CRÔNICA

Abundantemente corpo*



Em 1930, vindo lá da profunda Minas Gerais, noventa por cento de ferro nas calçadas, oitenta por cento de ferro nas almas, já se indagava, desconcertado, ante o turbilhão de corpos seminus a desfilar pelas ruas, praças, cafés e cinemas, ante as pernas brancas pretas amarelas a passear inocentemente nos bondes do Rio de Janeiro: "Para que tanta perna, meu Deus?!!!".

Se o coração do poeta tímido fazia tanta pergunta, mas seus olhos não perguntavam nada, em Copacabana, na Tijuca, no Méier, no Catete, num momento do século passado, outra coisa não fazem os olhos meus, hoje, seguindo certas pernas, e braços e seios, por essas ensolaradas ruas cuiabanas.

Dia desses, por exemplo, caminhava pela Prainha em direção ao Centro, quando uma mulher - nem tão bela, nem tão avião, mas fisicamente nada desprezível - cruzou à minha frente, e seguiu, com uma saia tão curta, que foi levando consigo todos os olhares, masculinos e femininos, provocando um furacão de emoções cristalizado em suspiros, risinhos, assobios e até desaforos da parte dos mais atrevidos. 

Ah, com certeza, essas figuras têm lá o seu quinhão de culpa pelos desvarios que mentes não exatamente equilibradas são levadas a cometer ante tal tipo de visão. Será que não têm consciência do abalo social, ou pelo menos psicossocial, que provocam, andando por aí como as índias de Pero Vaz de Caminha, com pouca ou nenhuma vergonha de mostrar suas vergonhas, em meio a uma gente tão diferente de indígenas puros de corpo e alma?

Nisto estou inteiramente de acordo com o grande poeta popular que, num momento de arroubo e devaneio, foi levado a exclamar nos versos da canção imortal: "Pra mulé de hoje, tudo é simpre e é normal / quando sai na rua, faiz o homi passá mal". 

Tivesse eu a coragem que nunca tive pra entabular conversação com estranhos, e ainda mais com estranhas, e teria chegado a ela e perguntado:

- Moça, você não se compadece dos pobres solitários, dos desamparados do amor, dos viúvos, dos meninos precoces, dos recentemente abandonados?... Dos adolescentes tímidos? Dos velhos que ainda não sossegaram o facho?

Mas qual nada, continuei o mesmo de sempre, fiquei só olhando, ela cruzou uma rua, adentrou uma praça suja e foi embora. Então, entrei numa banca, passei os olhos por umas tantas capas coloridas, por um sem número de fotos de mulheres e me detive... justamente na revista Playboy!... Não exatamente numa daquelas curvas capazes de nos fazer morrer de santo orgasmo e de beleza, mas num ensaio. Seu título? "Tudo sobre a bunda", simplesmente. 

Comprei-a, claro, o dia estava propício para uma aquisição daquelas. Em casa, entretanto, considerei, como sempre me acontece, que a beleza mais estonteante na revista não vale a visão da vizinha na janela, quanto mais a da moça avassaladora de há pouco. 

Joguei a revista a um canto e fui ler Drummond, no qual, talvez, encontre explicação para as perguntas que não ousei fazer à moça na rua. Ou a inspiração pra fazer ao menos um poema do porte dos que ele fez às centenas, milhares. Muitos dos quais, certamente, pensando em pernas, e seios, e bundas.


*Crônica reproduzida da Revista RDM, edição de outubro de 2005, que consta no primeiro livro do autor, "Viagens inventadas..." (Entrelinhas)  

marinaldo

Marinaldo Custódio, autor querido e muito reconhecido nos meios editoriais e na mídia impressa cuiabana. Seu novo livro, "Vestida de preto & outras crônicas" (Entrelinhas), está chegando

 


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