CRÔNICA

Odeio espinafre!



Que saudade tenho de odiar espinafre. Sim, eu odiava espinafre com todas as forças. Espinafre, fígado e leite puro. Depois, comecei a odiar aulas de trigonometria e, em seguida, eletricidade. Odiava aquele círculo trigonométrico de senos, cossenos e tangentes, odiava resistores e os cálculos respectivos. Mais velho, odiei direito do trabalho, um direito que rouba quase tudo dos outros direitos. Odiei, de quebra, a professora, coitada, que tinha uma voz esganiçada. Depois odiei uns colegas mais velhos que competiram comigo o Centro Acadêmico, depois odiei alguns colegas advogados. Finalmente, odiei o PT e Lula que me fizeram de idiota, depois o PSDB que dizia ser limpinho e, ainda, odiei Dilma por esporte e odiei Temer por oba-oba. Mas o ódio cansa. A gente vai ficando mais maduro e cansado de odiar. Agora, parece que temos que odiar por obrigação. Ódio matutino, ódio vespertino, ódio noturno. Ódio público e declarado, ódio descarado, ódio fracionário ou ódio integral. Ódio chato. Ódio bom é aquele que se escolhe. Ódio protocolar é um porre. Esse negócio está virando uma paranoia tão grande que há ódio futuro, ódio a prestação, ódio condicional, tantas formas novas de odiar e dizer que se odeia, que para ser do contra, meu negócio agora é amar. Sim, porque se eu olhar para trás, o espinafre não é tão ruim assim, o fígado se come acebolado, trigonometria é até fácil e aquela minha professora sempre foi gente fina. Contra o ódio, resolvi fabricar um filtro, uma espécie de coador, fininho como aqueles de café. Até dia desses, a gente odiava o trânsito, odiava a fechada, odiava a buzina alheia. Mas o ódio cresce tanto e muda tanto que esquecemos dos nossos ódios antigos para dar lugar a novos ódios. Não mais. Vou acabar com isso agora mesmo. Defendo o ódio prosaico: o ódio de fila, ódio da mulher que atrasa, ódio do vizinho porco, ódios comuns, saudáveis. Para todos os outros casos, amor. Não um amor escancarado, aquele amor melado que todo mundo odeia sentir, mas um amor irônico, um amor sagaz, aquele amor que transforma ódio em piada de salão. Vou tentar odiar assim, amando. Odiar rindo, odiar gargalhando. Odiar sereno os radicais de toda a ordem, odiar macio os rancorosos, odiar docemente os malucos que me mandam odiá-los. Vamos voltar a odiar com simplicidade, odiar o prosaico, odiar como crianças. Vamos odiar coentro, odiar chicória, odiar salsinha. Vamos odiar andar a pé, odiar o vento, odiar calor. Não, não nos odiemos mais. Esse é um ódio amargo, um ódio de gente grande. De vez em quando me bate uma saudade dos meus ódios passados. Eram ódios mais verdadeiros. Que saudade tenho de odiar espinafre!

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Eduardo Mahon é advogado, escritor, poeta e articulador cultural


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