CONTO

Insepultos



Havia nada menos de trinta e cinco anos que eu deixara minha cidade natal quando lá tornei pela primeira vez.

Trinta e cinco anos! Quantas voltas não dera o mundo durante essa larga ausência! De lá saíra levando por única bagagem – pobre órfão desamparado! – um leve saco cheio de ilusões, e voltava agora triunfante, de novo sozinho é verdade, mas com o meu saco cheio de ouro até à boca.

Como é de calcular, tão brilhante foi a volta quão mesquinha e triste tinha sido a partida; receberam-me com música, vivas e foguetes, numa estrondosa manifestação de entusiasmo; e desde logo por diante começaram a ferver em volta do meu nome ou do meu título os melhores e mais carinhosos adjetivos, como em volta de mim ferveram as festas, os bailes e os regalos.

Tomaram-me por tal modo que me não deixaram tempo sequer para lembrar-me da única pessoa talvez que tivesse tido uma lágrima sincera quando de lá parti desamparado e pobre.

Foi essa gentil pessoa a dona dos meus primeiros amores. Um romancete dos dezoito anos. – Ah! como nesse tempo meu coração era puro! – Vi-a uma vez numa festa de arraial e logo ficamos namorados. Chamava-se Alice. Consegui relacionar-me com a família dela; depois tivemos entrevista ao fundo do quintal de sua casa, debaixo de um caramanchão de jasmins. Fiz-lhe, trêmulo, com as suas pequeninas mãos entre as minhas, a confissão do meu amor; ela abaixou os olhos enrubescendo e, toda confusa, toda medrosa, jurou, balbuciando como num sonho, que só a mim queria por toda a vida e só a mim aceitaria por esposo.

E parti, no entanto, para o Rio de Janeiro sem ao menos lhe dizer adeus, porque nessa ocasião estava Alice fora da cidade. Mas, por muitas vezes, nos meus primeiros desenganos e na febre das minhas lutas pela vida e principalmente depois na ressaca das minhas vitórias sem mérito, a sua singela imagem, graciosa e casta, vinha alegrar a sombria aridez dos castelos da minha ambição com a brancura das suas asas, como alva pomba vai às vezes pousar na enegrecida torre de uma velha igreja abandonada e vazia.

Amigo desmemoriado e ingrato que és tu, meu pobre coração! só três meses depois da minha estada na província – três meses! te lembraste de Alice! E achaste-la de novo, perjuro! achaste-la, de memória, na amargura da tua velha saudade, como no fundo de um venturoso sonho extinto! achaste-la, a fitar-me ainda do passado, com os seus grandes olhos inocentes e amorosos. Achaste-la, sim, que meus lábios ainda sentiram a doce impressão da inocente boca de donzela que os beijou noutro tempo! Achaste-la, que em minha alma cansada respirou ainda o delicado aroma que eu nela adivinhava dantes, como se adivinha no botão de rosa o perfume que há de ter a flor desabrochando.

Ah! muito e muito me impressionaram semelhantes recordações! impressionaram-me tanto que, quando depois me achava em sociedade, instintivamente iam sempre meus olhos procurar no grupo das damas alguma que me desse idéia da formosa criatura por quem meu coração gemeu a primeira nota de amor. Mas qual! estavam todas bem longe de lembrar sequer aquela graça meiga e despretensiosa, aquele doce agrado, humilde, quase infantil, que em Alice me cativaram. Em nenhum daqueles olhos de mulher que agora me cobiçavam, em nenhum daqueles sorrisos que nas salas me seguiam atados numa esperança de casamento rico, encontrava eu o mais ligeiro vislumbre do amor passado, daquele amor que eu vira outrora nos olhos dela, tão natural e sincero!

Mas uma noite, no palácio do presidente, por ocasião de um baile que me era oferecido, ruminava a minha incoercível saudade ao fundo de uma janela, quando notei que viera colocar-se ao meu lado uma senhora gorda, idosa e respeitável. Aprumei-me logo, vergando-me galantemente, de claque em punho, e, antes de achar tempo para dizer qualquer banalidade de cortesia, reparei que ela me fitava com estranha insistência.

Tive um sobressalto. O coração bateu-me com mais força. Entre nós dois cavou-se um profundo silêncio, frio e desconsolado como a velhice.

Encaramo-nos ainda um instante, sem dar palavra; depois, voltando pouco a pouco do meu abalo, senti ir acordando a minha memória defronte daquela triste e cansada fisionomia, que ali me fitava obstinadamente, como se por detrás dela uma alma oculta me estivesse espiando do passado.

E reunindo, como depois de um naufrágio, os miseráveis destroços de uma querida formosura que já não existia senão na memória do meu coração e na poesia da minha saudade, balbuciei com os lábios trêmulos e os olhos úmidos:

– Alice!

Ela sorriu tristemente e conservou-se muda.

No fim de algum tempo suspirou e disse-me que estava à espera de ver se eu ainda a reconheceria.

Aproximamo-nos então um do outro e conversamos. Contou-me que já tinha netos. Enviuvara com seis filhos e sofrera muito desde o primeiro parto.

