CONTO

Brooksmith*



Estamos agora dispersos, os amigos do falecido Sr. Oliver Offord; mas tenho a impressão de que, a cada encontro casual, sentimos uns pelos outros uma espécie de respeito esotérico. Parece que admitimos, e num tom não muito rabugento: “Sim, você também viveu na Arcádia”. Ao passar pela casa da Rua Mansfield, lembro-me de que a Arcádia era ali. Não sei quem a possui agora, nem desejo sabê-lo; basta-me estar certo de que, se tocasse a campainha, não teria a sorte de ver Brooksmith abrir a porta.

O Sr. Offord, o mais agradável e mais atraente dos solteirões, era um diplomata aposentado que vivia de sua pensão algo acrescida de urna pequena renda; confinado, a maior parte do tempo, em virtude dos seus achaques, no canto da lareira, e satisfeito de lá estar todas as tardes do ano, a partir das cinco, para os visitantes que Brooksmith autorizava a subir. Brooksmith era o seu mordomo e o seu amigo mais íntimo, com quem todos nos mantínhamos, ou melhor, nos encontrávamos, nas mesmas relações que existem entre os súditos do soberano e o primeiro-ministro. Prestou o Sr. Offord, a meu ver, notáveis serviços ao seu país, por ter sido, durante anos, em países estrangeiros, o inglês mais encantador que já se conheceu. Mas provavelmente fora querido demais, querido até por gente que não queria isso, de forma que, como pessoas da sua espécie jamais ganham títulos ou dotações pelas coisas horríveis que não fizeram, sua recompensa principal consistia tão-só em nossas visitas.

Sim, íamos vê-lo com freqüência; e se ele não ficava esgotado com essa homenagem especial, seguramente não era por nossa culpa. Todo visitante que ia uma vez, ia outra; ir uma só vez era uma desconsideração que, estou certo, ninguém lhe infligia. Por isso, o seu círculo era essencialmente composto de habitués entre si, assim como dele, como deviam ser os de um salão feliz. Lembro-me bem de cada particularidade do lugar, até do aspecto intensamente londrino das casas cinzentas do lado oposto da rua, do espaço entre as cortinas brancas das janelas altas, e do lugar exato em que, uma determinada tarde, depus minha xícara de chá para que a levasse Brooksmith, o qual tardou um momento a apanhá-la, como quem colhe uma flor. A sala de visitas do Sr. Offord era, com efeito, o jardim de Brooksmith, seu canteiro humano, cuidado e podado; e se todos florescíamos e vingávamos em nossos lugares, a ele principalmente o devíamos.

Muitos ouviram falar bastante, embora poucos sem dúvida a tivessem visto, da famosa instituição do salão, e muitos nasceram para o desgosto de verificar que essa flor mais fina da vida mundana se recusa a desabrochar onde se fala a língua inglesa. A explicação que a isto se costuma dar é que as nossas mulheres não possuem a habilidade de cultivar essa arte de dirigir, através de uma paisagem sorridente, por entre praias sugestivas, um caudal sinuoso de palestra. Temo que a lembrança afetuosa e piedosa que guardo do Sr. Offord desminta essa afirmação, apenas para confirmá-la de maneira mais insidiosa. A sala de visitas desbotada e levemente amarelecida pela fumaça, em que ele passou tão grande parte dos últimos anos da vida, merecia decerto esse nome distinto; mas, por outro lado, não se podia dizer que ela devia o seu cunho a qualquer intervenção que pudesse por em relevo a circunstância de não haver uma Sra. Offord. O caro homem era, quando muito, capaz de aceitar um desses sacrifícios para os quais se considera terem as mulheres particular aptidão: reconhecera — em certa medida, é verdade, sob a influência de suas enfermidades físicas — que, se alguém quer ser encontrado em casa, deve conseguir não ir à rua. Aceitara, numa palavra, a verdade — que alguns novatos da vida social dificilmente aprendem — de que a gente, como se diz, tem de adotar uma linha de conduta, e que a única maneira até hoje descoberta de estar em casa é em casa ficar. Enfim, aquele canto de lareira resumia os seus hábitos. Por que motivo o abandonaria, se isso equivaleria a abandonar o que havia de reconhecidamente mais agradável em Londres, o grupo encantado e compacto (que aliás se diluía em pares ocasionais) em torno da fina lareira do século passado, a qual, salvo a notável coleção de miniaturas, era a melhor coisa encontrável na casa? Não era rico o Sr. Offord; tinha apenas a sua pensão e o uso, durante a vida, daquela casa como que aposentada.

Quando algum desconforto da hora presente me lembra, por contraste, a perfeição com que ali éramos tratados, pergunto a mim mesmo, mais uma vez, qual o segredo de tamanha perfeição. A gente aceitava-a como coisa natural naquele momento, porque tudo o que é supremamente bom produz mais aceitação do que surpresa. Eu sentia que éramos todos felizes, mas não examinava como era conseguida a nossa felicidade. Entretanto havia perguntas por formular, e que se me afiguram extremamente óbvias, agora que não há ninguém para lhes dar resposta. O Sr. Offord resolvera o insolúvel: criara um salão sem auxílio feminino, se não se levar em conta que algumas senhoras morriam por ser admitidas por ele, e que ele salvou a vida a várias. Mas eu devia ter adivinhado que existia um método na sua loucura, uma lei no seu bom êxito. Não era por simples acaso que ele atingira o alvo, havia uma arte em tudo aquilo. Mas como estava essa arte tão bem escondida? Afinal — já que a isto chegamos —, quem era o artista oculto?

