CONTO

Joaquim Maria*



Se me mandam falar, falarei, embora para nada sirvam minhas palavras, sabendo vós não ser eu, doravante, aquele Joaquim, de algum modo livre, que até estas terras de ouro e pedras raras chegou por longos caminhos e grandes perigos, desde a cidade de São Salvador da Bahia onde nenhuma liberdade nem salvação me era possível.

Assim vestida, num velho camisão ensanguentado, e destituída dos calções, botas, gibão e chapéu que escondiam minha verdadeira condição e me ofereciam o mínimo de liberdade ainda concedida aos homens brancos da arraia-miúda, nada me resta senão confessar-me apenas Maria, como tantas, Maria Isabel das Virgens, nascida num dia de festa da Visitação, mulher, sim, fêmea e nada mais, branca e pobre sem bens nem família que me amparem e por isso de nenhuma valia.

Bem sei estardes vós a dar-me a palavra para defender-me apenas em cumprimento ao dito pelas leis do Reino, inúteis para quem nenhum poder, riqueza, prestígio ou padrinho tem nestas colônias, e mais nulas ainda para as mulheres, nascidas para nada mais senão servir à mesa e à cama dos varões, em suas alcovas e fogões, no fundo das tabernas se aí as quiserem ou, na sua melhor sorte, como penhor de alguma aliança entre famílias poderosas. Nenhuma dessas condições é a minha nem as desejo e delas tentei fugir tornando-me Joaquim.

Vejo vosso ar de profundo enfado, vossas pálpebras a querer fechar-se em plena luz do meio-dia, por certo efeito da galhofada e do vinho da última noite, mas nem por isso refrearei minha língua, sendo minhas palavras atrevidas o último bafejo de liberdade a alcançar-me antes de me encerrarem num calabouço escuro ou de atarem-me ao pelourinho, se me não mandardes simplesmente enforcar e esquartejar para escarmento das demais Marias.

Seria de vossa preferência como a de todos os homens, bem sei, a mudez das mulheres, mas assim não quis Nosso Senhor ao dotar-nos, à vossa revelia, de ideias e fala como as vossas e, se me sinto livre para dizê-las diante d’Ele, tanto mais diante de um ignaro como me pareceis vós. Porque palavras, sim, as tenho, mais e melhores do que as dos senhores dos engenhos, dos contratadores de caminhos e passagens a estas Minas e até mesmo dos oficiais do Reino que por moedas e favores escusos compraram seus cargos, palavras que me seriam negadas pelos costumes desta colônia, mas adquiri por minha própria inteligência e astúcia, permanecendo abscôndita e calada por trás dos reposteiros da casa grande do engenho onde por puro acaso me criei, a ouvir e espiar as lições do padre-mestre aos preguiçosos e descuidados filhos do fidalgo e a exercitar-me no traçado das letras, com uma varinha de taboca na fina areia da margem de um riacho, até tornar-me mais hábil na escrita do que o próprio padre-mestre.

Mais me enriqueci do tesouro das palavras e pensamentos nos anos que passei metida no cartulário do convento de monjas clarissas da Bahia, como serva de Dona Blandina, amada por mim como uma irmã de sangue que nunca tive, mas cuja morte, por cruel mal de amor pelo qual ali seu malvado pai a encerrou, não pude evitar.

E para onde havia eu de ir, se já não tinha mais senhora que me abrigasse para servi-la no convento do Desterro? Para debaixo de algum arconas ruas da Bahia, tão perigosas e traiçoeiras para uma mulher? Disso havia muito sabia eu, e desde então concebi o ardil de obter trajes adequados e fazer-me de homem cada vez que tinha de ir buscar à rua os meios para alimentar e curar minha senhora, a quem o pai tudo negava. Fazendo-me de macho, dotado do talento da escrita bela e escorreita, munido de folhas papel, uma boa pena de metal, um frasco de tinta e lacre furtados do convento, mais alguns sinetes que talhei em madeira, muitas vezes me aventurei pelas ruas e tavernas, a ganhar tostões às custas dos iletrados senhores, sempre necessitados de quem lhes escrevesse cartas, petições, contratos e testamentos ou versos indecentes para presentear as suas marafonas. Desde, porém, que em busca de ouro e pedras, de mais terras e fortuna, um sem número de senhores daquela cidade e aventureiros que desembarcavam das frotas abalaram para cá, trazendo consigo os escravos que produziam a riqueza da Bahia, também meus ganhos tornaram-se parcos e não pude deixar de segui-los.

