CONTO

O Agiota

Os jornais de três dias, espalhados na varanda, chamam a atenção dos vizinhos.

Avisada a polícia, o velho é achado morto. Um golpe certeiro de machadinha lhe degola meio pescoço.

Os bolsos virados pelo avesso.

A carteira (sempre gorda de notas) agora vazia.

E o óculo de lentes rachadas.

Mora só, desde que a mulher o abandonou faz anos. Porta e janela fechadas, não abre para desconhecido.

Empresta dinheiro a juro. Em cada nota de dívida, grampeia uma papelete com instrução de cobrança. O agiota se você pede um grão de arroz tem de pagar esse grão mais quatro ou cinco.

Entre os papéis, anúncios de "Precisa-se Empregada Doméstica". Num só ano, oito delas... Algumas ficam até uma semana. Outras não mais que dois ou três dias.

-Oitenta anos, já viu? E na força do homem!

Com risinho bandalho:

-Muita mulher pode confirmar.

Assim as empregadas não se demoravam na casa. Não por ser cainho, bruto e cheio de mania. Mas por estar sempre com as mãos nelas. Esfregando-se na cozinha. Seguindo-as quando arrumam o quarto.

Têm que lutar para se livrarem. Fácil não é fugir da sua pata cabeluda. Mais de uma fraqueja aos ataques do ancião libertino.

Exibe-se com os polegares enfiados no suspensório de vidro. Esquece de propósito a braguilha aberta. Deliciado, fuma charutão barato. Ainda no calor, usa meia de lã. Prepara sozinho a sua pobre comida. 

O assassino, logo descoberto, aparece no rol dos devedores. Ao visitá-lo, a polícia acha na cesta de roupa uma camisa suja de sangue. E, sob o tanque, a machadinha com que no açougue retalha frango, pato e peru.

dalton

Do livro acima, Editora Record, que consta em nossas estantes, foi reproduzido o conto desta edição

julio covello

trevgs

Dalton Trevisan nasceu em 1925, na cidade de Curitiba. Já faturou alguns dos mais importantes prêmios da literatura brasileira

 


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