Entregando-me alguns dias atrás a tal indagação, eu atinei com o fio da resposta. O que me auxiliou foi a minha estranheza ante certas condições que recordei, das que de ordinário pareciam tão naturais como um raio de sol num clima agradável. Como acontecia, por exemplo, que nunca houvesse ali uma multidão, nunca um número demasiado grande ou demasiado pequeno de convivas, mas sempre as pessoas que combinavam — provavelmente nunca houve lá nenhuma que não tivesse combinado —, as quais sempre iam e vinham, nunca passavam do tempo nem se tornavam incomodas, e no entanto nunca entravam nem saíam espetacularmente, com indiscreta familiaridade? Quem era aquele que nos colocava a todos onde queríamos, nos deslocava quando queríamos, nos punha em contato com quem procurávamos e nos salvava dos que desejávamos evitar, inserindo-nos, conforme a nossa inclinação, no círculo geral, ou acomodando-nos com um único interlocutor num sofá confortável? Por que eram os sofás tão confortáveis, os acasos tão felizes, os conversadores tão animados, tão atentos os ouvintes, os assuntos apresentados numa rotação tão bem preestabelecida como os pratos do jantar? Uma falta de assunto seria coisa tão inimaginável como um lapso no serviço. Estas reflexões não podiam deixar de me conduzir à verdade fundamental de que Brooksmith devia ter algo com a solução daquele mistério. Se não fora ele quem instalara o salão, era ele pelo menos quem o fazia funcionar. Numa palavra, Brooksmith era o artista!

Naquele tempo nós o sentíamos sem o formular, e tínhamos consciência, como agremiação organizada e próspera, de sua justiça imparcial, isenta de servilismo. Ele não tinha a menor parcela dessa vulgaridade. O seu convívio era de uma finura infinita. Sua delicadeza manifestou-se plenamente quando os meus olhos pousaram pela primeira vez, como tantas vezes haviam de pousar, no mordomo revelado, à luz confusa da rua, pela sua maneira de abrir o portão. Vi logo que, embora tivesse muita educação, carregava-a sem arrogância — ficara maleável e humano. L’École Anglaise — era o apelido que lhe dava, rindo, o Sr. Offord, quando, mais de uma vez, tempos depois, conversávamos a respeito dele. Lembra-me, porém, ter acusado o Sr. Offord de não lhe fazer plena justiça. No entanto, embora o meu velho amigo admitisse que o seu criado não era um dos gigantes da escola, compreendia-o perfeitamente e lhe era devotado, como hei de mostrá-lo; sem dúvida o pobre Brooksmith sentira a exatidão desse juízo quando o seu valor no mercado fora estabelecido pela primeira vez. Com efeito, a utilidade das pessoas da sua classe é calculada, em geral, por pés e polegadas, e o pobre Brooksmith tinha apenas uns cinco pés e três polegadas para exibir. Reconhecia a insuficiência desse cabedal, e estou certo de que devia sentir-se compenetrado da eterna justeza da relação entre serviço e estatura. Se ele fosse o Sr. Offord, decerto acharia Brooksmith deficiente, e a tolerância do seu amo a esse respeito era, sem dúvida, uma das muitas coisas que ele tinha de perdoar, e às quais acabou adaptando-se com indulgência.

Recordo-me de uma frase do ancião: “Oh! quanto aos meus criados, se eles conseguem ficar comigo quinze dias, conseguem ficar comigo para sempre. A primeira quinzena é que os põe à prova”. Foi, por exemplo, durante essa primeira quinzena que Brooksmith teve de saber que estava exposto a ser chamado “meu caro amigo” e “pobre criança”. Uma prova dessas deve ter-lhe sido estranha e profunda, e sem dúvida saíra dela fortalecido e purificado. Isto se lia, até certo ponto, em toda a sua aparência: naquela figura viva, magra e pequena, naquele branco rosto empedernido e nos seus cabelos extremamente alisados, que ressumavam responsabilidade e pareciam mantidos ao mesmo nível impecável da baixela, naqueles olhinhos claros e ansiosos, e até no tufo permitido, embora não muito encorajado, daquele queixa. “Ele deve julgar-me meio doido, mas eu o amansei, e agora gosta do lugar e da convivência” — disse o velho. Aceitei inteiramente essa opinião, depois de convencer-me de que a principal característica de Brooksmith era um refinamento profundo e arisco. Ainda assim, porém, fiquei um tanto embaraçado ao ouvir o Sr. Offord observar, em outra ocasião: “O que lhe agrada é a conversa, tomar parte na palestra”. Eu estava seguro de nunca ter visto Brooksmith permitir a si mesmo semelhante liberdade, mas logo adivinhei que a participação a que se referia o Sr. Offord era tão intensa que não havia palavras que pudessem exprimi-la; uma presença perpétua, sob uma centena de pretextos legítimos: pequenas tarefas, necessidades — e a respiração da própria atmosfera da crítica, da famosa crítica da vida. “É toda uma educação, não é verdade?” — disse-me ele, uma vez, ao pé da escadaria, quando me acompanhava à saída; e eu nunca me esqueci das palavras e do tom, primeiro sinal do acelerado drama da fatalidade do pobre Brooksmith. Era realmente uma educação; mas para que fim estava sendo educado aquele sensível rapaz de trinta e cinco anos, da classe dos criados?

