NA ACADEMIA

Não sei aonde a literatura vai me levar*



posse

 

Eis-me aqui. Consolidado e feliz nesta casa de letras, tradicional espaço da literatura mato-grossense. Uma conquista expressiva para um homem que veio de fora... pau rodado... mas que se enraizou neste calorento cerrado, talvez, cumprindo uma sina que não poderia ser outra. 

Ingressar na Academia Mato-Grossense de Letras me deixa orgulhoso. Faceiro... e toceira. Toceira pra catiça, ah... que gostosura me causa o exercício de uma expressão regional. 

Ao longo da minha vida, o falar cuiabano sempre provocou situações inusitadas. Nascido em Niterói, Rio de Janeiro, minha biografia é entrecortada por idas e vindas várias. Não tenho na minha oralidade o sotaque carioca acentuado, mas gosto de forçar a barra no cuiabanês. Que me parece um jeito muito original de se expressar. 

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Na minha infância, certa vez, numa escola em terras fluminenses, contei um causo e usei a palavra “corguinho”. Bastou para que eu fosse alvo de toda sorte de bullying. Não doeu tanto e até achei divertido imaginar que os alunos e alunas achariam correto que eu dissesse, em vez de “corguinho”, “corregozinho”. Ora, francamente... 

Sou um falador destabelado e poderia interpretar aqui um disparate de experiências curiosas que a vida tem me apresentado. Mas não posso e nem devo me alongar em demasia. Mas, alerto vocês, minhas queridas convidadas e convidados, que não estarão jamais livres da minha memória que, a tiracolo, traz a disposição minha para escrever. 

A conversa que segue diz e respeita – e acho justo – os ritos de um discurso de posse nesta Academia. Chegou a hora de falar da Cadeira 12 da Academia Mato-Grossense de Letras. Aquela mesma que ninguém tasca, porque ela é minha. Fui eleito com méritos e, na medida do possível, vou honrar meus predecessores. A vocação para o verso tem sido uma constante nessa Cadeira. 

posse

 

O Patrono da Cadeira 12 é o capixaba Antônio Cláudio Soído (1822-1889). Foi militar, tradutor, escritor e poeta. Em 1857, como oficial da Marinha Imperial, pela primeira vez, veio parar aqui em Cuiabá. Para investigar as possibilidades da navegação na Bacia do Prata, naqueles tempos em que a Guerra do Paraguai se anunciava. 

Soído foi um destacado oficial da Marinha, atuando em outros estados como Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco. Quando se viu livre dessas funções radicalmente disciplinares, solicitou sua mudança – que foi aceita – para Cuiabá. E é aí que entra a parte mais afim da sua trajetória neste discurso. 

Antônio Soído é apontado como principal difusor da estética romântica na literatura mato-grossense e, apesar de viver numa região distante e isolada, naqueles tempos, seus versos já apresentavam um estilo vanguardista, deixando para trás o arcadismo, ainda tão presente no final do século 19. 

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Não que este novo imortal (eu mesmo) seja um poeta da vanguarda. Mas, até gostaria... Mais enfileirado com Antônio Soído estaria, no que se refere ao verso. Mas, na carreira militar... quá!!! 

O imortal seguinte da Cadeira 12 é mais semelhante a este discursador. Apesar de formado em Direito, Gabriel Vandoni de Barros (1907-1988), foi poeta e jornalista. Nascido em Corumbá, nos tempos do Mato Grosso indiviso. Dr. Gabi, conforme era chamado pelos mais íntimos, foi também deputado por duas vezes e sofreu perseguições políticas pelos governos ditatoriais de seu tempo. Será que foi porque entrevistou Luiz Carlos Prestes duas vezes¿ Vai saber... 

