ROMANCE (trecho)

Aurea mediocritas



"...esta noite sem razão nenhuma escolhi para lhes lançar esta praga dignos Cíceros e Sênecas da Jungle University provincial afogada sob os baobás os cactos venenosos os cipós entre lianas e os venenos da minha terra longínqua: não fumo qualquer cigarro idiota desses que fazem pensar na morte e depois nada mais: não: escolhi este cigarro que faz mais idiota a cidade o pobre burguês ou nem isso que faz pensar na morte e muito mais: este baseado de marijuana para sonhar e ousar fumar mais e sempre mais sobre sua esterqueira que vocês regam a cada dia com novas merdas e sua bolsa que enchem a cada dia com novas moedas de ouro que caem por entre os perdigotos dos poderosos assentados à mesa federal e com que vão enchendo seu tonel das Danaides com que chegarão fartos e inauditos perversos e insensíveis à hora da morte sem levar nada os seus filhos suas lesmas suas lêndeas rebentos tristes de suas folias solitárias entre lençóis com suas matronas cansadas entre rugas e cólicas de tanto comer arrotos de champanha e borborigmas de peru de Natal – não é um cigarro qualquer é um baseado especial para dar altos sonhos vocês que tem medo de altos sonhos como medo de altos dinossauros vocês a escória da mediocridade vocês que somente não tem medo do seu baixíssimo sonho de mortais fazedores de cocô regados a São Rafael e biscoitos de cem mil a caixa mediocridade tão baixa que se torna de ouro mediocridade que come das migalhas do banquete federal aí nessas distâncias malditas de suas províncias que nem sequer quatrocentões tem o prazer de ter como sobrinhos mirrados que são de sua madrasta São Paulo vocês aí nessas fodidas províncias abandonadas sem trem-de-ferro nem metrô sem cinema de arte de exposição para orquestra de câmara nem salas especiais para filmes pornográficos viva Deep Throat: tomem engulam sua porção de podridão que é o esquecimento dos seus protetores do Planalto que vocês querem longe de si quanto mais longe melhor lá onde ninguém ouça falar que existe essa excrescência chamada Icária, esse monte de cocô com alguns prediozinhos de empresários espertos aprenderam trampos e manhas cá fora longe no seu ninho de víboras túmulos caiados cujo centro se localiza não no centro geodésico da América do Sul isso dizem nunca foi realmente provado aí na realidade nunca nada de prova já passou a época do frio de ouro arrancado do bigode em penhor de cartório mas à beira da via asfaltada principal que leva e traz de São Paulo onde passam os caminhões carregados levando nossas riquezas centro que dizem ser de cultura mas aí a cultura se mistura com cultura de gado ou cultura de feijão bovinocultura ou suinocultura nunca se sabe afinal com cultura de quê se de vermes ou de lêndeas ou de lombrigas porque cultura verdadeira nunca pode jamais subsistir nessa terra me mata seus verdadeiros criadores como plantas bravas ou daninhas ou venenosas ou corruptoras nesse centro que eles chamam na sua língua aculturada e corrompida e colonizada e tratorizada de Jungle Universiy até nisso acompanhando o gosto dos suspeitos executives vindos diretamente da terra de cimento de São Paulo e de mais além da terra dos royalties: Estados Unidos: toma engole tua poção de podridão que é só sua e de mais ninguém mais ninguém entre as vinte e duas fatias deste queijo esclerosado onde o dinheiro não vale mais nada nem a nível federal nem estadual nem municipal e onde os cidadãos honestos são comparados e lêndeas como vocês: tomem e engulam: esta praga que vem de mim com este baseado na boca marijuana que legítima veio do Paraguai ao menos lá as coisas que valem algo ainda são legítimas não é como o seu sentimento senhores da Jungle University esta praga que é como praga de mãe ou praga de filho não importa entre mãe e filho existe tal vínculo de referência que ninguém ousa discutir os acertos das origens: pois eu renego esses vínculos digo que sou cidadão para toda a eternidade da cidade gloriosa para sempre de São Sebastião do Rio de Janeiro e não desse vômito de lêmures desse bolor de lêndeas esmagadas sob o tacão do senhor milico federal que vocês amam tanto escravos da Aurea Mediocritas..."

marcos vergueiro

dicke

Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008), escritor de MT que, segundo Nelly Novaes Coelho (1922-2017) é "dono de uma arte maior, que se fez desaguadouro das mil e uma conquistas da escritura contemporânea... que veio para ficar, como uma das grandes vozes da Literatura Brasileira do século XX."




 


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