Prática e inevitavelmente, por enquanto, para fazer companhia, para o serviço e o auxílio perpétuo e algo exagerado a uma pessoa tornada dependente pela idade e pelos achaques, e cada vez mais aplicada — aí estava o exagero — à arte de dar prazer aos outros exigindo-lhes serviços. O Sr. Offord era capaz de dizer que gostava que lhe fizessem certas coisas, ainda que não gostasse, mas desde que pensasse que os outros gostavam. Quando acontecia que os outros também não gostassem — o que era raro, mas não impossível —, havia, é evidente, disposições em contrário; mas Brooksmith estava ali para impedir que elas fossem muito longe. Era exatamente a sua maneira de agir como mediador; evitava os mal-entendidos ou os desfazia. Para tal fim, mostrara-se capaz, por mais estranho que pareça, de adquirir uma intuição do francês, língua constantemente usada em casa do Sr. Offord; não só por ser conhecida pela maioria dos forasteiros, e não eram poucos, que freqüentavam a casa ou lá chegavam com cartas — cartas que exigiam às vezes um pouco de consideração incomoda, e das quais Brooksmith sempre tinha conhecimento —, mas também por se haver tornado a língua natural do dono da casa. Não sei se todos os malentendus eram em francês, mas quase todas as explicações eram nessa língua, o que absolutamente não impedia Brooksmith de as acompanhar. Sei que o Sr. Offord costumava ler para ele trechos de Montaigne e de Saint-Simon, pois lia sempre quando sozinho, isto é, quando estavam a sós, e Brooksmith sempre se achava por perto. Talvez o leitor diga que não se admira de que o mordomo considerasse o Sr. Offord meio doido. Seja como for, se ignoro o que ele pensava de Montaigne, tenho certeza de que admirava Saint-Simon. Deve ter-lhe transmitido certo interesse pelas letras o simples manejo dos livros do amo, que ele continuamente carregava de um lado para outro, repondo-os depois em seus lugares.

Mais de uma vez observei que, quando se contava uma anedota, se citava um trecho ou, sobretudo, se travava uma viva discussão, ele, ocupando-se com o lume ou com as cortinas, com a lâmpada ou com o chá, sempre encontrava pretexto para permanecer na sala até o fim. Estando assim empenhado em pegá-la, teria sido indiscrição, desumanidade até, chamá-lo à parte; e jamais esquecerei um olhar, um olhar duro e frio — notei-o de passagem — que ele, um dia, quando havia muita gente no salão, fixou no lacaio que o ajudava no serviço, e em voz baixa lhe fizera alguma pergunta sem importância. Foi a única manifestação de aspereza que observei em Brooksmith, e não lhe compreendi logo o motivo. Verifiquei, porém, que o Sr. Offord estava contando naquele momento uma anedota muito curiosa, talvez nunca dantes divulgada, e que ele ouvira de uma testemunha ocular, a respeito da vida de Lord Byron na Itália. Nada me levaria a reproduzi-la aqui, porém Brooksmith esteve ameaçado de a perder. Se um dia me aventurasse a contá-la, sentiria quanto perderia em não ter a meu lado Brooksmith como ouvinte.

O primeiro dia em que a porta do Sr. Offord permaneceu fechada foi, como é de ver, uma data negra na história contemporânea. Chovia forte, e o meu guarda-chuva estava molhado. Brooksmith recebeu-o de minhas mãos exatamente como se aquilo fosse o preliminar de minha subida. Observei no entanto que, em vez de o guardar, o equilibrava gotejante sobre o tapete, e então notei que me fitava com um olhar profundo e grato e o seu ar de responsabilidade universal. Compreendi de pronto — entre nós quase não era necessário enunciar as perguntas e respostas. E, por haver compreendido que o nosso querido amigo desistira de receber, o que nunca fizera antes a não ser uma vez, exclamei angustiado:

— Como será diferente — e para tantos!

— Serei um deles! — disse Brooksmith.

E foi o começo do fim.

O Sr. Offord ainda desceu, mas estava quebrado o encanto, e o sinal mais certo disso era o fato de a conversação já não ser dirigida. Ia divagando, aos tropeços, um pouco assustada, como criança perdida que tivesse largado a mão da ama.

— O pior de tudo isso é que agora falaremos da minha saúde: c’est la fin de tout — disse o Sr. Offord ao reaparecer.

E eu mesmo reconhecia que grande modificação seria essa, pois nunca ele tolerara algo tão provinciano. Nós nos ocupávamos tão pouco uns com a saúde dos outros como com o tempo que fazia. Numa palavra, a palestra tornou-se nossa, não sua; e, como nossa, mesmo que ele participasse dela, só podia ser inferior. Sob tal forma, angustiava a Brooksmith, cuja atenção muitas vezes se desviava: ele tinha uma noção muito mais exata das condições íntimas do patrão do que a que refletia a nossa palestra superficial. Havia horas melhores, em que saía e entrava com maior freqüência; mas eu percebia que ele estava ciente do declínio, da quase ruína da nossa grande instituição. Parecia querer consultar-me a esse respeito, como quem se sente responsável pela continuação daquilo de uma ou de outra forma. Quando me comunicou pela segunda vez — da primeira o salão ficara fechado vários dias — que o patrão não recebia, quase eu esperava ouvi-lo dizer ao cabo de um minuto: “O senhor acha que devo continuar a receber em vez dele?” Como poderia ter-me perguntado, com a volta do outono, se não seria bom acender a lareira na sala de visitas.

