ROMANCE

PanAmérica (trechos)*



Eu sobrevoava com o meu helicóptero os caminhões despejando areia no limite do imenso mar de gelatina verde. Sobrevoei a praia que estava sendo construída e o helicóptero passou sobre o caminhão de gasolina onde um negro experimentava o lança-chamas. Eu falei com o piloto do meu helicóptero apontando o caminhão de gasolina, e o helicóptero fez uma manobra sobre o caminhão-tanque e pousou alguns metros adiante. Eu saltei do helicóptero e gritei para o enorme negro que verificava o lança-chamas: “Hei!” Eu perguntei a ele como estava o lança-chamas para funcionar como coluna de fogo. O preto disse que eu me afastasse alguns metros e ligou o lança-chamas para o alto. O lança-chamas esguichou para cima um jato de fogo e o enorme negro fazia sinais para o homem que controlava a gasolina junto ao carro-tanque. Eu gritei para o negro que estava ótimo, que era exatamente aquilo que eu desejava. O negro foi controlando a saída de gasolina e a enorme nuvem de fogo erguida para cima foi diminuindo até se extinguir. Eu perguntei ao negro se ele sabia onde ele ia se esconder com o lança-chamas. O negro respondeu que o engenheiro já havia construído uma pequena elevação no mar de gelatina verde, e o esconderijo já estava cuidadosamente construído. “E o Burt?”, perguntei. O preto disse que não sabia, quando eu vi surgir do fundo de um edifício um caminhão trazendo Burt Lancaster com duas enormes asas brancas sobre os ombros. O caminhão estacou e eu perguntei: “Tudo bem, Burt?” “Péssimo!…”, respondeu Burt de cima do caminhão, com seus trajes brancos e as duas asas de anjo para cima.

***

Eu e Marilyn descemos uma pequena escada e, quando pisamos o último degrau, um filhote de leão que estava estendido na grama me mordeu o calcanhar. O filhote de leão permanecia com os dentes presos ao meu calcanhar e ele não prendia forte com os dentes. Eu pensei que eu não deveria retirar o filhote de leão, porque ele poderia chamar os leões com um pequeno urro. Mas o filhote de leão parecia brincar comigo, e continuava com os dentes presos levemente ao calcanhar do meu sapato enquanto rolava o corpo na grama...

Eu segurei a pequena cabeça do filhote de leão e o afastei colocando-o na grama. Eu e Marilyn Monroe nos afastamos rindo e pisando na grama do parque dos leões e vimos no mar os pequenos barcos puxados por golfinhos. Eu entrei num dos barquinhos e Marilyn Monroe entrou no outro. O golfinho saltou na água puxando o barco, que deslizava no mar ao lado das torres de concreto. Outro golfinho puxou o barquinho de Marilyn Monroe e eu e ela gritávamos de alegria no mar...

Marilyn subiu sorrindo e o seu biquíni tinha escorregado entre as pernas e ela mostrava as nádegas reluzentes e o triângulo de pêlos molhados. Eu falei para ela que nós iríamos comprar aquela casa, e que a piscina era ótima e o jardim muito amplo. Marilyn concordou comigo e começou a subir orgulhosamente a escada de concreto que levava aos trampolins. No momento em que ela subia e eu a acompanhava conversando a respeito da casa, todos os atores, atrizes, garçons e convidados olharam para o seu corpo lindo e firme que brilhava à luz do sol. O biquíni de Marilyn Monroe estava caído entre as pernas e as suas nádegas firmes, o triângulo de pêlos molhados, e o seu corpo jovem subia as escadas de concreto e refletia a luz do sol. E o seu profundo orgulho e desprezo por aqueles que a admiravam de baixo se transmitia para mim, e eu e ela continuávamos subindo as escadas conversando a respeito da casa que nós iríamos comprar, e eu me sentia seguro e Marilyn Monroe era a mulher que eu desejava profundamente para mim, e que todos desejavam e ela me pertencia...


*PanAmérica pode ser (ou não) conceituado como um romance pós-moderno que traz como personagens artistas hollywoodianos e outras pessoas famosas que estão participando de uma filmagem de episódios bíblicos

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José Agrippino de Paula e Silva (1937-2007) nasceu em São Paulo e saiu de cena em Embu (SP). Sua obra teve desdobramentos ainda não plenamente resolvidos

 


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