Gabriel Vandoni era de família abastada e foi filantropo ao longo de sua vida. Na sua cidade natal, Corumbá, com recursos próprios, construiu o Museu do Pantanal e também inúmeras escolas para crianças carentes. 

posse

 

Ao citar o doutor Gabi, impossível não mencionar o que ouvi da boca do saudoso poeta Manuel de Barros: “Corumbá é a cidade mais cuiabana que existe”. O discurso de posse de Vandoni nesta Academia ganhou fama e conquistou, pelo menos, o público cuiabano. Recebeu a nominação: “Cuiabá: terra agarrativa”. 

E aproveito para fazer minhas, as palavras do doutor Gabi, pois Cuiabá é mesmo uma terra que gruda na dgente. O Caju: Meu caju nativo cuiabano/ não é cativo:/ Nasceu com as pedras e o vento/ (cajuzinho espontâneo sem pai)/ Órfão sorrinte/ Incercado e sempre livre/ das bandas do Araés ao Ribeirão/ Cajuzinho do povo/brotado entre cascalhos livremente/ e por isso gostoso e cuiabano. 

Com este poema começo a falar sobre o último ocupante da Cadeira 12, o poeta e jornalista cuiabano Ronaldo de Arruda Castro (1941-2001). Um autor que herdou do pai – Rubens de Castro - o destino poético. Me identifico muito com Ronaldo, seja pela liberdade do seu verso, seja pela criticidade do jornalismo que ele praticou. 

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Sua poética moderna e engendrada muito no imaginário das coisas desta terra, traz a sofisticação daquele que goza de intimidade com as palavras e as trata com carinho, provocando surpresas e encantamentos aos mais variados leitores. 

Os poemas de Ronaldo me remetem a celebridades da literatura mundial: Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo.../ Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer/ Porque eu sou do tamanho do que vejo/ E não do tamanho da minha altura... (Fernando Pessoa) ou Fale de sua aldeia e estará falando do mundo (Leon Tolstoi).

E dá-lhe Ronaldo Castro: CUIABANÁLIA: Ah! cuiabanália . . ./ Cidade intoxicada do bagaço/ tecnetrônico / estereofônico/ biônico /supersônico / agônico/ atômico/ Onde o viver canônico/ A sombra cheirosa dos quintais em flor! / narcotizou-se o amor/ Ah! cuiabanália . . . / Agora, espigões, néon, / Excesso de decibéis, / Jeans, gatonas trepadas/ No lombo rouco das motos, / Superlotando os motéis. / Só há rock, drive-in,/ Lanchonete, pizzaria / E o terror dos quartéis,/ Onde a boa etária!/ Ah! cuiabanália. . . / Pobre não mora, formiga/ Nas favelas do BNH./ Rico vira executivo / E coça no CPA./ Onde a Cuiabá telúrica/ Parindo a raça viril/ Emprenhada por sutil! /Ah! Cuiabá canalha/ -cui-a-ba-ná-li-a- / Cortesã das multinacionais / Com seu arsenal eletrônico/ agônico/ estereofônico/ biônico/ supersônico/ atômico/ Ah! cuiabanália . . ./ Onde a Cuiabá pudenda/ Das igrejas, candomblés/ E dos pios cabarés!/ Já não há virgens postiças/ Nas escolas enfermiças,/ A boemia e seus vícios,/ Seus bêbados vitalícios/ Prostitutas sacrossantas/ Pelas ruas não há tantas./ Só há tóxico e frescura/ Poluindo a noite pura./ Cuiabá metálica/ neurótica/ caótica/ semi-ótica/ estroboscópica/ Cuiabá feia e fétida/ esfingética/ hermética/ cibernética/ Cuiabá caquética/ Ah! cuiabanália . . . / Onde a Cuiabá erudita/ doce e mansa/ culta e santa/ Cuiabá romântica/ semântica/ Dos artistas e poetas/ Onde a barroca matriz/ O coreto e o chafariz// Ah! cuiabanália . . ./ Cuiabá morreu e/ Vou para San Sebastian/ - fronteira do México com o Nepal - / Que tenho porre marcado/ Com Rimbaud, Chopin, Van Gogh/ E São Francisco de Assis/ ( Cuiabá não é mais feliz )/ cuiabanália canalha. 