Ele possuía uma resignada intuição filosófica do que seus hóspedes — nossos hóspedes, como acabei considerando-os em nossas palestras — esperavam. Por ele, absolutamente não aprovaria que lhe coubesse substituir o Sr. Offord; mas de tal maneira estava saturado da religião do hábito, que por nossos amigos faria o necessário sacrifício à divindade. Entretê-los-ia algum tempo mais, até que pudessem cuidar de si. Via-o encarar mentalmente a ocasião de, pela primeira vez na vida, seguir suas preferências mudas, suas limitações de simpatia, selecionar um pouco e voltar a uma tradição mais pura. Não ignorava eu que, a seu ver, pelo fim da carreira do nosso hospedeiro tinha havido certo relaxamento no critério de seleção.

Por fim, tornou-se mais comum encontrarmos a porta aberta do que fechada; porém, ainda quando estava fechada, Brooksmith me arranjava uma brecha para entrar, de sorte que na realidade lá não fui nenhuma vez sem fazer uma visita. A diferença principal consistia em que a minha visita se dirigia a Brooksmith. Realizava-se no hall, no canto familiar do pé da escada; e nós não nos sentávamos, ou, pelo menos, Brooksmith não se sentava; por outro lado, era de todo consagrada a um único assunto, e sempre parecia estar quase acabada, principiando, por assim dizer, no fim. Mas era sempre interessante e sempre matéria para reflexão. Verdade é que o assunto da minha meditação era invariavelmente o mesmo, invariavelmente este: “Tudo isso está certo, mas que será de Brooksmith?” E a minha própria resposta particular a essa pergunta não me deixava satisfeito. Sem dúvida, o Sr. Offord providenciaria a respeito dele. Mas providenciaria o quê? Eis a grande dificuldade. Não poderia providenciar convivência; ora, a convivência tornara-se uma necessidade da natureza de Brooksmith. Devo acrescentar que ele nunca mostrou um sintoma daquilo a que eu poderia chamar solicitude sórdida, ansiedade a seu próprio respeito. Era, antes, lívido e imensamente grave, como convinha a um homem a cujos olhos passava “a sombra do que outrora era grande”. Tinha a solenidade de uma pessoa que liquida, por circunstâncias deprimentes, um negócio antigo e de monta: era uma espécie de executor ou de liquidante mundano. Contudo, suas maneiras pareciam referir-se exclusivamente à incerteza do nosso futuro. Naqueles dias eu não podia permitir a mim mesmo... — vivia em duas salas da Rua Jermyn, e não tinha criado. Mas, ainda que as minhas rendas o permitissem, não me aventuraria a dizer a Brooksmith (tentando rivalizar com o Sr. Offord): “Meu caro amigo, vou empregá-lo”. De todo o tom de nossas relações se deduzia, por assim dizer, que era eu quem precisava de ajuda. Havia, com efeito, em toda a atitude de Brooksmith uma como segurança tácita de que ele cuidaria de mim.

Um dos membros mais assíduos do nosso círculo fora Lady Kenyon, e lembra-me que Brooksmith me contou que S. Exa. — apesar de suas próprias enfermidades, muito agravadas nos últimos tempos — viera em pessoa pedir notícias. Observei, em resposta, que ela havia de sentir a coisa mais do que outro qualquer. Brooksmith fez uma pausa antes de me dizer, em certo tom (não é possível reproduzir alguns dos tons que usava): “Irei vê-la”.

Fui vê-la eu mesmo, e soube que ele tinha ido visitá-la. Quando, porém, disse a Lady Kenyon, em tom de pilhéria, mas com um fundo de seriedade, que, quando tudo estivesse acabado, alguns de nós deveríamos fazer uma combinação, cotizar-nos e estabelecer Brooksmith por conta própria, ela me fez esta pergunta algo desconcertante: “Está pensando num bar?”. Encarei-a com um modo que o próprio Brooksmith, penso eu, teria aprovado, e repliquei: “Sim, O Brasão de Offord”.

O que eu quisera dizer era que, pelo amor da própria arte, devíamos evitar que uma capacidade tão peculiar e tamanha experiência fossem perdidas. Pensava realmente que, se mandássemos imprimir e distribuir alguns cartões tarjados com os dizeres “Brooksmith continuará recebendo no antigo local, das quatro às sete. O negócio continuará como de costume durante as transformações”, a maior parte de nós teria aderido.

