CONTO

Pedra, papel e tesoura*



                                                                                                                                                                                                                                                         Para Lorraine Xavier*

 

Vi num livro que qualquer coisa pode ser arte. Um grito que se propaga no ar, pode ser arte? Pode. Em 2007 um artista matou um cão de fome na frente de todo mundo, disse que era arte e ele não foi o único a dividir opiniões. Duchamp assinou um mictório, Damien Hirst colocou um tubarão num tanque de formol. Não é bonito, mas seria, sim, arte — o livro continuava explicando. — Porque na arte existe a intenção: o artista que mata um cão de fome quer chamar atenção para a hipocrisia das pessoas. Os cães morrem de fome todo dia. Então, por que este era especial? Por que estamos olhando pra ele?

Um conto, é arte, ainda que de mau gosto, ainda que ruim. Isto aqui é um conto. Eu sei, não parece, mas acredite: eu estou trazendo detalhes factíveis para buscar verossimilhança. A arte, neste conto, tem uma pergunta, uma intenção. Lorraine se levanta. Minutos atrás tinha entrado numa loja com a amiga, para se esconder das balas. Agora sai, decide, afinal, que é seguro. As balas pararam de ser ouvidas há alguns minutos. Está tudo bem, ela diz. Diz e sai, ganha a rua. Não se despede. Lorraine é a personagem que se põe a caminhar e isto aqui é um conto. Eu digo que Lorraine caminha como se dissesse Está vendo?, como se apontasse, Lá vai ela, viu? Passando por nós, com seus óculos no rosto e seus projetos na cabeça. Posso acrescentar detalhes, até. Dizer, por exemplo, que carrega livros. Que veste a farda do colégio. Mas se eu for bem sucedida nesta minha intenção, ainda assim há coisas que não conseguirei explicar. O peso, por exemplo. Ou por que Lorraine morre no fim do conto?

Arme e efetue.

Galileu ficou intrigado ao constatar que uma bola de ferro e uma folha de papel, se as soltássemos de uma mesma altura, independente da sorte, do horóscopo, da fé, chegariam ao chão em momentos diferentes ao chão.

Então por que Lorraine morre? Isso é uma questão mais áspera. Por quê?

Porque há métodos que nos ajudam a conhecer melhor o mundo que nos cerca.

Outros, criam ilusões.

Tesoura:

Lorraine pediu aulas-extra. O que intrigava Galileu era a convenção de que a massa dos corpos, isso que popularmente chamamos de peso, influenciava no quão rápido eles chegariam ao chão. Pois, sim, está certo: a bola de ferro chega antes da folha de papel sulfite. Não importa quantas vezes a experiência se repita e disso os gregos já sabiam. Mas foi preciso Galileu, sim, na sua intenção de entender, de explicar o mundo pra nós, para verificar que, bem… Pegue esta mesma folha de papel sulfite. Amasse-a. Solte. Sim: sem ganhar um grama a mais, ela passa a chegar tão rápido quanto a bola de ferro, se for amassada.

Lorraine quer fazer engenharia mecânica. Este conhecimento, aparentemente prosaico: o ar influencia, então, na queda dos corpos, pode, já que isto é um conto, ganhar ares metafóricos. Poderíamos dizer que Lorraine, por ter intenção, pode, apesar de ter engravidado antes de terminar o ensino médio, chegar mais rápido ao seu objetivo se conseguir reduzir a interferência do “ar”. Podemos dizer: Lorraine vinha amassando a si mesma. Tesoura. Vinha buscando um trabalho que lhe ajudasse a poupar dinheiro, e aulas extras, e mais esforço, e mais estudo… A intenção de Lorraine, que gosta quando as coisas funcionam de maneira exata, pode ser a de: fazer a folha de sulfite chegar tão rápido quanto a de ferro ao chão sólido que nos segura.

Galileu disse: basta criar condições que diminuam influência do ar. É assim que termina a primeira parte deste conto. Galileu vence aqui: prova sua questão. Lorraine ganha questões extra para se preparar para o Enem. As balas podem voar a vontade.

Mas para isso, temos que reconhecer: a arte, as metáforas aqui, são uma ilusão, um truque barato. Tesoura vence o papel.

A gravidez muda Lorraine para melhor. Tesoura: Lorraine estuda e trabalha para dar uma vida boa à sua filha, agora. Inclusive: uma festa de um ano. E caminha, como se cortasse o ar, pela rua em direção à loja.

Pedra:

A velocidade de saída é a velocidade de um projétil no momento em que deixa a boca do cano de uma arma. Isto eu sei porque pesquisei na Wikipedia. Variam de aproximadamente 120 m/s a 370 m/s em mosquetes de pólvora negra, para mais de 1 200 m/s, em rifles modernos com cartuchos de alto desempenho. Sei também que: para simular impactos de detritos orbitais em espaçonaves, a Nasa lança projéteis através de canhões de gás leve. É aqui que entra Lorraine: a velocidade de um projétil é mais alta na boca do cano e cai gradualmente, à medida que o ar vai lhe influenciando. De novo: a resistência do ar. Sabemos, então, que se as armas disparassem folhas de papel, abertas, com um conto escrito (este, por exemplo), Lorraine, que era alegre, não iria ler. Iria rir. Contos não mudam o mundo. Ela continuaria sua caminhada até a loja de festas da tia. Decidiria, então, que vai, sim, fazer lembrancinhas de papelão para o aniversário de um ano de Isabel.

