ROMANCE

Capítulo primeiro



Saí de um ovo de dentro da morte. Agora estou vivo e não careço da morte para nada. Nem para ela mesma.

Sim, nasci entre cercas e bois. Ao abrir os primeiros olhos, vi que a luz não mente.

Moro em Pontal de Orvalho, que conheceu o apogeu, com "O Poço dos Milagres", ou bem antes com a valerosa cavaleria andante, Letícia do Pontal. Depois foi abalada por um terremoto, deixando a região em ruínas, que, segundo os Anais da história, dizimou tantas vidas, trazendo patrimônio de escombros.

Era uma vasta comunidade, com acampamento, cercado de prédios, tendas, soldados, povo e no crescer da aldeia, evoluía para cidade.

O governo de Pontal de Orvalho era do secreto e numeroso Círculo, que se propagava por outro maior, o do espaço, começando no cimo do monte, com três pedras redondas e brancas, duas na ponta e uma no meio. Ninguém sabia o que significavam, nem os soldados. Nemêncio, um dos anciãos, não muito preso aos enigmas, dizia que uma pedra era uma pedra e não precisava significar nada. Completando com o fato de a intervenção humana não ter limites. 

Mas, eu, Tibúrcio Dalmar, que fiquei relator destes acontecidos, tive conhecimento de que havia um nome nas pedras, de origem misteriosa. Talvez legível a um profeta, mas não havia ali ainda nenhum profeta.

Na região, perto de tendas, árvores, corria o rio João Aragem, de tranquilo curso e, para alguns, tinha a perna de Deus. O que não carecia de ver, se o povo imaginoso acreditava e lendas se fazem na arribação. 

O rio era cortado por uma floresta cheia de aves que pareciam possuir linguajar diferente do comum da espécie, passando o tempo todo sussurando. . Era sabido ser a floresta frequentada por tigres, leopardos e outros bichos, mas nenhum invadia o acampamento, ousando atravessá-lo. Por ter sido posto nele, lado a lado, uma palavra que impedia. Parte dos habitantes eram longevos, banhados pelo manancial que provinha do rio. Mostrando quanto aqueles humanos não sabiam o que fazer de sua humanidade. Mas poucos, apenas os escolhidos.

Presos nos limites das cercas, criavam cercas em si mesmos. Não havia culpa capaz de engolir a consciência. E as palavras só começavam a sair quando elas começavam a calar. E a vida estava em morte para sentir-se viva. 

Eu assumia aos poucos, aquela civilização, até que um dia viesse toda para mim. E quanto fui aprendendo de que o que é vivo se devora. Mas não deixo de viver por causa disso. Porque resistir é devorar  furiosamente o que nos devora. E o gênero humano não estava perdido. Porque o que é vivo não se extingue: consertam-se os buracos das goteiras, conserta-se a goteira do infortúnio. Sem nenhum raciocínio de alma. Porque alma não precisa raciocinar.

Ninguém indagava também porque aquele mundo existia, como se existisse tão antes, que não coubesse questionar. Mais que a perturbação mental, é a perturbação dos sonhos. E o fato de as coisas existirem, acostuma como o limo no muro que não se percebe antes.

As coisas acontecem com a nuvem de não estarem acontecendo. E retê-las é não as reter.

E friso que aquela comunidade tinha as tendas enfileiradas, imóveis na plantura e na baixada. Perto situava-se o rio. Mulas e burros capengavam, alguns cavalos inflavam as narinas e as chaminés das barracas fumegavam entre sebes, seixos. E o calcanhar do sol fixava a demarcação. Quem não pode comer o sol, come o deserto.

feroz

Vem da obra acima (Editora LetraSelvagem), que compõem o acervo tyrannus, a prosa publicada nesta edição

adriana franciosi

nejar

Carlos Nejar (1939...) é poeta, ficcionista, tradutor e crítico literário brasileiro, nascido no Rio Grande do Sul

 

 

 


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