Várias vezes Brooksmith, sempre por sua própria iniciativa, me levou para cima, e o nosso querido e velho amigo, acamado (num estranho roupão de brocado ornado de flores, que o tornava, sobretudo quando cobria a cabeça com um lenço que combinava bem, parecido, aos meus olhos, com Voltaire moribundo), fazia-me, durante dez minutos, uma sala tristemente encolhida. Eu tinha, de cada vez, a impressão de assistir ao último coucher de algum soberano social. Troçava, principesco, dos seus próprios sofrimentos, e não se preocupava de modo algum — como se a Constituição previsse o caso — com a pessoa de seu sucessor. Passava encantadoramente sobre os nossos sofrimentos, e nenhuma das suas brincadeiras — o que era uma abstenção galante, pois algumas delas seriam tão fáceis! — era feita à nossa custa. De vez em quando, confesso, vinha uma à custa de Brooksmith, mas tão pateticamente sociável, que o excelente rapaz olhava para mim com um jeito que parecia dizer: “Troque um olhar comigo, do contrário não poderei agüentar mais”. O que ele não agüentava não era o que o Sr. Offord dizia dele, mas o que ele não podia dizer-lhe em resposta. Para ele a conversação consistia em darmos a outrem oportunidade de nos dirigir a palavra; e, quando fora “visitar”, por exemplo, Lady Kenyon, era para levar-lhe o tributo do seu silêncio receptivo. Que seria da conversa dos seus superiores, se fazer bem o serviço importasse uma emissão de sons? Nesse caso a diferença fundamental deveria ter sido mostrada pelo silêncio deles; e muitos deles, coitados, eram bastante silenciosos, mesmo sem essa cláusula. Brooksmith tomou incansável interesse em preservar a diferença fundamental: era, para a sua consciência, a coisa mais importante.

Mas que fim levou essa diferença depois que o Sr. Offord se fora embora, compelido, como qualquer pessoa inferior, a um silêncio eterno como um mordomo postado no alto da escada? Pode-se imaginar o aspecto de Brooksmith nessa ocasião e durante os dias seguintes, como também a multiplicação, por observância fúnebre, das coisas que não disse. Quando tudo estava acabado — naquele mesmo dia, já tarde —, bati ao portão da casa enlutada, como tantas vezes fizera. Nunca mais poderia visitar o Sr. Offord, mas vinha, literalmente, visitar Brooksmith. Desejava perguntar-lhe, por mais vaga e incerta que fosse a minha pergunta, se podia fazer algo por ele. O meu sonho presunçoso de tomá-lo a meu serviço dissipara-se: o meu serviço não o merecia. Só podia oferecer-lhe procurar outro lugar para ele, e isto mesmo era uma espécie de indelicadeza, pois importava a suposição de que os seus pensamentos necessariamente se houvessem fixado logo em tal assunto. Esperava que ele tivesse a possibilidade de dar à sua vida uma forma diferente, conquanto não aquela que muitas vezes resulta de tais perdas, e que consistia no estabelecimento de uma pequena loja. Seria terrível; pois eu mesmo, que haveria de desejar favorecer qualquer empreendimento em que ele se metesse, como podia deliberar-me a ir pagar-lhe xelins e receber dele o troco por cima de um balcão? Minha visita, pois, tinha apenas o sentido de um cumprimento, e foi assim que ele a acolheu, com toda a gratidão e todo o tato possíveis. Sabia que eu na realidade não podia ajudá-lo, e que eu sabia que ele sabia que eu não podia. Nem por isso deixamos de examinar a situação — em termos elegantemente gerais — ao pé da escadaria, no hall já desmontado, onde tantas vezes examinara com ele outras situações. Já os executores haviam tomado posse, como se fez mais evidente quando ele me convidou a passar alguns minutos na sala de jantar, onde vários objetos estavam sendo embrulhados para serem removidos.

Tinha ele, no entanto, duas coisas positivas para comunicar: a primeira, que devia deixar a casa para sempre naquela mesma noite (parece que os criados, por alguma razão misteriosa, deixam a casa sempre de noite); e a outra — só a mencionou no fim, e com certa hesitação —, que seu patrão lhe deixara um legado de oitenta libras.

— Fico muito satisfeito com isso — disse-lhe eu.

Brooksmith compartia a minha satisfação:

— Era tão próprio dele pensar em mim!

Foi tudo quanto se disse entre nós sobre o assunto, e nada sei do que ele pensou acerca da lembrança que lhe deixara o Sr. Offord. Oitenta libras sempre são oitenta libras, e nunca ninguém me deixou importância igual; todavia, senti-me desnorteado. Não sei o que eu esperava, mas era para mim uma espécie de choque. Oitenta libras davam para instalar uma pequena loja — uma loja muito pequena; porém, repito-o, não podia suportar um pensamento desses. Perguntei ao meu amigo se conseguira fazer economias.

— Não, senhor — respondeu-me. — Tinha obrigações.

Não lhe perguntei que obrigações eram essas: isso era lá com ele, e eu escutei a frase tão aprobativamente como se ele tivesse de sustentar a grandeza duma casa antiga; tanto mais quanto havia nas suas maneiras algo que permitia entrever a possibilidade de novos sacrifícios.

— Terei de me mexer, senhor... terei de cuidar de mim — disse.

E acrescentou, indulgente e generoso:

— Se o senhor por acaso ouvir falar em alguma coisa que me sirva...

