CONTO

Bam-Bam



A criança jazia prostrada no leito, e seus olhos dilatados pela febre olhavam fixamente para algo que só ela conseguia ver.

Ao pé do leito, dilacerada pelo sofrimento, a mãe comprimia as próprias mãos para não chorar, e acompanhava ansiosamente a evolução da doença no rosto emaciado do filho. Também o pai, um honesto trabalhador, a custo retinha as lágrimas.

Naquela manhã de junho, clara e ensolarada, o pequeno Roberto, filho de André e Madalena Legrand, parecia encaminhar-se para uma morte próxima. Apenas três semanas antes ele era um menino ativo, corado, vivo e saltitante como um pardal. Mas uma febre persistente o acometera, e ele fora trazido da escola para casa com a cabeça pesada e as mãos muito quentes.

Desde então ali permanecera, apático. Às vezes, quando delirava, olhava fixamente para seus sapatinhos bem engraxados, que a mãe colocara a um canto, e dizia:

— A senhora pode agora jogar fora os sapatos do seu Robertinho. Ele nunca mais vai usá-los! Nem vai mais voltar para a escola. Nunca, nunca!

Então o pai o repreendia:

— Não diga isso, filhinho!

E a mãe, pálida e angustiada, afundava o rosto no travesseiro, para que o seu Robertinho não lhe ouvisse o pranto.

Na noite passada a criança não havia delirado, mas nos dois dias anteriores o médico ficara preocupado com uma certa prostração, que denotava nele algo como uma desistência, uma entrega dos pontos, como se, com apenas sete anos, o doentinho estivesse cansado de viver. Abatido, silencioso, triste, ele movimentava sem energia a cabecinha no travesseiro. Sem o mais leve sorriso nos lábios finos e descorados, o seu olhar vago, quase imóvel, se perdia numa coisa qualquer, que ninguém sabia o que fosse — algo distante, muito distante.

No céu, talvez! — pensava Madalena, trêmula.

Quando queriam que ele tomasse algum medicamento, uma sopa, ele recusava. Recusava tudo.

— Você quer alguma coisa, Robertinho?

— Não, não quero nada!

— Precisamos tirá-lo dessa situação — disse o médico. — Esse torpor me deixa preocupado. Vocês são os pais, e conhecem bem seu filho. Vejam se encontram alguma coisa que possa animá-lo. Algo que consiga trazer o espírito dele de volta à terra.

Ao se despedir, o médico insistiu:

— Procurem!

Sim, eles conheciam bem seu filho. Sabiam como o pequeno gostava de passear no campo, aos Domingos, e voltar a Paris nas costas do pai, com os bolsos cheios de pequenos e insignificantes objetos que encontrara.

André Legrand comprou alguns soldadinhos de chumbo com uniformes dourados, desembrulhou-os e os pôs diante do menino. Triste como estava, fê-los movimentar-se, tentando obter um sorriso do filho.

— Está vendo, Robertinho? Esta é a ponte quebrada, e este é um general. Lembra-se daquele general que vimos no Bois de Boulogne? Se você tomar o remédio direitinho, vou comprar um de verdade para você, com túnica e dragonas douradas. Quer que eu traga para você um general?

— Não — respondeu a criança, com aquela voz seca de um paciente febril.

— Você quer então um revólver? bolas de gude? um estilingue?

— Não! — Não! — Não!

— Mas então o que é que você quer, meu filhinho? — perguntou a mãe. — É claro que tem de haver alguma coisa que você quer. Diga-o para sua mãezinha, e ela vai trazer para você.

Ela disse essas últimas palavras com o rosto colado ao travesseiro do menino, sussurrando-as no seu ouvido como se fosse um segredo. Endireitando-se no leito, e estendendo a mão para alguma coisa vaga e invisível, o menino respondeu com voz decidida, ao mesmo tempo implorante e imperativa:

— Eu quero Bam-Bam!

