LETRAS DELAS

Trinca de Ás



iberê perissé

rezende

Se o nordestino é antes de tudo um forte, a santista (não sei se gosta de futebol, mas nasceu na terra que apresentou Pelé ao mundo) nos envolve com sua máquina de despertar desejos mais imberbes com a força da palavra

Depois de “Face Serena” e “Cartas à Rainha Louca”, embarquei na leitura de outros três livros de Maria Valéria Rezende. “Vasto Mundo”, “O voo da guará vermelha” e “Quarenta dias” compõem este conjunto de uma autora distinta do vozerio que toma conta das editorias país afora. Por que trato com distinção esse bloco? Pelo fato de que atravessar décadas de regimes autoritários pelo mundo afora, escorada com a pedagogia do oprimido e convivendo com opressores não é tarefa fácil, nem de fôlego, para qualquer um. E me incluo entre os tais.

Comecei pelo “Vasto Mundo”, obra de estreia de quem publica ficção somente aos sessenta anos. Ainda tenho cinquenta e sete e chego à conclusão real de que nada sei. No máximo desconfio, parafraseando ao Guimarães. No máximo. Mas também desconfio daqueles que têm muitas certezas, como dá a entender certa letra do menino Agenor. O olhar tem que estar atento para observar o mundo ao redor. O vasto mundo que avança para além das metáforas do itabirano que cresceu forte, mesmo sendo mirradinho.

40dias

 

Desse mundo encantado que brota da estreia, vejo que “Ele, meio coxo, um fracasso no futebol e no forró, com meia dose de cana adoecia e não conseguia ver nas moças que conhecia a beleza extasiante que os poetas cantavam” (REZENDE, 2015, p. 159). A plasticidade das construções dispensa qualquer adereço, ou penduricalho.

Mas também em “O voo da guará vermelha”, o grande caldeirão da convivência, nem sempre pacífica, entre os humanos parece brotar das palavras repletas de significados de Maria Valéria. Parece um mundo que se desenvolve à revelia do ser/estar de cada qual. E o olhar de quem espia, indaga: “ Para de pensar, mulher, pensa nada, pensa vazio como esta rua, pensa nos cotovelos doendo de estar assim apoiados na beira da janela” (Idem, 2014, p. 13).

Tenho trabalhado há um tempo com a metáfora da janela como moldura da sociedade patriarcal. A primeira vez em que observei isso foi em um conto de Teresa Albués, intitulado “Gregória na Janela”, e que mais tarde foi republicado em seu livro “Buquê de Línguas”, com o título de “Georgina na Janela”.  Muda-se o título, mas o elemento espacial é o mesmo. Para os adeptos da fenomenologia e assíduos visitadores de Bachelard, essas observações não devem passar despercebidas. 

O mergulho para dentro do foco narrativo se dá com intensidade tamanha. É como se estivéssemos ao lado do personagem no momento catártico, ou mesmo epifânico de sua condução coercitiva aos objetivos do texto. “Na tarde em que João dos Ais terminou o seu trabalho, deixou a estátua do santo inteirinha bem polida e disse que então só tinha de esperar o dia certo de fazer a romaria, criei coragem e pedi que me contasse a história de sua vida, inteirinha, palavra atrás de palavra, que eu via que aqueles versos não nasciam da viola, vinham das veias, do corpo de quem sabia o que era gozar e sofrer de amor por ter vivido ele mesmo, não por ouvir contar por outra pessoa” (idem, p. 71).

Se o nordestino é antes de tudo um forte, a santista (não sei se gosta de futebol, mas nasceu na terra que apresentou Pelé ao mundo) nos envolve com sua máquina de despertar desejos mais imberbes com a força da palavra. Ela sabe que “a coisa mais poderosa que a gente tem é a mente dominada por um desejo, por um amor ou por ódio, que muda o que os olhos veem, faz ouvir o que se quer, amolda o mundo ao desejo” (idem, p. 116).

Assistindo a uma entrevista recente da autora, para a TV Senado, capto a informação de que o livro que ela considera mais radical de sua trajetória é o “Quarenta dias”. Pela experiência que subsidiou a escrita; passar noites em claro em locais considerados de alta periculosidade na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Confesso que dos cinco lidos, esse foi o que menos me atraiu. Não estou dizendo que é pior que os demais, certo?

Alguns aspectos gráficos da edição funcionam como paratextos acrescentando valor à literatura. Anúncios e ilustrações que dão conta do que há pelas ruas em forma de texto, portanto, portadores de significados importantes para ilustrar a fabulação. E as epígrafes (trinta e quatro ao longo de todo o livro) também são enriquecedoras. Apenas um autor aparece em duplicata, Lêdo Ivo.  Algumas são bastante fortes, que por si só já dariam um livro. 

Fico com a de Marília Arnaud, paraibana que mora na terra que tem o privilégio de hospedar Maria Valéria Rezende: João Pessoa. “Não pergunte por que lhe escrevo. Escrevo porque as palavras estão aí, como a cidade, a noite, a chuva, o rio, diante de mim, dentro de mim, uma torrente de palavras que não me cumprem” (ARNAUD, 2014, p. 7).

 

REFERÊNCIAS

ARNAUD, Marília. In: REZENDE, Maria Valéria. Quarenta dias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. 
REZENDE, Maria Valéria. Vasto Mundo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
 O voo da guará vermelha. 2 ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
Quarenta dias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. 

 

*Luiz Renato Souza Pinto é poeta e escritor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

 


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