Não podia deixá-lo acabar a frase. Pelos modos, aquilo era, em essência, demasiado grande. Livrar-me-ia de preocupações a respeito dele, se pudesse pretender que podia encontrar um lugar conveniente, e ele me quis dar este auxílio, pois sem dúvida lhe era penoso ver-me em posição tão falsa. Desviei a conversa para lhe dizer, em poucas palavras, quanto estava certo de que ele, fosse aonde fosse, fizesse o que fizesse, sentiria fundo a falta do nosso velho amigo; ainda mais do que eu, que, entretanto, passara muito mais tempo com o Sr. Offord. A minha afirmação levou-o a pronunciar as palavras que me ficaram na memória como o próprio tema de todo o episódio:

— Sim, isto é bem triste para o senhor e para grande número de cavalheiros e damas, sem dúvida. Mas para mim, senhor, se assim posso falar, é ainda mais grave do que isso: é exatamente a perda de alguma coisa que era tudo para mim. Para mim — continuou, enquanto dos olhos lhe brotavam lágrimas — era exatamente tudo; não sei se entende o que eu quero dizer. O senhor tem outros, suponho... sem que com isso pretenda dizer que sejam equivalentes, de qualquer ponto de vista. Mas enfim o senhor tem os prazeres da sociedade; pelo menos o de conversar sobre ele, como suponho que faz, livremente — por mais penoso que isto seja à abençoada memória dele —, com senhores e senhoras que tiveram a mesma honra. Eu não posso fazer outro tanto, e tenho de guardar comigo as minhas reminiscências. O Sr. Offord era as minhas relações, e agora, como vê, não tenho mais relações algumas. O senhor volta à conversação, e eu volto para o meu lugar.

Brooksmith tartamudeava sem ironia exagerada ou amargura dramática, mas com uma franqueza chã e desestudada, uma das mãos na maçaneta da porta. Virou-a para me deixar sair, e disse:

— Vou apenas descer com o senhor, e depois fico por aí.

— Pobre criança! — exclamei, retomado pela emoção, precisamente como o Sr. Offord costumava falar. — Meu caro amigo, deixe isso por minha conta; nós nos ocuparemos disso, todos nós faremos alguma coisa por você.

— Ah, se os senhores me pudessem arranjar alguém como ele! Mas não há duas pessoas assim no mundo — disse-me Brooksmith quando nos separamos.

Deu-me o endereço, o lugar onde poderiam dar notícias a seu respeito. Durante muito tempo não tive oportunidade de fazer uso da informação. Minhas tentativas mostraram-me quanto era difícil o caso dele. Os que o conheciam e tinham conhecido o Sr. Offord não o queriam por empregado, e eu não me deliberava a tentar lançá-lo no meio de estranhos — estranhos em relação ao passado, se não ao presente — de Brooksmith. Dele falei a vários dos nossos velhos amigos; encontrei-os todos dominados pela singular mistura de sentimentos que eu verificava em mim próprio, e ao mesmo tempo dispostos a julgá-lo “inutilizado”, sentimento que eu a essa altura absolutamente não compartilhava. Em termos mais simples, via-se neles certo embaraço, um sensível mal-estar à ideia de empregá-lo e de utilizá-lo como um criado; tantas vezes o tinham encontrado na sociedade. Alguns iam pedir-lhe, ou pediam-lhe, ou antes, pediam-me que lhe pedisse que fosse vê-los; mas o que eu queria para ele não era uma simples relação de visitas. Era baixo demais para as pessoas muito exigentes; contudo, ao ouvir falar de um lugar na casa de um diplomata, deixei-me levar a escrever-lhe um cartão, embora procurasse para ele muito menos uma coisa grandiosa do que uma coisa humana. Cinco dias depois, tive notícias dele. A esposa do secretário, depois de fazê-lo esperar todo esse tempo, achou que não podia empregar um criado que saía duma casa onde não havia uma senhora. Havia na carta um pós-escrito: “Ainda bem, senhor, que não tenha havido uma senhora como certas”.

Uma semana após, veio visitar-me e disse-me que estava colocado, contratado por uma família extremamente respeitável, algo muito importante na City, e que morava do lado de Bayswater do Parque.

— Suponho que há de ser coisa muito modesta — admitia ele —, mas eu vi os fogos de artifício, não é verdade? Ora, não pode haver fogos de artifício todas as noites. Depois da Rua Mansfield, não há muito que escolher.

No entanto, alguma coisa deveria haver para escolha; pois no ano seguinte, ao visitar uma parenta da província, dama de certa idade que viera passar uma quinzena na capital em casa de uma família amiga que eu não conhecia, residente no Largo Chester, o portão me foi aberto, com grande e grata surpresa minha, por Brooksmith em pessoa. Ao sair, troquei com ele algumas palavras, donde concluí que achara a rica família da City muito difícil de suportar, e conjeturei, conquanto não me houvesse dito nada, que a achara também vulgar. Não sei como teria julgado os seus novos patrões, se minha parenta não fosse amiga deles; em consideração desse fato, porém, absteve-se de comentários.

