CRÔNICA

Saudade*



No Dicionário Escolar da Língua Portuguesa encontramos a palavra saudade, assim definida: "Recordação ao mesmo tempo triste e suave de pessoas ou coisas distantes e extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; pesar, pela ausência de alguém que nos é querido; nostalgia. Quando a palavra está grafada no plural, significa cumprimentos; lembranças afetuosas e pessoas ausentes".

O meu sobrinho Rodolfo Braga, na idade de nove anos, veio a Cuiabá fazer-nos uma visita. Do Rio de Janeiro para Mato Grosso, a diferença de vida é muito grande. Ele, Rodolfo, após uma semana de convivência com novos parentes e amigos mato-grossenses, distraiu-se com a criatividade das brincadeiras, mas, mesmo assim, pediu-me que lhe fizesse uma ligação telefônica aos seus familiares, de preferência à noite, quando todos deveriam estar em casa.

Nosso diálogo foi o seguinte:

N - Algum problema com você, Rodolfo?
R-  Não, estou somente sentindo saudade.
N - Você sabe o que é saudade?
R - Sei; é uma falta muito grande de alguém, de quem desejamos sentir sua pele, olhar nos seus olhos, ouvir sua voz.

Fiquei espantada com a resposta profunda daquela criança!

Outras situações nos fazem filosofar sobre a palavra saudade, quando ela é evocada nas letras musicais, como citaremos a seguir:

Saudade, palavra triste,
quando se perde um grande amor...
A saudade é dor pungente, morena
A saudade mata a gente, morena...
Saudade, torrente de paixão, emoção diferente
Que aniquila a alma da gente...
Você é a saudade que eu gosto de ter...

A presença, muitas vezes, é enganadora; entretanto, a ausência de uma pessoa nos revela o quanto ela nos é importante! Pela qualidade do seu trabalho, pela atenção que dispensa aos semelhantes, pela afetividade que tem dentro de si e que transcende, elevando-a a um ser superior aos outros. 

A saudade é suavizada pelo pensamento que domina o universo. A falada programação neurolinguística mostra como a mente estrutura os pensamentos, trabalhando as submodalidades da percepção da realidade - visual, auditiva, olfativa, gustativa e tátil.

Quando, pela lei de Deus, , somos alertados de que poderemos ser castigados por pensamentos, palavras e obras, significa que essas qualidades são postas à nossa disposição para serem usadas, com o fim de conseguir o bem da humanidade. De que forma?

O pensamento é uma característica do racional; é qualidade essencial, própria, íntima, inerente do indivíduo. Este o leva para onde quiser e o traz de volta, nas suas conveniências. Daí por que o pecado de pensamento, quando, estando ao seu dispor para o bem, você permite conduzi-lo para o mal, pela sua própria vontade.

A música é um fator que desperta saudade...

Quando o compositor Ataulfo Alves lembra da sua infância, destaca a cidade onde morava, as brincadeiras que criava, a professorinha do curso primário e conclui, dizendo: - Eu era feliz e não sabia.

Outro chamamento para a saudade é o perfume; o pensamento voa e, num passe de mágica, alcança a pessoa que usa aquela fragrância.

A saudade nos faz conviver com os mortos. Não há quilometragem que não seja vencida. Penetra nos cinco continentes: Europa, Ásia, América e Oceania; atravessa os oceanos Atlântico, Pacífico e Índico; vai além de terras e mares, atrás do mistério de outra vida, prometida nas Escrituras Sagradas.   

A gramática nos ensina que a palavra saudade é classificada como idiotismo, isto é, palavra, construção, própria de uma língua e só dela. Que privilégio o nosso... ter a palavra saudade no dicionário, a qual só existe na Língua Portuguesa.

A saudade está muito ligada à nossa juventude. O pensamento se povoa de familiares, professores, namorados, noivos, maridos, relembrando os bons tempos que não voltam mais.

Tratando de entes queridos que já se foram, a esperança alivia a nossa saudade, porque a morte, que é mistério, é uma passagem desta vida para uma outra, junto do Senhor.

O pensamento renovado de coisas boas da vida vale a pena ser alimentado; porém, aquele que nos causa dor, avivado no dia de finados, é a saudade amarga, que eu não gosto de ter. O melhor é lembrar-se da pessoa em vida: alegre, trabalhadora, festeira... para sofrer menos.  


*Texto reproduzido do livro "Crônicas da Cidade Verde", prefaciado por Benedito Pedro Dorileo

nilza

Nilza Queiroz Freire é cuiabana, formada em Ciências Contábeis, cronista e articuladora cultural. Integra o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e a Academia Mato-grossense de Letras, instituição onde foi a primeira mulher a presidir


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