CONTO

Notícias do futuro*



Martin Thompson não era homem de caráter recomendável. Tinha uma língua ferina, aguda e mordaz, e um grande conhecimento do mundo. Durante muitos anos vivera sem preocupações, entregue às suas atividades rotineiras. Em épocas remotas, dedicou-se a organizar encontros de boxe e a dirigir concursos de dança. Mais tarde, tomando gosto pelas corridas de cavalos e cães, converteu-se num magnata de apostas, sobrepujando todos os colegas. Digamos de passagem que, à imoralidade desses homens, Thompson associava uma inteligência que o destacava no ramo. Entre a gente do turfe, era conhecido por “Perigoso Martin”, o que já basta para dar uma ideia dos seus meios e condições.

As vicissitudes que assaltam aqueles que se dedicam às corridas pouparam Thompson. Nos momentos de pânico, o “Perigoso” sorria, contava o dinheiro que lhe ficava nas arcas e, olhando calmamente seus subordinados, dizia:

— Para cada imbecil que morre, nasce meia dúzia. Podem aceitar apostas de todos os que desejem gastar dinheiro!...

A sorte era-lhe favorável. Martin confessava-o, sem dissimular o orgulho, sem temer que uma bancarrota o atirasse novamente à miséria primitiva.

Certa noite, voltava para casa, assobiando entre dentes uma marcha militar, depois de uma brilhante controvérsia com dois tipos de Whitechapel. Durante as duas horas que durou a conferência, a superioridade oratória do “Perigoso” desarmou os humildes delinquentes, que terminaram concordando com o plano de sequestro concebido pelo chefe; e agora, concluída a tarefa, Martin via-se dono do hipódromo, por obra e graça de um golpe audacioso; porque roubar um cavalo considerado favorito não é coisa que se faça todos os dias.

Para chegar a Charing Cross, é preciso atravessar Whitecomb, uma rua deserta e escura. O pessoal prefere evitá-la. Martin, porém, avançou por ela, absorto como estava em brilhantes ideias. Eram oito horas da noite; a vibração dos sinos do Big-Ben extinguiu-se lentamente.

Ao chegar à esquina de Whitecomb e Pall Mall, Martin viu um velho parado num ângulo. Levantou a mão ao vê-lo:

— Olá, “Perigoso”.

Martin voltou-se nos calcanhares, surpreendido pelo cumprimento daquele homem.

— Olá! — respondeu despreocupado, e continuou seu caminho. Mas a insistência do velho o fez parar.

— Está fazendo frio... — murmurou o desconhecido, avançando uns passos.

— Que deseja? — perguntou Martin. — Quem é você?

— Eu? Um velho, “Perigoso”...

— Pois eu não o conheço, amigo. De modo que...

— Ah! — interrompeu o velho. — Mas eu o conheço...

Martin resignou-se. Nada perdia em escutar as tolices do ancião.

— Pois bem, diga-me o que deseja.

— Simplesmente que me compre um jornal, “Perigoso”. Asseguro-lhe que não é um jornal comum. Nada disso!

Martim levantou os ombros:

— Que significa para você um jornal não comum?

O velho olhou para trás, como se temesse que alguém o observasse. Em seguida, colocando a mão protetoramente sobre a boca, disse:

— É o “Eco” de amanhã; a última edição da noite.

— Ora essa! — exclamou Martin, numa gargalhada. — O uísque subiu-lhe à cabeça, amigo. Deve substituí-lo por outra bebida... Beba à minha saúde e à do diretor do “Eco”...

Ninguém podia dizer que o “Perigoso” se negasse a socorrer os pobres, mas meia libra não se vai dando assim à primeira vista. A consciência de Martin estava, pois, tranquila. Dispunha-se a continuar o seu caminho quando...

— Olhe! — disse o velho. E uma força estranha deteve Martin. Voltou atrás, sentindo uma estranha inquietação.

— Que diabo quer você? — repetiu, exasperado, não tanto com aquele desconhecido como consigo mesmo.

— Quero que me compre o “Eco”, “Perigoso”.

— Não me chame de “Perigoso” — disse Martin com raiva. — Chamo-me Thompson!...

