POESIA

Amélia Biagioni

Propus-me ser alguém*

 

Propus-me ser alguém,
ter e dar
pessoa e horizonte
próprios.

 

Mendiguei até conseguir um quarto vivo.
Assinei o ar, as mortalhas
e a escritura.
Organizei a luz, as horas,
ditei as hierarquias,
movi os sítios, as pontas,
os elementos sossegados,
os movimentos e os ruídos.
Abri a porta
e entraram liturgias
e o coro
e o azar
e rodearam-me.
E entrou o solista,
enrodilhou-me num fio azul,
deu-me uma condição oculta de fábula
e um ofício visível e errante
de erva percorrendo as criaturas.
E a festa brilhou sobre a sua música
ao longo do dia.
Porém a noite chegou
e flutuei  só entre penumbras e inimigos.
Madeiras, torneiras,
carpetes, recantos, cristais,
todas as coisas
ergueram suas leis,
suas dinastias,
suas singularidades,
devorando
o meu argumento de vida,
o meu som,
o meu calor,
arremessando-me.
Atrás de mim cerrou-se a porta.

 

*Reproduzido de http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com , tradução de HBMF

 

Amélia Biagioni (1916 - 2000), poeta da Argentina


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