CONTO

Abril é o mês mais cruel*



Não soube se o que o despertou foi a claridade que entrava pela janela, o calor ou ambas as coisas. Ou quem sabe o barulho que ela fazia na cozinha preparando o café da manhã. Ouviu primeiro ela fritar os ovos e logo em seguida sentiu o cheiro da manteiga quente. Se esticou na cama e sentiu a frescura dos lençóis escorregando por debaixo de seu corpo e um arrepio agradável correu pelas costas até a nuca. Naquele momento ela entrou no quarto e ele se surpreendeu ao vê-la com o avental por cima do shorts. A lâmpada, que antes estava na mesinha ao lado da cama, já não estava mais ali e ali, ela pôs os pratos e os copos. Só então se certificou que ele estava acordado.

— Que me conta este dorminhoco? — perguntou ela brincando.

Em um bocejo ele respondeu: Bom dia.

— Como você se sente?

Ia dizer que muito bem, mas pensou que não era exatamente muito bem. Reconsiderou e disse:

— Admiravelmente.

Não mentia. Nunca tinha se sentido melhor. Mas se deu conta que palavras são traiçoeiras.

— Que bom! — disse ela.

Comeram. Quando ela terminou de lavar a louça, voltou ao quarto e propôs que eles fossem dar um mergulho.

— Faz um dia lindo — disse.

— Vi pela janela — disse ele.

— Viu?

— Bem, senti.

Se levantou, se lavou e colocou seu calção de banho. Por cima vestiu o roupão e foram a praia.

— Espere — disse ele na metade do caminho — Esqueci a chave.

Ela tirou a chave do bolso e mostrou. Ele sorriu.

— Você nunca esquece de nada?

— Sim — disse ela e o beijou na boca — Hoje tinha esquecido de te beijar. Quer dizer, depois de acordado.

Sentiu o ar do mar nas pernas, no rosto e respirou fundo.  

— Isso é vida — disse.

Ela tinha tirado as sandálias e enterrava os dedos na areia ao andar. Olhou para ele e sorriu.

— Você acredita? — disse.

— Você não acredita? — retrucou ele.

— Oh, sim. Sem duvida. Nunca me senti melhor.

— Nem eu. Nunca na vida — disse ele

Se banharam. Ela nadava muito bem, com braçadas longas de profIssional. Pouco depois ele regressou a praia e se deitou na areia. Sentiu que o sol secava a água e os cristais de sal se grudavam nos seus poros. Ele pode observar onde estava se queimando mais e onde se formariam bolhas. Ele gostava de se bronzear ao sol. Ficar quieto, encostar a cara na areia e sentir a brisa formando e destruindo aquelas pequenas dunas e jogando grãos de areia para dentro de seu nariz, seus olhos, na boca e nos ouvidos. Parecia um deserto distante, imenso, misterioso e hostil. Cochilou.

Quando despertou, ela se penteava ao seu lado.

— Voltamos? — perguntou.

— Quando você quiser.

Ela preparou o almoço e comeram sem se falar. Tinha se queimado levemente no braço e ele foi até a farmácia que ficava a três quarteirões para comprar picrato. Depois ficaram no portal e até eles chegou o fresco, e as vezes rude, vento do mar que se levanta às tardes em abril.

Ele a olhou. Viu seus tornozelos delicados e bem desenhados, seus joelhos lisos e os músculos delineados com suavidade. Ela estava deitada na espreguiçadeira relaxada e em seus lábios grossos havia una tentativa de sorriso.

— Como você se sente? — perguntou.

Ela abriu seus olhos e voltou a fechar diante da claridade. Suas pestanas eram largas e curvas.

— Muito bem. E você?

— Muito bem também. Mas me conte... já saiu tudo?

— Sim — disse ela.

— E já não incomoda?

— Em absoluto. Te juro que nunca me senti melhor.

— Me alegro.

— Por quê?

— Porque incomodaria me sentir tão bem se você não está bem.

— Mas eu me sinto bem.

— Me alegro.

— Verdade. Acredite, por favor.

— Acredito.

Ficaram em silencio e ela falou:

— Damos um passeio pelas pedras?

— Você quer?

— Sem dúvida. Quando?

— Quando queiras.

— Não, diga você.

— Esta bem, dentro de uma hora.

Em uma hora tinham chegado aos penhascos e ela perguntou observando na praia o desenho da espuma das ondas que se estendia até as cabanas:

— Que altura você acha que deve haver até lá embaixo?

— Uns cinquenta metros. Talvez setenta e cinco.

— Cem não?

— Não creio.

Ela se sentou na pedra, de perfil para o mar com suas pernas contrastando com o azul do mar e do céu.

— Você já me fotografou assim? — perguntou ela.

— Sim.

— Me prometas que nunca fotografará outra mulher assim neste lugar.

Ele se zangou.

— As coisas que passam pela tua cabeça! Estamos em lua de mel, não? Como posso pensar em outra mulher.

—Não digo agora. Mais tarde. Quando você tenha se cansado de mim, quando a gente tenha se divorciado.

Ele a levantou e a beijou nos lábios com força.

— Você é boba.

Ela se aconchegou em seu peito.

— Não nos divorciaremos nunca?

— Nunca.

— Você vai me querer para sempre?

— Sempre.

Se beijaram. Quase em seguida escutaram que alguém lhes chamava.

— É com você.

— Não sei quem possa ser.  

Viram um velho se aproximar por trás das ramas da folhagem.

— Ah. É o encarregado.

Ele os cumprimentou.

— Vocês partem amanhã?

— Sim, pela manhã bem cedo.

— Bem, então prefiro que paguem agora. Pode ser?

Ele olhou para ela.  

— Vai você com ele. Eu quero ficar aqui um pouquinho mais.

— Por que você não vem também?

— Não— disse ela— Quero ver o por do sol.

— Não quero interromper. Mas é que gostaria de ir à casa da minha filha para ver as lutas de box pela televisão. Você sabe, ela vive aqui perto.

— Vá com ele — disse ela.

— Está bem — disse ele e saiu andando atrás do velho.

— Você sabe onde está o dinheiro?

— Sei — respondeu ele, olhando para trás.

— Vem me buscar depressa, pode ser?  

— Está bem. Mas quando escurecer, descemos. Lembre-se.

— Está bem — disse — Me de um beijo antes de ir.

Ela o beijou com força e com dor.  

Ele a sentiu  tensa, afiada por dentro. Antes de se perder atrás das folhagens ele ainda acenou. Pelo ar chegou sua voz que dizia eu te quero. Ou talvez perguntava, você me quer?

Ficou olhando para o sol se pondo. Era um círculo cheio de fogo que o horizonte convertia em três quartos de círculo, em meio circulo e em nada, ainda que permanecesse um leve borbulhar vermelho por onde o sol desapareceu. Em seguida o céu foi ficando violeta, roxo e o negro da noite apagou os restos do crepúsculo.  

— Teremos lua esta noite? — se perguntou ela falando alto.

Olhou para baixo, viu um buraco negro e logo abaixo, a crosta de espuma branca ainda visível. Se moveu para a borda onde estava sentada e deixou os pés pendurados no vazio.  Depois apoiou as mãos na pedra, suspendeu o corpo e sem o menor ruído se deixou cair no poço negro e profundo que era a praia exatamente oitenta e dois metros abaixo.  

 

*Reproduzido de http://contosquevalemapena.blogspot.com

cabrera infante

Guillermo Cabrera Infante (1929-2005) nasceu em Cuba e naturalizou-se britânico. Foi romancista, contista e ensaísta, escreveu poemas visuais e roteiros cinematográficos

 

 


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