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Escrevi, em 2001, um artigo me referindo à passagem de Ronaldo Castro para outras dimensões. Lembro-me que comecei confessando que não cheguei a conhecer pessoalmente o poeta. Hoje, emocionado, assumo a Cadeira que foi dele nesta Casa. Que coisa... Não conheci Ronaldo, mas hoje aqui estão, prestigiando a minha posse, os seus familiares. Quanta felicidade tê-los aqui. E convido a todos vocês que aqui estão, a aplaudir o poeta ausente e imortal e a sua família. 

Não sei aonde a literatura vai me levar. Tenho a impressão que nasci poeta, embora fique prosa, às vezes. E em Mato Grosso acabo de galgar uma razoável imortalidade. Ao dizer isso, não desmereço a Academia. Assim escrevo para o registro de que a literatura é algo que não se pode trancafiar num espaço acadêmico. Ela precisa ouvir e contracenar com os ruídos que chegam das ruas para alimentar e iluminar a alma de quem lida com as palavras. A literatura precisa ser verdadeira e estar em toda parte. 

Como representação da realidade e gerada segundo a ótica de uma pessoa normalmente mais sensível, a literatura tende a exercer um grande poder transformador. Daí, a necessidade de que o verso e a prosa atinjam em cheio todas as camadas sociais, ampliando a compreensão de mundo e formando sociedades mais evoluídas, mais libertas e capazes de interferir positivamente na vida de todos. 

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É nessa direção que pretendo atuar ao lado de todos que integram esta Academia. Meu discurso tem a intenção de incomodar. Acredito que a força institucional desta Casa deve estar atrelada à necessidade de combater, principalmente, à falta de interesse e de vontade política que as instituições públicas de Mato Grosso vem demonstrando em relação às ações e estratégias (estratégias???) no trato com a cultura, de uma forma geral. 

Não se trata de uma crítica específica a este ou aquele governo. Falo de uma situação que perdura desde sempre. Ou melhor, desde que passei a me entender como gente. 

Nesta hora preciso lembrar que são os artistas de Mato Grosso aqueles que elevam e projetam o nome deste Estado nos cenários nacional e internacional. E nunca, ou quase nunca, nossos governantes e políticos que volta e meia são flagrados pela mídia envolvidos em situações vexaminosas que deixam a nós, que aqui vivemos, com cara de tacho. 

posse

 

Estou quase terminando. E não poderia me omitir diante da necessidade de que esta Academia volte a sua atenção para as literaturas que têm sido produzidas, nos últimos anos, por autores que habitam as diferentes regiões deste Estado de dimensões continentais. A miscigenação escancarada que assola Mato Grosso nas últimas décadas está a moldar uma superlativa diversidade que já faz parte da nossa história, da nossa cultura. 

É isso. Tornar esta Casa, cada vez mais, uma trincheira aberta onde possamos cerrar fileiras, contando com o apoio popular, em torno de um ideário nobre e ético, pautado em valores positivos sociais, políticos e culturais. É esse o objeto do meu desejo, como o mais novo imortal de Mato Grosso. 

Agradeço a presença de todos que aqui estão e o meu abraço fraterno aos acadêmicos que me elegeram. Aproveito para fazer uma promessa aos meus apoiadores: vocês não vão se arrepender!!! 

Encerro agradecendo aos meus pais, Alayr e Rosa, que vieram do Rio de Janeiro para esta bela ocasião. E aos meus filhos, Beatriz, que também veio do Rio, e Vítor, que vive comigo aqui em Cuiabá, e que aguenta com generosidade as neuras e inquietações do pai que tem. Por falar em pai... paiê, chegou a sua hora de soltar a voz. 

Muito obrigado! 

 

 

*Discurso de posse de lorenzo tyrannus na Academia Mato-Grossense de Letras


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