ROMANCE (trecho)

A gente era obrigada a ser feliz*



Eu não queria começar assim. Não queria mesmo, juro. Mas sou obrigado a me lembrar de tudo, agora que estou sozinho. Sozinho é maneira de dizer: eu morri. Sim senhor, morri em 1992. No dia 16 de agosto, mais precisamente. Que jeito mais triste de começar uma história. Minha única dor é a de estar longe dos cavalos. Não sinto o cheiro deles, o cheiro de estrume fresco que me ligava aos bichos. É tudo o que sinto, na verdade: um vazio do calor dos cavalos. Não pensava que a morte fosse assim. Talvez os comunistas estivessem certos – Deus não existe. Duvido muito. Deus existe sim. Sempre confiei n’Ele. Por isso mesmo, eu não poderia ter sido esquecido aqui nesse frio. Vivo assim, no limbo, desde que me aposentei. Não me aposentei. Não pela minha vontade. Fui dispensado pelo coronel Magalhães, um homem rigoroso. Deve ser a idade. Muito novo. Aí está, os rapazes não deveriam comandar tão cedo. Tudo ficou diferente depois que o coronel Magalhães assumiu o posto. Foi de uma hora para outra. É inevitável, eles se revezam no comando. Sim senhor, é a lei da natureza: sai um, entra outro – sabe como é? Não me entendam mal. Quero deixar claro que não tenho nada contra o coronel Magalhães, a não ser o fato de que me afastou dos meus cavalos. Parece pouco. Mas não é. Sinto falta deles e, tenho certeza, de que eles sentem saudades de mim.

Não venham me falar que os bichos não pensam. O que pensam eu não sei. Não entendo muito desse tipo de coisa. Mas eles sentem e todo mundo sabe que sentem. Exatamente como cada um de nós. Isso me basta. Sentem tudo: alegria, tristeza, solidão, saudade. Todos os bichos pensam. Uns são mais lentos que os outros. Tem bicho que chega a falar. Os cavalos, por exemplo, têm medo. O medo é um sentimento comum na natureza dos equinos. Já vi muitos cavalos terem medo de determinados cavaleiros. Até mesmo de civis. O cavalo é um bicho sensível. Com aquele tamanho todo, sim senhor, sensível. Os olhos dos cavalos dizem tudo. É só prestar atenção. Se estão ansiosos, piscam menos. Podem reparar. Eu conheci todos os cavalos do quartel, desde o dia 3 de dezembro de 1946. Às quatro e meia da manhã, estava junto às baias como o novo contratado. Determinadas datas são impossíveis de esquecer. Depois eu conto exatamente as circunstâncias que me levaram a pedir um emprego. Agora não. Ainda estou muito bravo para falar desses detalhes. Começar uma história com morte não dá sorte.

Quando o coronel Magalhães chegou ao comando, percebi que as coisas iriam mudar. Ele era um sujeito bom, como todos os outros. Mas alguma coisa estava diferente. Os rapazes estavam inquietos, falavam menos, respirando o ar fracassado que estacionava em torno do quartel. No céu azul, uma nuvem de chumbo oprimia o perímetro do quartel, como se fôssemos esmagados. Até os meus cavalos perceberam a mudança. Ele queria mostrar serviço. Tudo bem: quer arrumar as coisas da forma como mais lhe agrada. O Fidelis me avisou – vai desmontar o que o general Rosa construiu. Caiu a casa, concluiu. O que quer dizer cair a casa? Fiquei sem saber. O certo é que o coronel Magalhães era diferente dos outros comandantes. Ele não respeitava a tradição. Lá no fundo, não respeitava. Não senhor. Se respeitasse, não teria me mandado para casa. Fui expulso. Melhor: fui cassado. Essa é a verdade. Os cavalos não entenderam nada quando eu falei para eles. Não está de pé, homem?!, foi o que quase ouvi do Sirius-Alfa, um quarto de milha que praticamente vi nascer. Pois, então, o coronel disse que estou velho e preciso me afastar. Sessenta anos. Não estou imprestável. Ainda poderia cumprir as minhas obrigações sem ajuda daqueles meninos que nunca montaram num único cavalo. Sessenta anos não é velho! Não senhor. Eu poderia muito bem continuar na lida. Um cavalo pode viver trinta anos, se bem cuidado. É muito para um cavalo. Nós podemos chegar aos oitenta, talvez cem. Depende da alimentação.

O que vou fazer da vida, coronel? — perguntei no momento em que ele me chamou ao gabinete. É a sua hora de descansar, Espírito Santo — respondeu. Eu não queria descansar. Não estava cansado de nada. Só me bastava ficar com meus cavalos, ali sozinho nas baias. Ninguém daria conta da minha existência. O próprio coronel Magalhães iria passar, como passaram outros. Não houve jeito de relevar. Homem duro, mais duro do que a maioria. O coronel Magalhães não deve ter me perdoado pelo pequeno incidente, uma desatenção boba. Não vai se repetir, senhor — eu assegurei ao veterinário. O fogo nem sequer atingiu a primeira baia. Eu apaguei sem ajuda de ninguém. Os cavalos jamais ficariam magoados comigo. Eles sabiam que eu daria a minha vida por qualquer deles. Relincharam um pouco para me chamar a atenção. A fumaça foi cortada com um balde de água. Todos nós precisamos descansar um dia — foi a última frase do coronel antes de me dar um forte aperto de mão. Um aperto de mão é suficiente para eliminar tanto trabalho? Não sei dizer. Mas foi um aperto de mão vigoroso, daqueles que somente amigos se dão. Por um momento, senti que ele gostava de mim. Quase sorriu. Agora, já não sei.

