CRÔNICA

Adivinha?



cristo

Acontece que nessa terra, basta a gente ficar imóvel e deixar a vida passar em seu ritmo (a)normal para saber que não haverá tédio nem paradeira

Estiquei o máximo que pude e dei linha para a pipa da cronista enclausurada sabedor dos efeitos prolongados da lua de sangue do eclipse do final de julho.

A desculpa é boa mas não totalmente verdadeira por deixar de retratar o impacto que a noite de sexta-feira e os efeitos do fenômeno provocaram em mim, um extraterrestre reconhecidamente acariocado.

Descrevo o evento para explicar a demora nesse contato com a amiga voluntariamente recolhida a uma cela do outro lado do túnel.

O veranico de julho ainda reinava, transformando a paisagem do Rio de Janeiro um daqueles cartões postais que conseguem apagar com sua exuberância e beleza as mazelas da cidade. Água caribenha, apesar da ressaca que chacoalhou o litoral nos dias anteriores, céu de brigadeiro e uma brisa fraca esperavam os visitantes que se preparavam para ver o eclipse. O primeiro lugar escolhido por 10 entre 10 apreciadores foi o Forte de Copacabana. No meio da tarde a fila gigantesca que serpenteava pela Francisco Otaviano recebeu a notícia que as senhas para a entrada nas instalações militares haviam se esgotado.

A opção B foi a Pedra do Arpoador, do lado da Praia do Diabo. Disfarçado de mim mesmo cheguei cedo e encontrei uma protuberância que serviu de mangrulho (posto militar de observação em lugar elevado, aprendi a palavra numa música gaúcha) natural. Dali não saí nem me mexi até o final do espetáculo. E assim tinha que ser já que, depois de estabelecida a base, a população cresceu absurdamente no entorno. A ponto de não dar mais nem para esticar as pernas.

Depois do por do sol a quantidade de gente cresceu mais ainda. Quem estava apreciando a performance solar, não tão bonita quanto no verão quando o sol se põe no mar, entre as ilhas, viu o astro-rei descer entre os prédios e a montanha. Depois, se moveu para ter o visual do lado leste, onde a lua surgiria.

Era engraçado ver a direção em que a maioria dos assistentes se posicionou. Claramente achavam que a lua, já eclipsada e, portanto, avermelhada surgiria em cima das montanhas quando, na realidade, ela apareceu por cima do mar.

Aí, veio a segunda confusão. A “linda bruma” que se via na barra do horizonte (na verdade, uma camada de poluição) era tão espessa que a lua teve que vencer essa nova barreira e já surgiu quase tossindo, pálida de tanta suspensão, bem acima do mar.

Não precisa dizer que entendo plenamente o significado dessa camada, a mesma que impede minha espaçonave de ultrapassar o ozônio que habita a atmosfera terráquea e me levaria para novas aventuras intergalácticas.

Não fosse esse jeito carioca de ser já assimilado, certamente, já teria entrado em desespero e feito alguma tentativa desesperada de levantar âncora em direção a novos mundos.

Acontece que nessa terra, basta a gente ficar imóvel e deixar a vida passar em seu ritmo (a)normal para saber que não haverá tédio nem paradeira. Entre músicas diversas, drones dispersos e muitas câmeras mais ou menos profissionais a lua, acompanhada de Marte, brilhando forte, deu um banho de luminosidade na humanidade.

Foi deixando essa energia fluir que me atrasei um pouco para vir trazer as novidades. Esperava que o efeito também se prolongasse pela fresta que a ilumina. Pelo menos até chegarmos as últimas novidades.

Cara amiga, acredite, “habemus candidatus”. Para todos os gosto e tipos. Encarcerados como você, apalermados, genéricos, patéticos, coligados, ajojados, amontoados, enfim, para tudo falta pouco. O grande dilema para candidatos a presidente e governadores foram os vices, todos escolhidos na última hora, alguns pegos a laço.

O próximo passo? O compasso. Um átimo até as eleições, onde nem a lua adivinha o que poderá acontecer...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM...delcueto.wordpress.com

 


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