— Já que faz questão... Pode ir, se o incomodo.

Martin sentiu-se ainda mais irritado com essas palavras.

— Dê-me esse jornal! — murmurou. — Quanto custa?

O velho olhou firme para Martin, sem abaixar a vista, e disse:

— Não quero cobrar nada por ele. — Advirto-o de que é o último exemplar existente. Não há outro igual no mundo inteiro. Dentro de vinte e quatro horas, as notícias que aqui estão sairão à luz.

— Tem graça isso, dito com tal seriedade! — exclamou Martin, rindo. — Então as notícias de amanhã estão neste jornal?

— Pode ver, “Perigoso” — disse o velho com voz de mofa.

Um papel dobrado foi entregue a Martin. Aproximando-se do poste de iluminação, olhou a data impressa no jornal. Seus dedos tremeram ao ler: “Sábado, 26 de julho de 1934”. Tinha a certeza de que era 25 de julho, pois concluíra o meeting de Kempton Park com grandes lucros. Sobre isso não havia a menor hipótese de erro.

— Amanhã inicia-se o meeting de Gatwick — disse Martin, sem perceber que estava falando alto. — Quer dizer que se este jornal é...

Desdobrou as páginas com precipitação, até chegar à seção de turfe. Um título em letras garrafais surgiu ante seus olhos: “Resultado das corridas de Gatwick”. Martin apoiou-se ao poste. Impossível, absolutamente impossível... No entanto, ali estavam os resultados de Gatwick. No primeiro páreo vencera Inkerman. E ele havia colocado 10 mil libras em Paper-clip!... E se as notícias fossem verdadeiras?...

Ao voltar-se, notou que o velho tinha desaparecido. Dois desocupados olhavam-no, cheios de curiosidade. Concluiu ser melhor procurar um lugar tranquilo para ler, enfiou o “Eco” no bolso e dirigiu-se para Charing Cross.

Thompson nunca bebia, mas compreendeu que precisava de uísque para coordenar suas idéias. Entrou num bar e procurou um lugar deserto. Depois de beber, achou-se em condições de continuar a leitura.

Inkerman pagou um rateio de 6 por 1, capaz de satisfazer ao mais exigente dos apostadores. Salmon era o vencedor da segunda corrida. Embora Martin esperasse tal resultado, ficou surpreendido com o colossal rateio pago pelo animal: 100 por 8!...

A terceira corrida foi ganha por Shallo. Enorme rateio! Na quarta...

Martin bebeu o segundo, e logo depois o terceiro copo de uísque. Era já muito tarde para reunir seus agentes; mas era preciso dar marcha-ré antes de iniciar-se a corrida...

— Estarei sonhando? — repetiu pela décima vez o “Perigoso”. Realmente era absurdo ler notícias sobre fatos que se deviam realizar doze horas depois... Aquilo ia além dos limites do possível; entretanto... o exemplar achava-se em perfeito estado, e a data não mostrava sinais de falsificação. Os tipos característicos do “Eco” eram perfeitamente reconhecíveis. Então...

— Impossível! Impossível! Não resta dúvida de que não estou sonhando — disse Martin — e que este jornal é o “Eco”. Por conseguinte... Irei a Gatwick amanhã bem cedo e darei ordem aos rapazes. Se isto for verdade, serei o homem mais rico da Inglaterra!

Com cavalos que pagavam 100 por 8, sua fortuna estava feita. Bastava apenas seguir as indicações do jornal e acreditar em milagres.

O dono do bar, que conhecia Thompson, aproximou-se com ar misterioso.

— Podia dar-me um palpite, senhor?

O “Perigoso” vacilou.

— Bem — disse finalmente, — não há inconvenientes. Jogue em Salmon no segundo. Não se preocupe com os comentários. Esse cavalo ganhará.

Deixou a sala com passo irregular. Em caminho para casa, lembrou-se de que o médico o proibira de beber. O “Perigoso Martin” bebendo! Até então ignorava o que fosse álcool...

Martin chegou a Gatwick às primeiras horas da manhã. O meeting anual tinha nele um jogador afortunado. Mas desta vez não se tratava de jogar, e sim de acomodar-se às indicações do “Eco”.