Bam-Bam!

A pobre Madalena lançou um olhar assustado ao marido. O que tinha dito o menino? Teria voltado o apavorante delírio?

Bam-Bam!

Ela não conseguia imaginar o que aquilo pudesse significar, e temia as palavras que a criança repetiu com persistência, como se, só agora conseguindo enunciar o seu sonho, se apegasse a ele com invencível obstinação:

— Sim, Bam-Bam! Bam-Bam! Eu quero Bam-Bam!

Madalena tomou as mãos de André, e falou baixinho, em desespero:

— Que quer dizer isso, André? Será que ele está perdido?

Porém André tinha na sua face rude de trabalhador um sorriso de quase felicidade, mas ao mesmo tempo de espanto — o sorriso de um condenado que afinal encontra alguma possibilidade de conseguir a liberdade.

Bam-Bam! Ele se lembrava bem de uma manhã de Páscoa, quando levou Robertinho ao circo. Ressoavam-lhe no ouvido os gritos de prazer, o riso feliz do menino que se divertia quando o palhaço, com a larga roupa preta rebrilhando de estrelas douradas, e com uma grande borboleta multicolorida presa nas costas, saltava no picadeiro, corria montado num monociclo ou parava, plantando uma bananeira. Ou então quando ele jogava chapéus para o alto, e em seguida eles lhe caíam sobre a cabeça, um por um, formando uma pirâmide. Cada chapéu que caía, ele abria a face num largo e zombeteiro sorriso, e repetia a mesma exclamação, vez ou outra acompanhada por acordes da orquestra: Bam! Bam!

Bam-Bam! Cada vez que ele gritava "bam!" "bam!", os espectadores acompanhavam com gritos de aprovação, e o menino os imitava, com seu sorriso admirativo. Bam-Bam! Era esse Bam-Bam, esse palhaço de circo, favorito de grande parte da cidade, que o menino queria ver, agora que estava preso ao leito e não podia ir ao circo.

À tarde, André Legrand trouxe para ele um boneco articulado, caríssimo, representando um palhaço com suas roupas características. Ele teria pago muito mais — um ano de seu árduo trabalho — para devolver um sorriso aos lábios pálidos do seu doentinho.

A criança olhou por um momento o brinquedo, que o pai colocara sobre o leito, e depois disse:

— Não é Bam-Bam! Eu quero ver Bam-Bam!

Ah! se André pudesse embrulhá-lo no cobertor e levá-lo ao circo, ele o teria feito!

Mas fez melhor. Foi ao circo, pediu o endereço do palhaço e se dirigiu timidamente à casa dele. Com as pernas tremendo, subiu ao apartamento do artista em Montmartre. Era muita ousadia, o que André estava tentando fazer. Mas sabe-se que esses artistas são convidados para recitar seu monólogo em salões de festas, nas casas de gente rica. Talvez o palhaço... — será que ele concordaria... — talvez ele consentisse em ir dizer um bom-dia ao seu filho. Como esse Bam-Bam o receberia em sua casa?

Bam-Bam não era mais Bam-Bam! Era o Sr. Moreno, e a decoração elegante da casa era a de um homem comum que recebe uma visita. André não reconheceu o palhaço naqueles trajes. Depois de girar desajeitadamente nas mãos o chapéu, enquanto o outro esperava, afinal começou por desculpar-se:

— É um tanto estranho o que eu vim pedir — perdoe-me... desculpe-me — mas diz respeito ao meu filho. Um garoto muito bonito, senhor! E muito inteligente! Sempre o primeiro na escola, exceto em aritmética, que ele não consegue entender. Um sonhador, como o senhor percebe! Sim, um sonhador. E a prova é que... é que...

André agora hesitava, gaguejava; mas juntou seu resto de coragem e conseguiu dizer:

— A prova é que ele quer ver o senhor. Ele só pensa no senhor, e a sua imagem está lá, diante dele, como uma estrela que ele gostaria de ter, e que seus olhos de doente conseguem ver...

