leitor não iniciado é um inocente em Palhares. Portanto, con­vém descrever aqui, em rápidas pinceladas, a sua torva figura. Imaginem vocês que, certo dia, o Palhares cruza com a cunhada no corredor. Era uma menina de dezessete anos, quase noiva.

Um homem de bem passa por uma cunhada e nada aconte­ce. Há, de parte a parte, um “oba” imaculado e nada mais. E que fez o Palhares? (O novo leitor deve estar numa dessas curiosidades mortais.) Eis o fato: — o Palhares atraca a menina e atira-lhe um beijo ao pescoço. Era o canalha. E aí está, num simples lance, toda a sua biografia. O justo, o correto, o obriga­tório é que o ato nefando fosse condenado por toda a comuni­dade. Afinal, temos ou não temos vida moral?

Em vez de ser execrado, como um legítimo fauno de cor­redor, o Palhares foi invejado por gregos e troianos. Houve, certa vez, um batizado. E uma vizinha, abanando-se com a Revista do Rádio, sussurrou-lhe: — “O senhor é de morte, hem, seu Palhares?”. Ele baixou a vista, escarlate de modéstia. Por coin­cidência, dois ou três dias depois, o patrão aumentou-lhe o or­denado. E quando ele saía de casa, ou chegava a casa, era muito olhado pelas mocinhas. Infelizmente, estamos numa época em que as patifarias do sexo são promocionais.

Devo acrescentar que, mais tarde, se tornou socialista dos mais ferrenhos. Não perde uma passeata e diz, para quem quiser ouvir: — “Sou da esquerda católica!”. Pois bem. E, súbito, en­contro o canalha no meio da rua. Entre parênteses, o Palhares tem sempre uma pele de quem lavou o rosto há cinco minutos. Veio para mim, de braços abertos: — “Há quanto tempo, há quanto tempo!”. Houve o abraço interminável. O Palhares não me largava e confesso o meu constrangimento. Aquela efusão de canalha, ao ar livre, era altamente comprometedora.

A despeito de todas as objeções éticas, porém, ele me ins­pira uma dessas curiosidades humilhantes. Pesa-me confessá-lo, mas a mim interessa tudo o que o Palhares diz e tudo o que o Palhares faz. Perguntei-lhe: — “Que é que tens feito?”. Imagi­nei que ele, horrendo sátiro, ia falar de mulheres e conquistas. Subitamente grave, falou: — “Que é que eu tenho feito?”. Pau­sa. Cara a cara comigo, diz: — “Tenho feito História!”.

E, de repente, vi aquele sujeito, que “não respeitava nem as cunhadas”, deixar de ser o fauno de tapete. Assumia, agora, a forma, o gesto e as inflexões do socialista. Disse-me, baixo e convicto: — “Nelson, toma nota das minhas palavras”. E re­petiu, como um iluminado: — “Escreve o que eu te digo”. Pau­sa. E fala: — “Aconteceu uma coisa inédita no Brasil. Vê se me entendes. É o seguinte: — o brasileiro deixou de ter medo das Forças Armadas. Repara, repara. Ninguém tem medo das For­ças Armadas”. Como um possesso, agarrou-me pelos dois bra­ços: — “E, se perdemos o medo das Forças Armadas, tudo é permitido e tudo vai acontecer!”. Ainda resmunguei: — “Estás sinistro, ó Palhares!”. E ele, baixo e ofegante: — “Estou sinis­tro e é para estar sinistro. Não esqueças: — tudo vai acontecer!”.

Já o canalha se despedia: — “Tenho que ir. Uma cara me espera. Boa pra burro!”. Estendeu-me a mão. Digo-lhe: — “Bye, bye”. Dá três passos, para e retrocede, aflito: — “Esquecia-me do principal. Espera um instantinho. Vou ali no jornaleiro e volto já”. Foi e voltou com uma revista: — “Toma isto aqui. Lê. É o Brasil”. Olho a revista e tomo um susto. Lá estava escrito: — Meu Bebê. Não entendo: — “Que piada é essa?”. Mas ele par­tia, célere, para o seu encontro amoroso. Na capa, estava uma cara, em cores, de um bebê lindo. E eu continuava a não perce­ber que relação podia ter eu com uma revista chamada Meu Bebê.

