LETRAS DELAS

De Portugal: Adriana Lisboa!



adriana

A escritora vive nos Estados Unidos há alguns anos. E de lá olha para o seu país com ávida compreensão pelo que aqui acontece

   (O que existia ali era a ditadura do espaço, uma infinidade de chão para a direita, uma infinidade de montanhas para a esquerda, uma infinidade de céu encapotando tudo (LISBOA, 2010, p. 22)).                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     

 Não houve ditadura no Brasil. Parece que já decidiram isso. Acho até aceitável para alguém que tenha menos de trinta e quatro anos de idade e nunca tenha lido um livro. Que não tenha assistido a aulas de história no ensino médio e, caso tenha feito faculdade, não experimentou o prazer de participar de debates acalorados em aulas da área das ciências humanas e sociais.

Em 1984, assistindo a aulas de filosofia quando tentei seguir no curso de História da Universidade Federal de Mato Grosso, entrei em contato com o pensamento de muitos filósofos contemporâneos que me acenderam a curiosidade para a história do pensamento universal. Como são gestados os discursos, o diálogo incessante da história com a literatura, por exemplo. Quem foi aluno de Maurília Valderez, àquela época, pode imaginar do que estou falando e da importância disso no ano das ”diretas já”.

Ao longo do Mestrado em História, pela mesma universidade, nas aulas de outra pessoa importante na formatação de meu conhecimento, pude reforçar esse credo. Por volta de 2003, com Regina Beatriz, nas disciplinas obrigatórias do programa, mais uma vez fui chamado à atenção pelas relações intestinas entre as duas áreas e sua interface, ponto de encontro e fusão de tensões, que é a narrativa.

Lendo Adriana Lisboa (primeiro com “Hanói”), percebo a leveza que essa mistura pode atingir, sem menosprezar a profundidade do corte, da incisão certeira do texto na formação do pensamento. Adriana vive nos Estados Unidos há alguns anos. E de lá olha para o seu país com ávida compreensão pelo que aqui acontece:

( Naqueles dias, ávida por informação, li que o estado do Colorado tinha menos gente do que a cidade do Rio de Janeiro. Mas eu sabia que as montanhas do Rio de Janeiro, ainda que por outros motivos, também achavam graça na sua cidade. Aquelas montanhas tropicais de onde já se esfolaram florestas inteiras. As montanhas puxadas do chão rente ao mar, que a cidade escalava e escalava e onde se construía como podia, com o material que tivesse â mão, desabando de tempos em tempos com as chuvas mas se reconstruindo como podia (idem, p. 23)).                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                Brasil, terra de Milton Santos, de Augusto Boal, de Paulo Freire, esse que tem sobre sua histórica erudição o fantasma de uma guilhotina reacionária, inescrupulosa e para quem “se trabalhasse na lavoura eu teria uma enxada antes mesmo de aprender a falar. Era o que ela sabia fazer, e achava um desperdício não deixar para mim, de graça, como herança em vida, qualquer conhecimento que fosse” (idem, p. 26).

“Azul-corvo” é o nome do romance de Adriana que relato aqui. E que metaforiza as relações da ditadura militar com a Guerrilha do Araguaia, ao sul do Pará, há pouco mais de cinquenta anos. É hora de refletirmos sobre tantas lições aprendidas nos últimos tempos. “Quando o inimigo avança, recuamos. Quando para, o fustigamos. Quando se cansa, o atacamos. Quando se retira, o perseguimos” (idem, p. 48).

Adriana Lisboa é fluminense, da região serrana, que encontrou no Rio de Janeiro seu espaço para viver, por um tempo. E sua memória performatiza-se nesta narrativa em que lembra de algumas coisas interessantes de nossa história recente. “... o coronel Andreazza construía no sudeste do país, entre o Rio de Janeiro e Niterói, sobre a baía de Guanabara, o tal elo planejado havia quase um século. A ponte tinha uma vantagem enorme sobre a estrada: ela seria concluída” (idem, p. 49).

Este país, gigante pela própria natureza, é revisitado pelo olhar de quem se ausenta fisicamente, mas apenas fisicamente. E vê que “O milagre da transubstanciação da floresta em bife. (Soja? Também se transubstancia. É exportada e vira ração para o gado em países ricos)” (idem, p. 51). Este país que desrespeita os idosos, os jovens, tira as oportunidades de trabalho, de saúde e educação dos mais frágeis para beneficiar os detentores dos meios de produção. “(No ano do golpe militar, a dívida brasileira era de pouco mais de três bilhões de dólares. Em 1985, (...) quando o general Figueiredo pediu a todos que o esquecessem, passava dos noventa bilhões.)” (idem, p. 87).

Mas a linguagem suave de Adriana Lisboa não habita somente romances. “Sucesso”, livro de contos, traz nove narrativas curtas bastante envolventes. Como “Feelings”, que me faz lembrar das aulas de inglês, o tempo em que fui o melhor da turma por uma única vez, por volta de 1974, então com doze anos e muita facilidade para aprender inglês. Maurício Alberto, quero dizer Morris Albert, cantava, sendo também o compositor do hit. 

 (A casa está embrulhada num dia chuvoso numa cidade chuvosa perto do mar. Uma tropa de árvores desce a encosta até o riacho. No pequeno tanque à esquerda da porta de entrada há peixes ornamentais: carpas, que oferecem serenidade equilíbrio. Vermelhas, brancas, pretas. Douradas (Lisboa, 2016, P. 69))                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

A habilidade com que se narra traz certa candura ao discurso. Uma casa embrulhada; a tropa de árvores no tanque (não de guerra), peixes ornamentais. Vai se esparramando pelo texto o rastro de poesia pura. “Ela precisa aprender a se calar em vez de ficar procurando palavras para o que não cabe nelas” (idem, p.80).

O último conto é dedicado a Claudia Lage. Foram colegas de antologia organizada por Luiz Rufatto em 2004. Adriana com o conto “Caligrafias”, Claudia, com “Uma alegria”. Um homem, uma mulher. Cabeças. Troncos. Membros. O tempo que não disfarçava suas surpresas e a redescoberta do casal. Depois de ler este conto voltei os olhos para o conto “Glória”, que encerra o livro de Adriana. Para os seus personagens era tarde demais.  A amizade entre Adriana e Cláudia parece ir muito além da linguagem.

 

 

REFERÊNCIAS

LISBOA, Adriana.  Azul-corvo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010. . 

_______________. O Sucesso. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016.

LAGE, Claudia. Uma alegria. In: 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. Organização Luiz Rufatto. Rio de Janeiro: Record, 2004.  

 

*Luiz Renato Souza Pinto é poeta, escritor, professor do IFMT (Cuiabá). Desde abril assina a coluna mensal "Letras Delas", colaborando com o tyrannus, onde vasculha literaturas escritas por mulheres

 


Voltar  

Confira também nesta seção:

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet