CONTO

A sapituca



Estava tudo pronto. Aquela coisa toda cerimoniosa, mas eu estava atrasado. Sabia disso. Muito possível que o horário não fosse cumprido, de acordo com os ritos necessários. Culpa de quem? Minha. 

Sempre deixando as coisas para a última hora. Sempre preguiça físico-química e cacofônica. 

Ela me espera. Ela quem? Não interessa... ela. A vida, a morte, aquela mulher, a plateia, a cerimônia ou qualquer outra palavra feminina. O problema sou eu. Eu que nunca soube conviver sem sofrimento e aporrinhação com os descumprimentos de horários. Tenho só preguiça, paciência não.

Jogo baralho pra caralho. Precisava escrever logo isso, antes que alguém o fizesse. Fiquei guardando durante anos a combinação pastiche e pistache. Não usei. Demorei muito e perdi o bonde. Onde e quando?

Não. Não dá mais tempo pra ficar respondendo a essas perguntas. Preciso ir-me para o local. De minha casa, onde ainda preciso terminar este texto, antes de sair; vinte e dois minutos até o lugar do compromisso. Hora desta. Vai ter festa. Lá!

Urge que acelere estexto. Corro com a imaginação e o raciocínio. Cato as palavras e o milho. Desesperado. Catando tudo que posso usar nem tenho mais condições de parar pra pensar. As pessoas estão me esperando e eu aqui. Eu aqui, mas quase indo. Lindo, espero, alinhadamente trajado para pisar na cerâmica hidráulica do casarão secular.

Se, pelo menos, eu tivesse aquela bela coleção de sapatos e pisantes que o sr. Dom tinha, ah... Ou se tivesse pedido para o sr. Didi criar-me uma gravata apropriada para a ocasião. Fiquei com medo de ele desenhar e pintar algo pornô, com caralhinhos e bucetinhas, embora, depois, eu poderia lhe atribuir a culpa. Mas... mas... a gravata estaria enforcando o meu pescoço e eu mesmo estaria muito mais para o cadafalso, do que sr. Didi. 

E se eu ligasse para o sr. Edward e dissesse que não queria mais ir? Sim, talvez fosse uma boa solução. Ligo. Numa fração de segundo, enquanto espero que meu problema seja resolvido, o sr Edward atende e, antes que eu possa dizer qualquer coisa, ele dispara:

Onde você está canalha, tá todo mundo te esperando. Venha logo!

Já sei penso. Estou tão desesperado com a situação que foda-se a sintaxe. Escrevo algo no whatsapp e mando de imediato pra Edward. Digo-lhe que não quero mais saber daquela merda toda. Para minha completa frustração, percebo que a mensagem não chega ao destinatário. Ele me abandona a mercê dos meus próprios vacilos.

Nesse momento penso estar quase tendo uma sapituca. Um discreto barulho em meu telefone móvel, porém, enche-me de esperança. Olho e vejo... a coisa piorou.

Acabo de receber uma mensagem, mas uma mensagem nada restauradora da  deplorável situação, que vinha de outro sr. Edward, o sr. Edward II. Diz:

Você vai mesmo assumir essa porra desse negócio?

Tomo aquilo como uma ameaça. Um pré-atentado contra a minha pessoa, que talvez mereça isso, talvez não. E estaria eu em condições (ou tinha tempo) pra avaliar isso? 

Só sei que me lembrei que pelos corredores da penitenciária, dias atrás, havia me esbarrado no sr. Edward II  e ele disse que seu eu insistisse na ideia, levaria ovos para o evento. Naquela hora, meio inconsequente, provoquei-o, referindo-me aos ovos:

Que sejam gorados!

Para que fui dizer isso? Fiquei matutando.

A sensação de proximidade duma sapituca me aplica reações adversas e simultâneas. Calafrio, taquicardia, pontadas na cabeça e mochila de criança grudada em minhas costas... Sem me estender muito nos efeitos colaterais. Mas, aí...

Tenho luminosa ideia de ligar para o sr. Mattos. Pessoa da minha extrema confiança, com quem desenvolvo longeva amizade. Ele atende. De forma atabalhoada, exponho a minha situação e manifesto a intenção de que ele me ajude, finalizando com a pergunta:

Você está aí?

A resposta é a pior coisa do mundo a acontecer naquele momento:

Não... meu carro quebrou aqui no Chumbo, uma corrutela que fica entre Livramento e Poconé. Sinto muito, mas não vou poder te ajudar. 

Era só o que me faltava, enquanto eu fazia falta no lugar onde já deveria estar(recido). Saio até o surrado jardim na frente do meu paradeiro domiciliar... às vezes, um cigarro ajuda. Eu estou daquele jeito. Começo a absorver a nicotina.

Uma bocaiuveira entortada expele sua safra inicial. Os primeiros coquinhos despencam da sua altaneira e parcimoniosa copa. Eles caem no telhado da varanda da frente, produzindo um som opaco. Overdoso-me de nicotina e me lembro da senhora M., uma chaminé querida. Associo o sr. Mattos com a bocaiuva, já que ele estava no Chumbo, perto de Poconé, cidade onde os tais coquinhos todo mundo cata no asfalto e em tudo quanto é lugar.

Vem um castigo celestial. Ou, quem sabe, da bocaiuveira. Enquanto aspiro  tragada de profundis, uma bocaiuva despenca retilínea no meu cocuruto e... bingo!

Você quer saber de uma coisa? Vou seguir meu caminho e esquecer a sapituca. Bem, talvez ela sirva como título para um texto habitado na fronteira entre a realidade e a ficção - o limbo. A sapituca, o limbo e alguém que está galgando a imortalidade e não quer ser zumbi para sempre. Sendo só o que se apresenta para o momento. 

loro

o tyrannus flertando com busto de Augusto João Manuel Leverger, personagem histórico e proprietário de prédio secular que hoje abriga a Academia Mato-Grossense de Letras, também conhecida como Casa Barão de Melgaço

 


Voltar  

Confira também nesta seção:

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet