POESIA/PROSA

Cantos de Maldoror (Trecho)*



“Lá, num bosque rodeado de flores, repousa o hermafrodita, profundamente adormecido na relva, molhada por seu pranto. A lua separou seu disco da massa de nuvens e acaricia com seus pálidos raios essa doce fisionomia de adolescente. Seus traços exprimem a mais viril energia, e, ao mesmo tempo, a graça de uma virgem celestial.

Nada, nele, parece natural, nem mesmo os músculos do seu corpo, que abrem seu caminho através do contorno harmonioso das formas femininas. Tem o braço recurvado sobre a testa, a outra mão apoiada contra o peito, como para comprimir os batimentos de um coração fechado a todas as confidências, oprimido pelo pesado fardo de um segredo eterno.

Cansado da vida, envergonhado por caminhar entre seres que não se assemelham a ele, o desespero tomou conta de sua alma, e prossegue sozinho, como o mendigo do valo.

Como obtém ele os meios de sobrevivência? Almas caridosas velam de perto por ele, que não suspeita dessa vigilância e não o abandonam: é tão bom! é tão resignado! De bom grado, fala às vezes com aqueles que têm o temperamento sensível, sem lhes tocar a mão, mantendo-se à distância, no temor de um perigo imaginário. Se lhe perguntam porque tomou a solidão por companhia, seus olhos se elevam para o céu, mal retendo uma lágrima de recriminação contra a Providência; mas ele não responde a essa pergunta imprudente, que espalha pela neve das suas faces o rubor da rosa matutina. Se a conversa se prolonga, inquieta-se; volta os olhos para os quatro pontos cardeais do horizonte, como para tentar fugir da presença de um inimigo invisível que se aproxima, faz um brusco aceno de adeus com a mão, afasta-se sobre as asas do seu pudor despertado e desaparece na floresta. Tomam-no geralmente por louco.

Um dia, quatro homens mascarados, que cumpriam ordens, atiraram-se sobre ele e o amarraram solidamente, de tal modo que só pudesse mexer as pernas. O chicote abateu seus rudes látegos sobre suas costas e lhe disseram que se dirigisse sem demora para a estrada que leva a Bicêtre. Ele se pôs a sorrir enquanto recebia os açoites e lhes falou com tamanho sentimento e inteligência sobre as muitas ciências humanas que havia estudado, demonstrando tamanha instrução, nesse que não havia ainda transposto a soleira da juventude e sobre os destinos da humanidade, a revelar inteiramente a nobreza poética da sua alma, que seus guardiões, assustados até a medula pelo ato que haviam cometido, desamarraram seus membros quebrados, prosternaram-se de joelhos, pedindo perdão que lhes foi concedido e se afastaram, com os sinais de uma veneração que não se concede ordinariamente aos homens.

Desde esse acontecimento, que foi muito comentado, seu segredo foi adivinhado por todos, mas fingiam ignorá-lo, para não aumentar seus sofrimentos; e o governo lhe concedeu uma pensão honorífica para fazê-lo esquecer que, em um dado momento, haviam tentado interná-lo à força, sem prévio exame, em um hospício. Quanto a ele, gasta a metade do seu dinheiro; o restante, dá aos pobres. Quando vê um homem e uma mulher que passeiam por alguma alameda de plátanos, sente seu corpo fender-se em dois, de alto a baixo — e cada uma das novas partes vai abraçar um dos passantes; mas isso não passa de alucinação, e a razão logo recupera seu domínio. É por isso que não mistura sua presença, nem à dos homens, nem à das mulheres; pois seu pudor excessivo, nascido dessa idéia de não passar de um monstro, o impede de conceder sua simpatia ardente a quem quer que seja. Acreditaria profanar-se e, acreditaria profanar aos outros. Seu orgulho lhe repete este axioma: “Que cada um permaneça em sua natureza”.

Seu orgulho, eu disse, pois teme que, unindo sua vida a um homem ou a uma mulher, venham a recriminá-lo, mais cedo ou mais tarde, como por uma falta enorme, pela conformação do seu organismo. Então, fecha-se em seu amor próprio, ofendido por essa suposição ímpia, que na verdade só parte dele e persiste em continuar só, em meio aos tormentos; sem consolação.