Em seguida vieram as recordações, e tudo lembrado por ela, com uma voz em que faltavam dentes e uma comoção que lhe fazia os olhos menores e mais empapuçados.

E eu, enquanto a ouvia, examinava-a disfarçadamente, procurando descobrir e colher uma lembrança da encantadora companheira dos meus primeiros sonhos por entre aqueles fúnebres restos insepultos.

Que terrível desilusão, meu Deus!

Oh! por que aquela desumana criatura consentiu que eu a visse assim, indecorosamente descomposta de beleza? Por que aquela insensata não fugiu para dentro do mundo, não se escondeu na terra, antes que a senilidade lhe viesse daquele modo ultrajar tão miseravelmente o corpo que eu até esse instante divinizava na minha saudade?

Ela, coitada! como se percebera o meu íntimo juízo, fez-me notar, jovialmente, que também eu pelo meu lado estava bem longe de lembrar o que fui. E de novo entristecida, malgrado o esforço que fazia para alegrar o rosto, recordou-me, com um inquietante sorriso, os meus belos cabelos de moço, quando eu os tinha negros, abundantes e anelados; e referiu-se, meneando a cabeça desconsoladamente, à extinta alvura dos meus dentes e à rosada frescura primitiva de meus lábios, outrora tão bonitos e tão senhores dos meus últimos beijos de criança e dos seus primeiros beijos de mulher. E, fitando meus olhos, parecia procurar neles uns olhos que não eram os meus, mas ia com os dela entrando por eles familiarmente, para vir cá dentro de mim buscar os outros, os seus íntimos, os seus alegres companheiros de mocidade, que deviam lá estar ainda nesse passado feliz que cada um de nós carinhosamente continuava a guardar no fundo d’alma.

Acordei-a desse devaneio com uma facécia desenxabida, falando do meu bigode branco e da minha calva.

Rimo-nos ambos e continuei a rir durante o resto da nossa conversa. Mas, enquanto eu ria e gracejava, ia-me entrando traiçoeiramente no coração um hóspede sombrio, uma sinistra amargura, que principiava a instalar-se nele, varrendo para fora os últimos farrapos de ilusão que o intruso ainda encontraria lá dentro, esquecidos pelo chão e pelas paredes frias.

Não pude demorar-me ali. Dei-me por indisposto e retirei-me em meio da festa, sem levar na deserção outro companheiro além de um charuto acudido no momento de tomar o carro.

Ao entrar em casa dispensei o criado, recolhi-me sozinho aos meus aposentos e, ao passar pelo espelho do guarda-roupa, mirei-me longa e silenciosamente, como se só então e de surpresa me visse tão velho e acabrunhado, estranhando por tal modo a minha própria imagem como se naquele instante desse cara a cara com um desconhecido que eu não sabia donde vinha, nem o que de mim queria, para estar ali a fixar-me com tamanha impertinência.

Maldita sombra importuna! Maldito despojo de mim mesmo!

Traço por traço examinei-me da cabeça aos pés; todo eu, como Alice, tinha já desaparecido na melhor parte, e os meus restos eram cabelos sem cor, olhos sem luz, boca sem beijos e alma sem dono.

Como eu estava retardado neste mundo!

Despi-me. Não pude ler, nem pensar, nem fazer nada. Pus-me a fumar, estirado no divã, perdido numa infinidade de tolices aborrecidas. De vez em quando observava com tédio as minhas mãos engelhadas, o meu ventre disforme, as minhas pernas trôpegas e os meus pés deformados.

Oh! definitivamente esta vida era uma mistificação e não valia a pena viver! isto é, trabalhar tanto, desejar tanto, e para quê? para ir morrendo, até nos estalar afinal a última fibra e rolar dentro da terra indiferente mais uma pouca de lama.

E senti um doloroso e vago desejo de não continuar a existir, mas sem morrer; uma insaciável vontade de desertar do presente para o passado extinto; volver-me de novo o que eu fora, desprotegido e pobre, mas rico de inexperiência, com a minha mocidade inteira e inteiro o meu tesouro de ilusões; e que eu pudesse ir pelo passado a dentro, correndo, até chegar de novo aos dezoito anos, e atravessar então o muro do quintal daquela Alice, que não morrera e que já vivia, e cair-lhe aos pés, debaixo do cheiroso caramanchão de jasmins, e beijar-lhe os dedos brancos e mimosos, e dizer-lhe com a minha boca de moço mil cousas de amor e ouvir em resposta: “Eu te amo! Eu te amo!” e poder acreditar nestas palavras sem a mais ligeira sombra de desconfiança, como outrora, quando elas saíam quentes do coração de Alice para estalarem à superfície da boca num beijo contra meus lábios.

E depois, abraçado com ela, eternamente jovens como os amantes que os poetas celebram nos seus poemas de amor, queria fugir para um outro mundo bem longe deste, ideal e puro, onde não houvesse dinheiro nem honrarias, e onde se não fosse apodrecendo em vida, aos poucos, como nesta miserável terra em que nos arrastamos sem asas.

aluisio

Aluísio Azevedo (1857-1913) foi romancista, contista, cronista, diplomata, caricaturista e jornalista brasileiro


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