Montando a mula que recebi em pagamento de várias ordens régias falsificadas com perfeição para um rico clérigo, juntei-me a um bando que para cá se dirigia pelos longos caminhos do sertão, trazendo consigo tudo o que tinham e aqui falta, podendo-se vender com muito lucro: gado e carne seca para alimentarem-se, vender e encher vossos supinos ventres, e mais luxos de porcelanas, tecidos, escravos, iguarias, especiarias, ferramentas, entre tantos outros. Para isso muito lhes serviam meus préstimos já que, iletrados, não podiam nem se defender das fraudes nem fraudarem eles mesmos os contratadores dos caminhos, pontes e passagens onde não se pode escapar do recolhimento dos tributos.

Então, sim, fazia-me de muda ou quase muda, usando minhas as mãos, esgares e movimentos da cabeça para comunicar-me — que nestas terras de brutos parcas são as palavras e pouca falta fazem — para não me arriscar a ser traída pelo tom de minha voz.

Assim vivi, eu, Joaquim, homem livre, útil à cobiça dos outros e à minha própria sobrevivência, por léguas sem fim do chamado Caminho dos Sertões cujo trânsito, embora o tenha querido proibir, nem Sua Majestade o Rei de Portugal em pessoa poderia controlar. Por ali cheguei inteira até as Minas, mais forte em meu corpo e espírito e trazendo meu embornal mais pesado de moedas, as mesmas que agora devem estar acrescentadas a vossas arcas.

Sem jamais suspeitarem de minha condição de fêmea, segui com os demais, por rios e estradas ou por veredas e picadas clandestinas, por onde vêm tão várias mercadorias proibidas e por onde voltam o ouro em pó e as pedras para a vaidade dos Reis e da nobreza. Por certo vós, com vossa imensa pança, vossas curtas pernas e a frouxidão que vos dá a ociosidade, não haveríeis de aguentar tal caminho, nem mesmo se carregado em redes pelos escravos. Eu, porém, feita para aguentar outro ser crescendo no meu ventre e expedita de corpo inteiro, nem por um momento me senti tentada a desmontar de minha mula ou a abandonar a viagem, desde a cidade da Bahia até estas minas de Sabará.

Tudo isso suportei, melhor do que os homens que vinham na mesma caravana, pois para sofrer fui criada e mais cômoda do que eles estava eu sobre a sela porque nada tenho entre as pernas para incomodar-me. Tão bem me acostumara a ser Joaquim que descuidei e, já às portas da vila de Sabará, traiu-me a natureza: ao saltar da montaria para apresentar aos oficiais de guarda minha perfeitamente falsificada certidão de batismo, viu-se um jorro de sangue manchar e escorrer pelo couro da sela e por entre as pernas de meu calção que já fora branco. Agarraram-me todos, por bem ou por mal, não sei, despiram-me das botas e do calção, já não pude esconder quem sou e tudo me tomaram vossos homens. Tudo o mais que era meu, a mula, o embornal, meus instrumentos de trabalho e a pecúnia que eu com eles ganhara, já não me pertence, já nada tenho a perder, e bem sei que a pouca liberdade exterior de que gozei extinguiu-se para sempre, mas ninguém pode, senão pela violência extrema, tolher a liberdade de meus pensamentos e calar minhas palavras que usarei até o fim para dizer o quanto vos desprezo, que não sois mais que escória humana revestida de rendas, veludo e seda, recheada da gordura mal cheirosa com que vos empanturrais, sujo e nojento, tanto que por mais que vos chamem ouvidor, ou governador, ou oficial ou seja lá o que for que vos chamem, se não me calarem à força eu vos insultarei sem cessar e escarrarei em vossa caranton… Aaaaai!

*Reproduzido de https://revistagueto.com

mv

Maria Valéria Rezende nasceu em Santos (SP), mas já rodou pelo Brasil. Estreou na literatura em 2001 e é uma das mais premiadas autoras das letras brasileiras contemporâneas

 

 


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