CONTO (dois num)

Duplex...*



Fogueira faz parte da vida. Esse fogo do inferno, que inebria a mente e ofusca a visão, inicia sua saga pelo corpo, diluindo copo a copo. Entra pela boca, desce o esôfago até o estômago e daí, acho que por capilaridade, vai entrando nas artérias, veias, e depois nas mais estreitinhas encharcando as vísceras e entorpecendo os caminhos.

A cidade em movimento, uma garrafa gigante que devora mar de prédios, esquinas, carros, ônibus, sinais de trânsito, postes, transeuntes, ambulantes, vitrines, letreiros, mendigos, viadutos, botequins, barulho e bosta de cachorro na calçada. E gargalos.

A baixaria não evoluiu. Os supers, os ubers, os donos da verdade, os chatos de galocha, os empatafodas, as chatas choronas, as dadeiras, os contadores de piada; e mais outros embriagados, em fases diferentes... aparecem do nada, saco!!!! 

"Ele" puxa-lhe delicadamente a mão para o ponteiro de seu relógio biológico que, silenciosamente, marca doze horas. Ponteiro retilíneo e ereto. "Ela" se surpreende. Só um pouco...

Nebulosas confusas. O álcool é capaz de revelar e potencializar sensualidade provocante, insinuante, glamourosa, inteligente, humorada e compreensivamente antes pequenizada. Bacantes despertam taras de final de noite. Gente sem estribeira, com conversa sem nexo e interminável, arrastando os grilhões atados no cérebro e na língua mole, em corredores intermináveis.

— Uuiiiii...

O gritinho veio dele, beliscado em sensível região. Uma senhora de cabelos brancos azulados duas fileiras à frente virou-se e olhou-os. Achavam que seriam repreendidos novamente. A cinéfila aposentada abriu sorriso-flor.

Como começou a noite passada? Não é essa a pergunta: como terminou a noite anterior a isso, meu Deus? Um vácuo, um buraco negro no qual jaz. Vai se arrastando pelos cômodos da casa à caça de um caco de lembrança. Nada... Maldita amnésia alcoólica... Ai, ai... Dói, dói muiiiiiiiitoooooo, meu cérebro (como uma pedra de gelo) boia num copo de conhaque barato e, quando bate nas bordas, ai, ai, dói muito.

A senhora de cabelos brancos azulados nunca mais olhou pra trás, enquanto "ela" parecia querer dizer que ia recusar o convite. E foi virando seu rostinho de moça magrela e safadinha para conferir se lá atrás, nas últimas poltronas do cinema, estava mesmo um lugar desabitado onde tudo poderia ser resolvido sem a menor possibilidade de interrupção.


*Reproduzido de "Duplex - concurso interno de contos" (Carlini & Caniato), obra editada com apoio de Eduardo Mahon, que será lançada brevemente. Para esta ocasião, o autor editou  trechos de "Noitada" (Fátima) e "A rainha da noite" (Lorenzo), intercalando passagens dos dois contos que abrem o livro

nos

Fátima Sonoda (1955-2017) e Lorenzo, os criadores do site passarinho

 

 


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