ENTREVISTA

Três novas produções a caminho



varela

"O Box de Curtas foi pensado para permitir que curtas-metragens com poucos recursos pudessem em compra/aluguel conjunta obter equipamentos e profissionais de maneira viável" (Bárbara Varela)

O primeiro domingo de maio (5) foi a data limite para as gravações dos três filmes que compõem o segundo Box de Curtas, uma iniciativa que começou em 2017 e concretizou cinco produções audiovisuais em Mato Grosso. O resultado foi bastante significativo em sua primeira edição, então, porque não repetir a dose?

Uma das figuras chaves em 2017 foi a produtora executiva Bárbara Varela, que continua nesse batente. Em reportagem anterior, aqui mesmo neste site, ela declarou “a estrutura do box possibilitou acesso a equipamentos e profissionais que não seriam possíveis se cada filme fosse rodado de forma individual". 

Essa dinâmica coletiva, suas possibilidades, seus resultados e desdobramentos, são assuntos detalhados na entrevista abaixo.  

Tyrannus: - Estamos vivendo a fase ouro do cinema brasileiro. Onde entra a produção  independente nisso tudo?
Bárbara Varela: A produção independente, na prática, significa produtoras independentes de grandes estúdios ou conglomerados de comunicação produzindo e comercializando para diversos meios. Dito isto, é preciso compreender que a qualidade de produção quando se busca o mercado exibidor e público é um elemento fundamental. Porque aqui se tem um interesse de consumo de produto. A produção independente no Brasil tem, em grande parte, o aporte de recursos públicos em forma de investimento ou prêmios para desenvolvimento e fortalecimento da indústria audiovisual. Ter produtoras em atividade constante de desenvolvimento, produção, comercialização e exibição, permite o aquecimento de muitas cadeias da produção de audiovisual e cinema. Da criação a pós produção temos empresas, profissionais e fornecedores produzindo, gerando emprego, renda e se aperfeiçoando técnica e artisticamente. Já na distribuição e exibição muitos produtos audiovisuais são licenciados e disponibilizados ao público consumidor.

Sempre disseram que fazer cinema é muito caro. Como vocês encontraram uma maneira de baratear os custos?
A questão de custo para produção passa antes pelos objetivos que a obra tem como razão de ser. Obviamente que o grande desejo de todos os realizadores é de que a obra seja bem recepcionada e atinja a maior quantidade de público. Uma obra que tem o objetivo de ser lançada comercialmente em cinema, TV ou VOD e mesmo circular em grandes festivais, transforma o termo custo em investimento e assim permite que os projetos passem a ter melhores condições de realização. 
Ao percebermos que para produzir com qualidade e ter melhores resultados seria necessário aperfeiçoar toda a cadeia de produção existente em nosso ambiente de trabalho, passamos a primeiramente compreender quais desafios teríamos que superar para avançar e a forma prática foi a de elencar prioridades.
Como tudo começa na fase de criação de roteiros, foi daí que iniciamos. Escrever atualmente com aporte de consultores para os roteiristas foi o primeiro passo para qualificar os roteiros e ter melhores oportunidades de captação de recursos.
O segundo ponto foi transcender a barreira geográfica e técnica com relação aos equipamentos de filmagens necessários para aumentar a qualidade da produção. Trazer equipamentos cinematográficos e alguns profissionais inexistentes em Cuiabá só foi possível a partir da criação do sistema do Box de Curtas.

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Flagrante da gravação de "Ausência", curta inserido no box 2019, que tem roteiro e direção de Luiz Marchetti

O que é o Box de Curtas?
O Box de Curtas foi pensado para permitir que curtas-metragens com poucos recursos pudessem em compra/aluguel conjunta obter esses equipamentos e profissionais de maneira viável. Em 2017 eu fui produtora executiva de cinco projetos de curta-metragem que foram contemplados pela Secretaria de Estado de Cultura de Matos Grosso. Cada projeto com seus próprios diretores e diferentes produtoras.
Naquele momento surgiu a oportunidade de unir os recursos e agenda de filmagens de maneira seqüencial. O que ocorreu foi um melhor poder de compra e com essa visão propus aos diretores e produtoras o sistema. Ao demonstrar quais seriam as possibilidades de acesso a equipamentos e profissionais que poderíamos ter e o salto de qualidade, não só no produto final, mas no próprio processo de produção em si, a ideia foi muito bem recebida por todos e colocada em prática.
O processo todo de produção dos curtas foi o início de um trabalho que nós utilizamos até hoje em todas as obras. A premissa é de que os profissionais técnicos ligados à fotografia possam ter contato com equipamentos e tecnologias de alto nível e possam ter propriedade sob a manipulação destes equipamentos. Os profissionais que buscamos parcerias para atuar em Cuiabá precisam ter clareza quanto ao seu papel de compartilhamento de informações e técnicas de trabalho com os profissionais locais. A integração destes profissionais externos com os profissionais locais precisa ter uma condução didática para que possa ter melhor aproveitamento dos profissionais locais com a troca.Na medida do tempo e das possibilidades, o balanço é sempre de muito avanço.
Então o Box de Curtas passou a ter vida própria e hoje tem o foco em formação, aperfeiçoamento e ampliação das possibilidades que um simples curta-metragem pode trazer para nós, realizadores de Mato Grosso, e estamos na segunda edição com toda a experiência anterior.