Por exemplo, aceitar apostas em todos os cavalos, menos em Inkerman... e por sua vez, arriscar cinco libras nos cascos desse animal.

Inkerman... Primeiro! Rateio: 6 por 1.

Assim, sucessivamente, as indicações do jornal foram se realizando. Depois dessa vitória, deu-se a de Salmon no segundo páreo. E no terceiro...

Shallot era um animal de aspecto insignificante, e produziu má impressão no desfile preliminar. O jóquei parecia inquieto quando os cavalos se enfileiraram diante das fitas. Era evidente que poucos haviam apostado em Shallot; mas entre esses poucos achava-se Martin, que arriscou a importância de todos os ganhos anteriores.

Então, qual um pequeno pônei que desliza em meio a cavalos de grande categoria, Shallot tomou a dianteira e ganhou a terceira corrida com três corpos de vantagem.

Ébrio de glória, cercado de pessoas que o felicitavam com inveja nos olhos, “Perigoso” deixou o hipódromo duas horas mais tarde. Sua enorme fortuna representava a ruína de cem jogadores e o suicídio de um político; mas, “para cada imbecil que morre, nasce meia dúzia”. E o rosto de Thompson, ao entrar no trem que o reconduziria a Londres, era plácido e alegre.

Acompanhado por solícitos servidores, Martin procurou inutilmente uma mesa no carro-restaurante, onde pudesse beber tranqüilamente. O vagão estava cheio de jogadores, que comentavam em voz baixa a sorte desse homem extraordinário que acabava de acertar nos oito vencedores com precisão matemática.

Uma garrafa de champanha devolveu-lhe um pouco das forças perdidas nesse dia emocionante. No bolso do seu paletó amontoavam-se os cheques e as ordens de pagamento: milhares e milhares de libras esterlinas! E além disso, estava ali o “Eco”.

Movido pela antiga curiosidade, o “Perigoso” tirou o jornal do bolso para ler outras notícias. A figura do velho apareceu claramente diante dos seus olhos. A cara desse homem era diabólica, apesar da sua dignidade. Martin sentiu então um estranho calafrio percorrer-lhe o corpo.

Abriu o diário. Comentários sobre a política europeia. Acidentes de aviação na Etiópia. Acidente esse que devia produzir-se duas horas depois, quando o trem entrasse em Londres. Uma partida de tênis entre Tilden e Brougnon... Vencedor: Tilden, por 6-1, 6-2 e...

Os olhos de Martin, errando pelas colunas, fixaram-se sobre uma notícia impressa em grandes letras. A princípio, não compreendeu. Porém, logo viu as palavras com clareza: “Morte no trem dos turfistas. O senhor Martin Thompson, conhecido turfista, morreu esta tarde, quando voltava para Londres no trem de Gatwick”.

As mãos de Martin abandonaram o jornal; as folhas caíram ao chão; e a palidez que cobria o rosto do “Perigoso” estendeu-se às suas mãos paralisadas...

— Olhem! Thompson! Parece que desmaiou!

Um grupo de jogadores rodeou o corpo caído transversalmente no assento do vagão. Alguém aproximou um copo cheio de uísque dos lábios de Martin, que respirava com dificuldade.

— Não... não... nada de álcool. Parem o trem... por favor!

Ficou imóvel, com a boca aberta, numa expressão macabra.

— Não há nada a fazer — disse um cavalheiro, largando a mão de Martin. — O coração o traiu.

— Pesavam muito os cheques que trazia — murmurou um dos jogadores, e todos inclinaram a cabeça.

Ninguém pensou em apanhar o jornal que caíra debaixo do assento. Talvez, se um deles tivesse imaginado a verdade, procurasse o diário.

E quem sabe lá se o encontraria...

 

*Reproduzido de http://contosbemcontados.blogspot.com

horn

Não consegui descobrir se esse suposto escritor inglês Holloway Horn é fictício ou real. Algo me levou a crer que esse autor é um pseudônimo ou armação dos escritores argentinos Bioy Casares, Jorge Luís Borges e Silvina Ocampo, que praticaram a literatura fantástica. A imagem acima está na capa de um livro atribuído a mister Horn

 

 


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