Mas uma bala tem uma massa compacta, sólida, de material resistente. Viaja muitos metros por segundo. Uma bala não tem intenção. Lorraine sim. Nós preferíamos Lorraine, claro, porque isto é um conto, a intenção é o que vale. Uma menina de 18 anos, esta, que se vê mudada depois da gravidez, tem muito mais potencial para ser uma grande personagem do que a bala que protagoniza este segmento.  Ela que voltou a estudar e que de vez em quando faz uns bicos com os tios, ela que quer ter um emprego de carteira assinada; quer entrar na universidade, que quer ser engenheira mecânica custe o que custar, e dar uma vida segura para a filha… Sim: tesoura vence papel, já entendemos. Mas eu, que insisto nisso, de novo, perco.

Uma bala, ainda que sem intenção, pode perfurar um braço, um seio e pode, ainda: atravessar as costas de Lorraine achando ali dentro um coração prosaico: músculos, artérias… Pedra quebra tesoura. E quebra também, por exemplo: este mamífero, espécie humana, gênero feminino. Como explicar Lorraine? E  tudo o que ela foi: o dia em que os pais se separaram, o momento em que contou para a mãe que estava grávida, cada pequena vitória, suas ideias para o aniversário da Isabel. Lorraine e os livros que segurava, que são hipotéticos, e isso não precisa explicar: caem com a mesma velocidade no chão. Ainda que os livros sejam supostos, que pesem menos. Galileu já tinha decretado. E ele acerta. Sim, está explicado. Por que Lorraine morre? Lorraine morre porque uma bala, viajando rápido, tem velocidade o bastante para para perfurar um braço, um seio, para achar, pela resistência do ar, um músculo.

E Lorraine morre. É simples.

Uma lei da física é igual não importa o lugar nem o dia. Pedra vence tesoura. A bala, pode estar no meio da aula de matemática, na sala Jesus te chama, na parede esburacada por tiros de fuzil. A bala pode vir e interromper a aula. Lorraine se prepara para o vestibular. Os conhecimentos de física, de matemática, que a ajudam a entender o mundo não modificam isso: balas matam.

Eu, que escrevo o conto, só posso mudar, escolher outra personagem e dar voz a ela. Digamos: uma garota que está em casa, que decide ir fechar o portão (Fui fechar o meu portão por causa do tiroteio) e que encontra, do lado de fora, Lorraine. (Aí fui lá e tinha uma garota do lado de fora) Eu sei que a garota é Lorraine porque vi no jornal. (Aí eu pedi a ela para que viesse para dentro da minha casa porque estava dando bastante tiro). E vou, tentar recriar esse momento em que ela podia ter escapado (Aí, nisso que fui puxar a menina para dentro da minha casa), um momento que deve ter sido tão rápido (estiquei o braço assim, nisso veio uma bala que me atingiu e também atingiu ela nas costas), mas que, levando em conta as questões da física (Ela caiu no chão e eu corri para dentro jorrando de sangue), nada disso importa, eu falho (Aí paramos, correndo, um carro na rua. O primeiro carro que a gente viu, a gente parou). Falho: porque a bala, que não tem intenção, não tem, também, lugar certo para aparecer. Não podemos calcular onde vão estar, nem a que horas.  (Aí, a gente não conseguiu. A gente tentou. Eu tentei mesmo, mas não deu).

Pedra vence tesoura.  Para Lorraine eu vou escrever um conto com uma dedicatória insossa, “Para Lorraine”. E eu me dou conta que, eu escrevendo um conto, meu papel nisso tudo é meramente figurativo. As coisas que aconteceriam aqui, se acontecessem, seriam inteiramente ficção. Se Lorraine consegue ou falha nos seus planos. Final feliz ou triste. Eu não tenho uma escolha. Galileu tem razão. Eu não tenho como mudar isso porque um conto é ficção, mas Lorraine era real.

Papel:

Eu continuo escrevendo o conto. Crio a ilusão de que não. Não é assim. Lorraine cai, mas algo fica. Nem que sejam os óculos de aros grossos, a camiseta do uniforme escolar com uma gola azul.  Eu suspiro, como se a conhecesse. Tento reparar um mal. A intenção na arte é ridícula, sim, eu sei, em sua ambição de fazer perdurarem as coisas, as pessoas. Lorraine não pode vencer a entropia, viajar no tempo. Foi enterrada no cemitério do Murundo, em Realengo, no mês de maio e as pessoas vestiam camisetas com seu rosto. Mas papel enrola a pedra.

Papel não ganha, não quebra nada. Ele envolve, apenas. A pedra, debaixo dele, continua intacta. Papel enrola pedra. Neste conto eu tento encobrir a bala porque prefiro Lorraine.

Eu tento: Lorraine, então, ainda na sala de aula diz, de novo, ao professor: Mais aulas — ela pede. — Mais exercícios pra fazer em casa. Ela comunica ao pai que está decidido: vai fazer engenharia mecânica. Lorraine, neste conto, pode vencer a situação, as pequenas tragédias. Lorraine precisa, pelo menos no conto, estar, de novo: no melhor momento da sua vida. E ter esperança.

Porque não é justo.

Mas justiça é direito. Direito é uma ciência humana. E é melhor parar por aqui. Pois isso só nos levaria, de novo — tesoura — ao começo deste conto.

E, desta vez, infinitamente, quem será que cai primeiro?

 

*Reproduzido de http://saopauloreview.com.br

 

**Lorraine Xavier, jovem estudante carioca que morreu vitimada por uma bala perdida em 2017

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Débora Laís Ferraz dos Santos é uma jovem escritora brasileira em ascensão, vencedora dos prêmios Sesc e São Paulo de Literatura, com o seu primeiro romance "Enquanto Deus não está olhando" (2014)


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