IMORTALIDADE

Caititu fora do bando é comida de onça



Há trinta e cinco anos sou morador do bairro Recanto dos Pássaros, em Cuiabá.  Ao longo desse período, embora desde antes de nascer, venho experimentando as artes. Na noite da terça (24) minha pacata residência foi invadida por um pequeno grupo bárbaros. Um povo que se diz imortal, porque assim costuma ser estabelecido nominar alguns que escrevem. E eu escrevo.

Fui inciado nas artes, tenho certeza, ainda no ventre da minha mãe, antes de ser parido. Meu pai, engenheiro, mas amante e praticante do canto lírico, deve ser reconhecido como culpado por isso. Mamãe também. Como criança não tem vontade - e acho isso normal (sem queixas) - comecei a estudar piano na 'tenridade' da infância. "Se não estudar piano, vai pro balé". Puto da vida, ia pras aulas de piano, embora, na maturidade, tenha chegado a admitir que poderia ter sido muito bom ter ido pras artes da dança.

E foi também na infância que conheci e comecei a entrar de cabeça na literatura. E agora, nesta narrativa, pulemos 50 anos que, na verdade, significam pouco tempo. É hora de voltar à noite de terça...

Eles, esse povo da imortalidade, começaram a chegar mansamente na residência tyrannus, por volta das 18h30, com um propósito exclusivo: trazer um documento da lavra (da lavra é bem assim, né?!) da Academia Mato-grossense de Letras (AML), para que eu o assinasse e assim fosse oficializada a comunicação em torno do meu acesso à imortalidade. 

Apesar de ateu (não praticante), segue aqui um graças a deus. Graças a deus que não vieram apenas imortais. Gente normal, e mortal, também se achegou. Trouxeram comes e bebes. Comemos e bebemos. Cantamos e conversamos sobre os mais diversos assuntos, porém, habilitando sempre uma espécie de eterno retorno às lides literárias. 

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Toda essa agitação e efusiva alegria foi motivada pelo fato de há pouco mais de dez dias, numa disputada eleição, fui guindado à imortalidade e passarei a ocupar a cadeira de número 12 da AML. Nunca fui muito tradicionalista e nem adepto fervoroso de instituições. Hoje em dia, acreditar nas pessoas, já não está fácil, o que dizer, então, de instituições.

"Caittitu fora do bando é comida de onça". Diz um ditado regional, que muito me vale pra versar sobre meu ingresso na Academia. Nos últimos dez, ou um pouco mais anos, venho assistindo a eleição de vários militantes das letras e das artes na AML. São pessoas mui próximas e queridas, parceiras, assim digamos, na labuta cultural da terra. Com as quais, compartilho ideais comuns, coletivos.

Depois dessa história do caititu, vamos para o maluco beleza, o Raul Seixas. Acho que minha proposta existencial descende um pouco desse roqueiro querido. "Sonho que se sonha só - É só um sonho que se sonha só - Mas sonho que se sonha junto é realidade".

Faço parte de um grupo de autores e apoiadores literários que vem clamando pela ampliação do espaço para as letras ficcionais e poéticas nesse reduto acadêmico. Mato Grosso vive uma intensa agitação cultural, que é muito fruto do fluxo migratório que vem assolando o nosso estado. E também das novas tecnologias, que têm democratizado o acesso às artes, especialmente, à literatura.

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Defendo a necessidade de que os escritores que andam surgindo e pipocando nesta terra de dimensões continentais, forjados em todos os rincões mato-grossenses e plugados na modernidade deste mundão desemporteirado sejam priorizados na AML.

Sei, no entanto, que nem todos assim pensam, inclusive, alguns imortais com assento na Academia. Ora, qualquer instituição que almeje contribuir para com a cidadania e os avanços sociais, deve estar aberta aos embates e discussões em torno de temas emergentes. 

Não concordo e sei que muitos acadêmicos autores de literatura pensam como eu, com a ocupação das cadeiras da AML por personalidades jurídicas. Tudo bem que o direito é uma expressiva área do conhecimento humano, porém, não há nem como comparar o texto jurídico com a liberdade altaneira e criativa que emana dos autores literários, em especial, daqueles que labutam na complexa arte do verso e da ficção. 

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Já ouvi, da parte de antagonistas dessa ideologia literária, que isso seria uma "cisma" contra os juristas. Mas, que bobagem. A literatura está além do conhecimento e se abriga nas plagas da criação. É coisa sublime e de rara transversalidade. É seara para quem trata a palavra com carinho e goza de intimidade com as letras. 

Escritores e poetas são aquelas pessoas mais sensíveis. Complexas. É muito comum que escrevam, que versejem, movidos por inquietações. Não interessa se são médicos, jornalistas, engenheiros, psicólogos, professores, arquitetos, advogados etc.     

Portanto, minha gente, não se trata de uma "cisma". Claro, porque estamos falando de uma Academia de Letras. Um espaço que, se ainda não o é, deveria tratar de ir se tornando cada vez mais reservado e exclusivo para aqueles..., bem, para aqueles que entenderam o meu recado!!!

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