Lá, em um bosque rodeado de flores, repousa o hermafrodita, profundamente adormecido na relva, molhada por seu pranto. Os pássaros, despertos, contemplam maravilhados essa figura melancólica, através dos ramos das árvores, e o rouxinol não quer que ouçam suas cavatinas de cristal. O bosque tornou-se augusto como um túmulo, pela presença noturna do hermafrodita infortunado.

Ó viajante extraviado, por teu espírito de aventura que te levou a abandonar pai e mãe, desde a mais tenra idade; pelos sofrimentos que a sede te causou no deserto; pela pátria que talvez procures, após teres, por muito tempo, errado, proscrito em regiões estrangeiras; por teu corcel, teu fiel amigo que suportou contigo o exílio e a intempérie dos climas que teu humor vagabundo te fez percorrer; pela dignidade que dão ao homem as viagens por terras distantes e mares inexplorados, no meio das geleiras polares, ou sob a influência de um sol inclemente: não toca com tua mão, como se fosse um frêmito de brisa, esses cachos de cabelos espalhados pelo chão, que se misturam à relva verde. Afasta-te vários passos, será melhor. Essa cabeleira é sagrada; foi o próprio hermafrodita quem o quis assim. Ele não quer que lábios humanos beijem religiosamente seus cabelos, perfumados pelo vento da montanha, nem que contemplem seu rosto que resplandece, neste instante, como as estrelas do firmamento. Mais vale acreditar que seja uma estrela verdadeira que desceu de sua órbita, atravessando o espaço, até esse rosto majestoso, que ela envolve com sua claridade de diamante, como se fosse uma auréola.

À noite, afastando com o dedo sua tristeza, reveste-se de todos os seus encantos para festejar o sono desta encarnação do pudor, dessa imagem perfeita da inocência dos anjos: o burburinho dos insetos é menos perceptível. Os ramos inclinam sobre ele sua copa cerrada, para protegê-lo do orvalho e, a brisa, fazendo ressoar as cordas da sua harpa melodiosa, envia seus acordes prazerosos, através do silêncio universal, até suas pálpebras baixadas que acreditam assistir, imóveis, ao concerto cadenciado dos mundos suspensos.

Sonha que é feliz; que sua natureza corpórea se modificou; ou que, ao menos, saiu voando em uma nuvem purpúrea, até outra esfera, habitada por seres da mesma natureza que a sua. Ah! que sua ilusão se prolongue até o despertar da aurora! Sonha que as flores dançam a seu redor, em roda, como imensas grinaldas loucas e o impregnam com seus perfumes suaves, enquanto ele entoa um hino de amor, entre os braços de um ser humano de uma beleza mágica. Mas é apenas uma névoa crepuscular que seus braços estreitam; e, ao despertar, seus braços não a estreitarão mais.

Não desperta, hermafrodita; não desperta ainda, suplico-te. Porque não queres acreditar-me! Dorme … dorme sempre. Que teu peito se erga, perseguindo a esperança quimérica da felicidade; isso eu te permito; mas não abre teus olhos. Ah! não abre teus olhos! Quero deixar-te assim, para não ser testemunha de teu despertar. Talvez um dia, com a ajuda de um livro volumoso, em páginas comovidas, eu venha a narrar tua história, espantado com o que ela contém e com os ensinamentos que dela se desprendem. Até agora, não fui capaz; pois, toda vez que o tentei, lágrimas copiosas caiam sobre o papel e meus dedos tremiam, sem que fosse por causa da velhice. Mas quero ter essa coragem, algum dia. Estou indignado por não ter nervos melhores que os de uma mulher e por desmaiar como uma moça, cada vez que reflito sobre tua grande miséria.

Dorme…dorme sempre; mas não abre teus olhos. Ah! não abre teus olhos! Adeus, hermafrodita! Todo dia, não deixarei de rogar ao céu por ti (se fosse para mim, nada rogaria). Que a paz esteja em teu coração.”

 

*Reproduzido de https://historiasdeamoremorte.wordpress.com . Excerto de "Cantos de Maldoror", livro de poesia em prosa. É considerada uma das obras seminais da literatura fantástica, ainda que o seu universo estranho e mórbido seja de difícil classificação

lautrea

Isidore Lucien Ducasse (1846-1870), mais conhecido como Conde de Lautréamont, foi um poeta uruguaio que viveu na França


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