Fosse como fosse, levei aquilo para casa. E, depois do jan­tar, fui apanhar a revista. Comecei com uma curiosidade muito rala e fui tomado, em seguida, de um interesse total. Sempre digo que a leitura é a arte da releitura. Depois de ler, fui reler. E o meu espanto era cada vez mais profundo.

Antes, porém, de falar de Meu Bebê, quero dizer duas pala­vras. Há pouco tempo, um colégio grã-finíssimo, de São Paulo, convocou os pais. Esquecia-me de especificar que era um colé­gio de freiras pra frente. Simplesmente, a madre queria comu­nicar que a educação sexual, naquele educandário, ia começar no jardim-de-infância. E dizia a religiosa: — “O sexo não tem mistério. Nenhum, nenhum”. E, portanto, meninos e meninas a partir de quatro anos iam ser esclarecidos sobre a atividade sexual.

Não houve espanto, absolutamente. Os pais e as mães ali presentes eram espíritos altamente compreensivos. A única dú­vida era a seguinte: — como meninos e meninas, que não sa­biam ler, nem escrever, nem assimilar, poderiam entender as aulas? E, então, risonhamente, a madre explicou: — “Vão apren­der com figurinhas”.

Os presentes se entreolharam, maravilhados. Um senhor disse e repetiu: — “Interessante, muito interessante!”. E, súbi­to, uma senhora ergueu-se. De pé, batia palmas. Logo outros, também de pé, aplaudiam, em delírio. A ninguém ocorreu que os garotinhos e as garotinhas iam aprender com figurinhas que a polícia toma de certos jornaleiros e ainda os processa. Esta­vam ali pais, avós, tias etc. etc. E todos, ovacionando como na ópera. A madre teve um sucesso de final de ato. Só faltou rece­ber corbeilles etc. etc.

Uma das raras colunas da imprensa brasileira e internacional que ainda se espantam é esta. Todas as outras são divinamente compreensivas. Mas, como ia dizendo: — esta coluna pôs a bo­ca no mundo. Dar “educação sexual” a menininhas de quatro anos já me parecia um escândalo. E, ainda mais, com figurinhas obscenas, dessas que alguns jornaleiros vendem, às escondidas, aos sátiros gagás. Disse eu, na ocasião, que a “educação sexual” é uma das mais deslavadas imposturas do nosso tempo. Afirma o Raul Brandão, o pintor de igrejas e de grã-finas: — “Sexo e apenas sexo, é coisa para bezerros, bodes, preás e jumentos”. No homem, sexo é amor. Portanto, só se entenderia, não uma “educação sexual”, mas uma educação para o amor etc. etc.

Hoje, porém, lendo Meu Bebê, verifico como foi ingênuo o meu espanto. Afinal, o tal colégio grã-fino de São Paulo, em­bora usando figurinhas obscenas, lidava com meninos e meni­nas de quatro anos. Já a revista que o Palhares me deu de presente voa mais alto. Meu Bebê, como o próprio título diz, trata de bebês. Vocês já imaginaram a educação sexual começando no berçário? Visualizem a cena: — a criança que não provou ainda sua primeira chupeta aprendendo coisas que Paulina Bonaparte ignorava. Se Messalina, aos setenta anos, lesse essa ad­mirável revista de bebês, havia de fazer esta autocrítica sucinta e lapidar: — “Eu sou uma analfabeta”.

cabra

Do livro acima (Companhia das Letras) vem o texto desta edição, escrito por um dos mais bravios autores das letras brasileiras, há quase 50 anos

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Nelson Rodrigues (1912-1980) nasceu em Recife, mas mudou-se para o Rio de Janeiro com quatro anos. Foi: teatrólogo, jornalista, romancista, folhetinista e cronista de costumes e de futebol brasileiro

 


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