Qual foi o resultado da primeira edição, em 2017?
O resultado da primeira edição deixou concretamente a prova de que foi uma atitude acertada. Foram mais de 60 festivais percorridos e mais de 10 prêmios para os filmes do Box de Curtas de 2017. O lançamento no Cineteatro com lotação máxima também nos comprovou que o público local anseia por produções locais e se orgulha muito quando identifica nossa região nas telas. Atualmente estamos em negociação para a mostra permanente do Box de Curtas em Cuiabá, devido à grande procura do público em assistir as obras enquanto também estamos em fase final de negociação do Box para exibição em um canal de TV por assinatura.

Quais as novidades da edição deste ano?
O Box de Curtas de 2019 está em plena fase de produção. As gravações se iniciaram em 05 de abril e seguem até este domingo, 05 de Maio. Este ano temos três curtas participando. A linha é a mesma e os profissionais participam de todos os projetos. Temos muita gente nova se interessando em atuar profissionalmente nas produções e com o Box elas encontram acesso na composição destas equipes. As obras são: "O menino e o Ovo" - roteiro e direção de Juliana Capilé e a produtora Infinity Filmes, o filme escrito e dirigido por Angela Coradini "O conto da Perdas" pela Cafeína Conteúdos Inteligentes, e a obra "Ausência" roteiro e direção de Luiz Marchetti pela CALM produtora do próprio diretor e roteirista.
Há também grande apoio e envolvimento por parte de parceiros e apoiadores que já compreendem a importância do envolvimento com a produções. São descontos, produtos, cessão de espaços para equipes e locais de filmagens. As intervenções pela cidade e bairros sempre envolvem a comunidade e somos logo identificados e acaba sendo um grande mobilização de auxílio. 
Este ano teremos atores nacionais, locais e muitos do interior do Estado que trazem muito profissionalismo se dispõe a vir para Cuiabá filmar.
Esse processo envolve setores como de turismo como hospedagem, refeições e transportes também.Para tudo que conseguimos de descontos e parcerias reinvestimos em áreas dos filmes que estejam mais limitadas.

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"Teodora quer dançar ", realização de Samantha Col Debella, curta do box 2017, premiado no Cine Pernambuco (direção de arte e roteiro)

Como você  percebe a evolução, tanto nos roteiros como na produção e edição?
Penso que tudo isso faz com que os profissionais e empresas se sintam seguros em investir em formação e tecnologia na área. Porque há atividade constante e cada vez maior. É ideal que os recursos sejam aplicados localmente e atualmente há o entendimento de que é possível investir no aperfeiçoamento profissional porque haverá oportunidade de colocar em prática.Por exemplo, este ano conseguimos alugar os equipamentos todos em Cuiabá. Isso significa que o setor acredita que pode ter esse tipo de equipamento aqui. Também os profissionais que participaram da primeira edição estão nos comandos dos setores e compartilhando seu conhecimento com novos profissionais em seus primeiros filmes.

Qual seria a solução para produzir mais e melhor?
Investimento e teoria associados à prática é um caminho. Para produzir mais precisamos de investimentos. Para produzir melhor em nosso caso é a aplicação da constante de avaliação dos resultados e um objetivo claro sobre onde queremos chegar. Praticar o set nos dá esse conhecimento de fato e sempre trabalhamos pelo sistema de avaliação.

Qual a importância de participar dos festivais de cinema?
O papel dos festivais é importantíssimo. É através deles que podemos circular, se aproximar do público e também dos investidores. Quanto mais festivais o filme for exibido, mais claro fica que a obra se saiu bem e nisso tem bastante mensagem no subtexto. Os filmes do primeiro box foram exibidos em 60 festivais e acumularam cerca de 10 prêmios. Dentre eles, alguns relevantes como Cine Pernambuco ("Teodora quer dançar ", premiado com  melhor direção de arte e melhor roteiro) e Ichill Manila Film Fest ("Juba", premiado com melhor direção de fotografia). Além dos festivais, no caso do Box de Curtas, nossa reflexão é de que esse projeto precisa ter uma agenda própria de circulação regional. Não é razoável que estas obras não sejam conhecidas pelos mato-grossenses. (*com assessoria) 


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