Quando terminou, André estava pálido, com bagas de suor caindo-lhe pelo rosto. Não ousava encarar o palhaço, que permanecia olhando para ele. Que iria dizer esse Bam-Bam? Iria despedi-lo, tomá-lo por um tolo e jogá-lo porta-a-fora.

— Onde o senhor mora? — perguntou o Sr. Moreno.

— Oh! bem perto! Rua das Abadessas!

— Então vamos! Seu garoto quer ver Bam-Bam, e ele vai ver Bam-Bam.

Quando a porta se abriu e o Sr. Moreno entrou, André Legrand disse com alegria ao filho:

— Robertinho, veja só! Eu trouxe Bam-Bam para você!

Um lampejo de alegria surgiu no rosto do menino. Ergueu-se no leito, com a ajuda da mãe, e virou o rosto para o local de onde se aproximavam os dois homens. Uma interrogação no olhar indagava quem seria o homem ao lado do pai. Ele não reconhecia aquele cavalheiro de rosto agradável. Deixou o corpo voltar lentamente ao leito, e permaneceu com os seus belos olhos azuis fixos na parede, procurando as estrelas brilhantes e a borboleta de Bam-Bam, como quem prossegue no seu sonho.

— Não! — disse em voz baixa, decepcionada. — Este não é Bam-Bam.

O Sr. Moreno olhou para o pai ansioso, depois para a mãe aflita, e disse, sorrindo:

— Ele tem razão. Eu não sou Bam-Bam — e saiu.

— Não posso vê-lo... nunca mais vou ver Bam-Bam! — disse a decepcionada criança, como quem conversa com os anjos. — Certamente Bam-Bam está lá... lá aonde Robertinho logo irá.

Mas de repente — apenas meia-hora depois que o Sr. Moreno saíra — a porta se abre e entra Bam-Bam. O verdadeiro Bam-Bam, com suas roupas largas e brilhantes, com a enorme borboleta multicolorida, com a cara pintada e um largo sorriso; o verdadeiro Bam-Bam do circo, o ídolo da garotada, o sonho de Robertinho.

No seu leito, a criança ria, batia palmas, gritava com entusiasmo, a alegria da vida refletida nos olhos:

— Bravo! Bam-Bam! Este é o meu Bam-Bam! Viva, Bam-Bam!

Quando o médico voltou, para sua visita diária, encontrou Robertinho sentado ao lado de um palhaço, que o fazia rir, rir, rir. Enquanto agitava um pouco de açúcar numa xícara de remédio, dizia:

— Olhe, Robertinho, se você não beber, o seu Bam-Bam não vai voltar mais. Assim... Que tal? Gostou?

— Gostei. Obrigado, Bam-Bam!

— Doutor — disse o palhaço, voltando-se para o médico — não fique com inveja. Parece que as minhas caretas fazem mais bem ao garoto do que os seus remédios!

André e Madalena não conseguiam reter as lágrimas, mas desta vez de alegria.

Até Robertinho voltar a andar, todos os dias uma carruagem parava diante da casa de um trabalhador na Rua das Abadessas, em Montmartre, e descia um homem com alegre rosto pintado, as roupas de palhaço por baixo do sobretudo.

— Quanto eu lhe devo, Senhor? — perguntou André, logo que Robertinho começou a andar.

Bam-Bam estendeu a mão para um cumprimento:

— Apenas um aperto de mão... E a permissão para incluir no meu cartão de visitas: "Bam-Bam, Médico acrobático a serviço de Robertinho" — disse, enquanto osculava a face da criança restabelecida.

 

 

*Reproduzido de http://contosbemcontados.blogspot.com

claretie

Jules Claretie (1840-1913) nasceu na França. Foi romancista, dramaturgo, cronista e historiador

 

 


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