Quando eu saí do gabinete do coronel Magalhães, os oficiais mais velhos estavam enfileirados na varanda. Esperavam não sei o quê. Bati a porta atrás de mim, cumprimentei a secretária e entrei no corredor onde estavam todos. Eles sorriam. Quando passei, bateram continência para mim. Sim senhor, continência! Foi uma homenagem, explicaram depois. Se não os conhecesse há muitos anos, acharia que aquilo tudo era zombaria. Na escadaria, ouvi os aplausos que continuaram até que eu alcançasse o primeiro andar e cruzasse o pátio. Olhei para trás. No corredor externo, estava o coronel Magalhães, sorrindo. No momento, pensei que estavam comemorando a minha expulsão. Não fui bom o bastante?, perguntei a mim mesmo. Quem sabia eram os cavalos, mas eles não diriam nada a ninguém. Principalmente a um novato. Tudo isso ficou confuso para mim, peço desculpas. Aquela era uma das ocasiões da minha vida na qual eu não sabia ao certo se devia rir ou chorar. Aposto que todo mundo passa por situações assim. Eu já sentira vontade de chorar outras vezes. Nunca soube exatamente o motivo. Chorar não faz bem. Um cavalo só chora quando sente que vai morrer.

Logo depois que saí do serviço, continuei vivendo no mesmo endereço. O senhor Stern não reajustou o aluguel do apartamento. Não é para menos: nunca atrasei nos últimos vinte anos. Nunca. No momento certo, vou falar do meu antigo senhorio. Sujeito camarada. Por enquanto, digo apenas que não mudei em nada a minha vida depois de pendurar as chuteiras. Devo ter assimilado alguma coisa dos militares. Tentei manter alguns rituais: dormir às sete e meia e acordar às três. Continuei pontual. Poderia trabalhar de novo, tudo novamente, desde o primeiro dia. Vontade não me faltava. Sempre fui uma boa mão de obra. Sim senhor, muito útil.

Não há nenhuma razão para cumprir o velho horário, porém. Se eu estivesse empregado, vá lá. Tomava um banho frio, preparava o café preto sem açúcar e partia no primeiro coletivo, às três e quarenta. Bastava meia hora para chegar ao quartel. Eu entrava antes da alvorada. Os cavalos gostavam de me ver ainda no escuro. Aquela corneta estridente os assustaria se alguém não estivesse lá fazendo companhia. E agora? Agora, o jeito era o soldado levar a corneta para o lado oposto ao estábulo. Mas quem diria isso a ele? Deixa pra lá. Paciência.

O coronel Magalhães não deve ser uma má pessoa. Ele é um rapaz bom, tenho certeza disso. Não quero implicar com ele, coitado, nem com ninguém do quartel. A verdade é que me deram tudo. O que seria de mim, se não fossem eles? Quarenta anos de serviço é muito tempo, pensando bem. Mamãe não acreditava que iriam me tratar com respeito. Ela estava errada. Sim senhora, completamente errada. Mamãe era muito protetora. Não queria que eu saísse do rabo da saia. Foi a única vez que errou feio. Os militares são pessoas boas. Pudera. A seleção é rigorosa. Teste para tudo. Nada ali é de graça. Quem não quer uma vida estável? Comida, roupa e alojamento? Cada coisa a seu tempo. É por isso que admiro os rapazes. Gente acima da média. Até o coronel Magalhães. Muito estudioso, era o que me diziam os que tinham mais contato com ele. Formado em Direito. É um liberal — implicava Fidelis. Liberal ou não, o coronel tinha pulso. Mudou muita coisa. Parecia que procurava alguma coisa escondida. Palmilhava todos os cantos, todas as salas usadas pelo general Rosa. Esse, sim, um homem formidável. Foi o general Rosa quem me deu uma chance, minha única chance. Ao me ver parado ali, pendurado às grades do quartel, indagou: O que faz aí, moleque? Era isso mesmo, um moleque negro de vinte anos. Sim senhor! — foi tudo o que consegui responder. O general Rosa sorriu daquela forma imperceptível, um risco no canto dos lábios finos. Está olhando o quê, rapaz? — insistiu. Eu gosto de cavalos, senhor. Gosto mais do que de gente. Ele soltou uma gargalhada: Mais do que de gente? Você é dos meus! O oficial me deu um piparote na cabeça e me convidou para entrar.

 

*Trecho do romance "A gente era obrigada a ser feliz" (Carlini & Caniato), obra inédita de Eduardo Mahon, que está chegando por aí

mahon

Eduardo Mahon é advogado e escritor, autor de 14 livros (incuindo este). É portador de uma fertilidade literária impressionante e, segundo Marília Beatriz, sua amiga e colega na Academia Mato-grossense de Letras, escreve muito por contar sempre com a ajuda de alguns duendes

 

 

 

 

 

 


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