Nem disso houve necessidade; pois, antes que a dama em apreço chegasse ao fim da sua permanência, eles me honraram com um convite para jantar, que aceitei. Foi uma reunião grandiosa, mas confesso que pensei mais em Brooksmith do que na sociedade ali reunida. Os membros desta não exigiam, aliás, atenção profunda — todos eles podiam ser reduzidos a protótipos usuais, inevitáveis e irremediáveis. Era um mundo de lugares-comuns alegres, de gentileza consciente, de próspera espessura, um mundo insular material, bem alimentado, um mundo de repulsiva baixela floreada, de maneiras pesadonas e de conversação rala. Não se pronunciou uma palavra sequer a respeito de Byron, nem ao menos de um bardo menor, então muito em voga. Nada me haveria levado a olhar para Brooksmith no decorrer da refeição, e tinha certeza de que nem mesmo se entornasse o meu copo de vinho ele procuraria o meu olhar. Havia entre nós uma simpatia intelectual; sentíamos um para com o outro certo grau de responsabilidade mundana. Numa palavra, tínhamos estado juntos na Arcádia, e ambos chegávamos àquilo! Não era de estranhar tivéssemos vergonha de nos olharmos. À saída, ele ajudou-me a vestir o sobretudo, e separamo-nos em silêncio pela primeira vez após os primeiros dias da Rua Mansfield. Deu-me a impressão de estar com a cara chupada e um ar estragado, e adivinhei que aquele emprego não era mais “humano” que o anterior. Havia bife e cerveja em abundância, mas faltava reciprocidade. Antes de aceitar a colocação, em vez de se informar sobre “quantos criados havia”, ele devia ter perguntado: “Quanta imaginação?”

De outra vez que fui àquela casa — o que não se deu muito pouco depois, devo confessá-lo —, já encontrei no lugar dele um sucessor, personagem que, pelo visto, gozava a sorte de nunca ter deixado seu nível habitual. “Pode haver nível mais alto?” — parecia interrogar por cima da cabeça de três criados e, até, de alguns convidados. Afigurou-se-me que Brooksmith estava morto, mas não tive coragem de interrogá-lo, pois não agüentaria o seu “não tenho a menor idéia, senhor”. Mandei um cartão ao endereço que o meu digno amigo me dera após a morte do Sr. Offord, mas não obtive resposta. Seis meses depois, porém, fui favorecido com a visita de uma mulher madura, lúgubre e suja, que se me apresentou como a tia de Brooksmith, e por quem soube que ele estava desempregado e doente, e a autorizara a procurar-me e dizer-me que, se eu pudesse consagrar meia hora a visitá-lo, isto lhe seria grande honra.

Visitei-o no dia seguinte — a mensageira dera-me um novo endereço —, e encontrei o meu amigo alojado numa sórdida ruela de Marylebone, um desses recantos de Londres que ostentam a última expressão de uma doentia miséria. O quarto que me indicaram ficava em cima de uma pequena tinturaria, de cuja porta pendiam inchadas luvas de pele de cabrito e xales desbotados. Havia uma porção de crianças imundas embaixo e em cima, e um cheiro de mofo quente, como que da fervura de roupas sujas.

Brooksmith estava sentado, com um cobertor nas pernas, a uma janelinha limpa, de onde, por trás de cortinas engomadas, de um branco azulado, podia olhar para uma quinquilharia, uma oficina de funileiro e um botequinzinho sebento. Achava-se em convalescença; assistiam-lhe a mãe e a tia. Gostei mais da parenta mais próxima, meiga e de extrema humildade; porém tive as minhas dúvidas sobre a mais remota, que talvez sem razão relacionei com o botequinzinho da frente — parecia, de certa maneira, suja do mesmo sebo —, e cujos olhos seguiam furtivamente cada movimento de minha mão, como para ver se ela não se aproximava do meu bolso. Ela não tomava essa direção; não podia, sem ser solicitado, pôr-me assim à vontade com Brooksmith. A porta do quarto abria-se várias vezes; velhas misteriosas vinham espreitar, e depois se esquivavam. Não sei quem eram; o pobre Brooksmith parecia cercado de vagas fêmeas, bebedoras de cerveja e cheias de curiosidade.

Ele próprio mostrava-se vago, de uma fraqueza evidente, e muito embaraçado; nenhuma alusão se fez, entre nós, à Rua Mansfield. Nem por isso deixava de pairar-me ante os olhos, como por contraste, a visão do salão de que ele fora ornamento. Brooksmith assegurou-me que estava melhor, e sua mãe observou que ele já estaria bem de todo se pudesse criar ânimo. A tia fez eco a essa opinião, e eu fiquei mais convencido de que, se se tratasse do seu próprio caso, ela saberia onde ir buscá-lo. Receio haver-me mostrado fraco para com o meu velho amigo, pois deixei passar essa oportunidade tão excepcionalmente boa de repreender a leviandade que o levara a resignar posições honrosas, ótimos empregos permanentes em Bayswater e Belgravia, um dos quais implicava, como eu bem sabia, orações pela manhã. Muito provavelmente suas razões eram profanas e sentimentais: ele não queria orações pela manhã, queria ser o caro amigo de alguém; mas não podia ser eu quem o repreendesse por isso. Ele fugia desses episódios; vi que não tinha vontade de os discutir. Observei também, com muita estranheza, que rever-me ainda uma vez seria, para ele, prazer duvidoso; agora ele duvidava até da minha capacidade de perdoar-lhe as aberrações. Não queria ter de explicar-se; e era provável que o seu procedimento futuro necessitasse explicações. Ao despedir-me dele, fitou-me por um instante com olhos que diziam tudo: “Como posso eu falar daqueles anos deliciosos neste lugar, perante esta gente, com as velhas enfiando a cabeça pela porta? O senhor foi muito gentil em visitar-me; a idéia não foi minha, ela é que o trouxe. Tudo entre nós já foi dito. Agora está acabado; o senhor perderia toda a paciência comigo, e prefiro que não veja o resto”. Mandei-lhe algum dinheiro, por carta, no dia seguinte, mas o resto pareceu-me apenas uma desoladora seqüência.

