LETRAS DELAS

O princípio da impenetrabilidade



tercia

Tércia Montenegro, Luísa Geisler e Luiz Renato, em evento literário que aconteceu em Cuiabá, no mês passado

Tércia Montenegro é professora de Linguística, não da área de Física. Mas sabe que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Em seu romance “Turismo para Cegos”, uma pesquisa certeira em um universo obscuro traz a máxima decomposta ao longo de duzentas e vinte páginas. O livro é dividido em três partes: primeira, segunda e terceira, o que me inquieta pela indiferença que, aos meus olhos, assoma. 

Cada uma das partes é composta por vinte capítulos, sendo que sete dos presentes na segunda encontram homônimos na primeira parte; oito estão apenas nela e cinco dos títulos se repetem na terceira parte. Esta, por sua vez, traz dez já incluídos na primeira e outros cinco que se apresentam somente ali. Há apenas um dos títulos que surge nas três etapas da escrita: “O Afogamento”. E é por ele que começo a desfiar meu rosário, neste domingo de páscoa.

turismo

 

A primeira vez em que aparece, remonta ao passado de Laila, um período em que um contratempo com Sávio, amigo de infância, é narrado pela vendedora do pet shop. Na segunda parte, o episódio se desenvolve tendo como cenário uma briga em que a própria narradora quebra o apartamento em que morava com um namorado, pondo fim ao relacionamento. Na terceira vez, a narradora assume o lugar de Laila em um experimentalismo às cegas, ocupando o lugar para se sentir em outro corpo, talvez sendo a mesma pessoa.

Das sessenta partículas que compõem esta sinfonia, em que pesem as repetições já mencionadas, há que se notar que apenas dez delas são representadas pela ausência de artigos definidos no título, quer sejam no singular ou plural: o, a, os, as. Três são substantivos (Laila, Pierre, Flores de Ferro), dois são advérbios (Não há inocentes e Como nascem as cachoeiras) e um é artigo indefinido (Um anjo invariável). 

“Laila” é o segundo capítulo da primeira parte e nos apresenta uma artista plástica de personalidade forte que, por conta de um problema na retina, acaba perdendo totalmente a visão. Na segunda vez, já na terceira parte, o capítulo traz um detalhamento da obsessão da narradora pela vida da outra, a quem define como uma mulher “contraditória e intensa, exatamente como um dia eu quis ser”. (MONTENEGRO, 2015, p. 190).

“Pierre”, terceiro capítulo da primeira parte, apresenta-nos o homem pelo qual Laila vai se envolver, enamorar-se e morar junto, para viver as peripécias narradas em forma de romance. Na segunda inserção, o capítulo trata de batizar ao cão guia adquirido no pet shop com o nome do namorado. A escolha foi de Laila que destaca a felicidade e identificação do cão com o batismo: “Ficou de orelhas empinadas, atento, enquanto o verdadeiro Pierre dava uma falsa risada, dizendo que era boa escolha” (idem, p. 105). Claro que me veio à mente a figura de Quincas Borba, o cachorro, a quem seu dono, Quincas Borba deixaria toda a sua fortuna. Mas aí seria outra a história.

“Flores de Ferro”, por sua vez, simboliza a aspereza das relações humanas, as indefinições de lugar no corpo, dos corpos neste lugar, do amor, do nascimento e da perenidade, penso. “Tão doloroso dar à luz quanto dar-se à escuridão, como aconteceu com Laila. Mas escolho simular esta última experiência, de um jeito parecido como fingia ser uma grávida quando tinha oito anos e andava com uma almofada sob o vestido” (idem, p. 206-7). 

Estas são as partes substantivas do conjunto. As incidências de advérbios encetando capítulos também são inquietantes. O advérbio de negação em “Não há inocentes” traz à baila a figura sarcástica de Laila que não perdoa deslizes de espécie alguma. Por trás de suas limitações encontra sempre maneiras de cutucar os outros, tirando-os de sua zona de conforto, como se divertisse pelo estado em que se encontra. Quando retorna, na terceira parte, este homônimo introduz definitivamente a vontade de ocupar o vazio da presença de Laila na vida de Pierre, o homem, ao lado de Pierre, o cão. 

“Como nascem as cachoeiras” são títulos presentes na primeira e terceira partes, não no meio. Origem e fim da liquidez das relações humanas, gênese da própria vida, água que rola, que se desbarranca pela vida afora, quero dizer, adentro. Água que nos envolve e que se derrama dos olhos, que habita nossos órgãos vitais, advérbio que introduz a metáfora. Mas é o artigo indefinido que ocupa o centro de minhas observações. 

A traição de Laila para com Pierre torna-se pública, fato com o qual ela se diverte. E a narradora perscrutando objetos da casa, que foi dele com Laila e na qual agora habita, como uma segunda pele, vai montando um quebra-cabeça revelador, o mapa-mundi sobre o qual descansaria agora, na transversal, a escultura herdada do avô. Algumas frases do livro ficam me rondando a cabeça, após terminar a leitura. Cito agora algumas delas:

1) “Quem passa a vida circulando pelos mesmos lugares tem a alma redonda e funda; quem se desloca e atravessa continentes tem a alma longa, cheia de vértices (p. 16).

2) “Laila estava deitada, cheia de sombras pelas pernas, que se abriam como duas pálpebras” (p. 55).

3) “As pessoas no caminho se tornavam vegetações incômodas, cipós que ela sacudia para longe, enquanto desbravava um destino” (p. 73).

4) “Ninguém se torna atrativo em pleno desespero, e essa era a minha condição, igual à de Pierre – embora ele não precisasse saber disso” (p. 148).

5) “Alguém sempre está preso em usa própria pele” (p. 183).

6) “Pierre me apontava buracos, desníveis no piso par que eu não escorregasse. O antigo hábito, pensei – mas então ele era o protetor, embora fosse tão magro e aparentemente tão fraco? (p. 203). 

7) “Laila me recordava um brinquedo que tive quinze anos antes, uma boneca de plástico que após uma queda engoliu os próprios olhos” (p. 219).

 

REFERÊNCIA

Montenegro, Tércia. Turismo para cegos. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 

 

*Luiz Renato Souza Pinto é poeta, escritor, professor do IFMT (Cuiabá). Desde abril assina a coluna mensal "Letras Delas", colaborando com o tyrannus, onde vasculha literaturas escritas por mulheres

 


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