Um ano após a minha visita, jantando certa noite fora de casa, notei que um dos criados que pairavam atrás de nossas cadeiras era Brooksmith. Ele não me abrira o portão da casa, nem eu o tinha reconhecido no tropel de criados que nos recebera no hall. Dessa vez procurei encontrar-lhe o olhar, porém ele não me deu nenhuma oportunidade para isso; e quando me estendeu o prato, tudo que pude fazer foi agradecer-lhe de maneira audível. Servi-me de duas entrées — a respeito das quais tinha as minhas dúvidas, logo depois transformadas em certezas — a fim de não maltratá-lo. Parecia bem de saúde, mas deveras envelhecido, e ostentava em grau excepcionalmente forte a máscara vidrada e inexpressiva do criado inglês de raça. Verifiquei, compungido, que, se o não conhecesse, o teria tomado, pela expressão do rosto, por uma ilustração extravagante da irresponsável tristeza servil. Disse comigo mesmo que ele se tornara um reacionário, se bandeara para os filisteus, se atirara à religião de seu “lugar”, como uma dama estrangeira que principia a envelhecer. Adivinhei, além disso, que ele estava contratado apenas para aquela noite, que se tornara um simples garçom, juntando-se ao bando dos de colete branco que faziam “serviços extras”. Havia nesse fato algo patético; era uma vulgarização terrível de Brooksmith. Era a prosa mercenária do mordomismo, ele desistira de lutar pela poesia. Se fora a reciprocidade o que lhe faltara, onde estava agora a reciprocidade? Só no fundo das garrafas de vinho e nos cinco xelins — ou o que podiam ganhar — empurrados na mão deles pelo criado efetivo. Supunha, no entanto, que ele abraçara uma variante precária da sua profissão, porque assim, afinal de contas, descia menos escadas. Suas relações com a sociedade de Londres eram mais superficiais, mas, de qualquer maneira, mais variadas.

Ao sair, nessa ocasião, procurei-o avidamente entre os quatro ou cinco servidores cujas personalidades perpendiculares, listrando as paredes dos corredores de Londres, supostamente lubrificam o processo da partida; mas não estava de serviço. Perguntei a um dos outros se ele não estava em casa, e recebi esta resposta pronta: “Acaba de sair. O senhor deseja alguma coisa?” Tive ímpeto de lhe dizer: “Transmita-lhe minhas lembranças cordiais”. Mas abstive-me, não quis comprometê-lo. E nunca mais o encontrei.

Muitas vezes, jantando fora de casa, procurei-o, e cheguei a aceitar convites só para multiplicar as probabilidades de encontrá-lo. Mas sempre em vão. Como encontrei seguidamente vários outros membros da classe dos “extras”, terminei adotando a teoria de que ele procurava sempre conhecer de antemão a lista dos convidados, e fugia aos banquetes em que antevia a minha presença. Por fim perdi toda a esperança, até que, ao cabo de três anos, recebi segunda visita da tia, ainda mais lúgubre e suja, quase sórdida, e em grandes atribulações e necessidades. Sua irmã, a Sra. Brooksmith, morrera havia um ano, e três meses depois seu sobrinho desaparecera. Ele sempre cuidava dela um pouco, desde que principiaram seus infortúnios. Nunca soube que infortúnios eram esses. Agora não lhe restava nem uma saia para empenhar. Tinha também uma sobrinha, para quem fora tudo antes de seus infortúnios, mas esta procedera com ela de maneira vergonhosa. Eram pormenores. O grande fato romântico era a evasão final de Brooksmith ao seu destino. Saíra ele uma noite para um extra, como de costume, de colete branco, que ela com suas próprias mãos o ajudara a vestir. Devia ir a um grande sarau, lá para as bandas de Kensington. Porém nunca mais voltara, nem chegara jamais ao grande sarau, nem a sarau algum de que alguém pudesse dar notícia. Nenhum vestígio dele aparecera nunca, nenhuma cintilação de colete branco atravessou a obscuridade da sua sorte. Essa notícia era para mim um rude golpe, pois eu tinha as minhas ideias sobre o seu destino verdadeiro. Sua velha parenta não tardara, segundo me comunicou, a chegar às piores conclusões. Não se sabe como, não se sabe para onde — o certo é que ele se esquivara para sempre, e agora eu espero que, com deliberação característica, esteja mudando os pratos dos deuses imortais. Como ainda me relatou a minha visitante, nunca mais ele criara ânimo. Felizmente eu me achava em condições de mandá-la embora com o dela um pouco melhorado. Mas o vago espectro do pobre Brooksmith é um dos que me aparecem. Ele ficara realmente inutilizado.

 

*Conto reproduzido da coleção "Mar de Histórias" (Nova Fronteira), volume 6. Organização e tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai

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Henry James (1843-1916) nasceu nos EUA, mas naturalizou-se britânico. Foi autor de alguns dos romances, contos e críticas literárias mais importantes da literatura de língua inglesa

 

 


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