CONTO

O secretário*



O quarto tem o piso de mármore. As pedras são enormes placas brancas e pretas, espelhos que não permitiriam a uma senhora andar sobre ele sem anáguas e longos, e mesmo assim a passos muito curtos. O piso é um tabuleiro onde são comuns os enxadrismos do bem contra o mal. Não se pode permanecer nele sem a sensação de, a qualquer momento, sermos esmagados pelo L final de um cavalo gigante, a varredura transversa de um bispo, ou soterrados por uma das torres.

Estamos falando de um ambiente de cento e doze metros quadrados, as medidas foram inspiradas nas escalas da própria Jerusalém, muito embora estejamos agora no Vaticano, no quarto mais elevado da Catedral de São Pedro.

As cortinas deixam passar alguma luz, mas não se pode dizer que qualquer coisa ali seja natural. Ora, o sol é natural, você dirá, mas há um plano ali, um plano muito bem esquadrinhado e seguro, seguido das Matinas às Completas, para se iniciar com a troca de guardas no dia seguinte.

O sol. Ele aninhou-se ali numa poça, ao canto esquerdo da cama onde o homem dormia e sonhava em várias línguas. O sol preferiu permanecer ali, o silêncio de Roma, o sol aquecendo com sua bondade o cão empalhado ao lado da cama, o longo pálio serpenteando sobre os sapatos vermelhos, esperando o fim dos tempos.

O homem deixou o peito fugir do camisolão branco e dourado e as peles formam uma grande bolsa arreada sobre o ventre, mas essa teta não podem vê-la, nem à outra, claro, quando ele sai sob a proteção dos trinta e três botões da bata, sob a estola cor de vinho resplendendo também dourada, e ainda mais a mozeta sobre os ombros miúdos.

Está deitado e não se move. O secretário polonês tinha servido como médico na guerra, e o considerava um irmão. Entrou no quarto e, como autômato, retirou a pistola dourada da mão esquerda do velho amigo pela última vez. Em tentativas anteriores, tinham rolado pelo tabuleiro do quarto derrubando as peças, sob o perigo de se ferirem de morte, com direito a todo o ridículo de uma luta de duas crianças. Mas ao fim o secretário vencia sempre, e depois, ainda extenuados, ainda no chão espelhado da Jerusalém particular, sorriam daquilo como dois velhinhos.

Mas naquela derradeira vez, via como o demônio entrou pelo furinho minúsculo e não admitiria que ele causasse ali dentro prejuízos maiores aqui fora.

Depois cuidou dele como legista devoto e tratou de vestir o amigo com uma estola branca. Contemplou ali as doze pedras preciosas engastadas em ouro, retirou debaixo da cama o báculo, confortou-o ao lado do dono, retirou algumas fotos para chorar sobre elas depois e, usando todas as prerrogativas de secretário-geral, resolveu chamar os outros e ordenar a inviolabilidade do corpo para exames. Depois, anunciou que ali vencera o câncer, a falência da carne, como era de se esperar.

A outra vez que viu o amigo foi para colocar a mitra costurada a pontos de ouro sobre o ataúde de carvalho e bdélio, à cruz de ônix. Depois sentou-se e com todos os outros orou vários dias ao lado do caixão. Foi quando notou as pontas da mitra insistirem em se dobrar, recusando o céu da catedral, mas ficou calado quanto a este detalhe também.


*Conto reproduzido de http://www.candido.bpp.pr.gov.br

sirocha

Sidney Rocha nasceu em 1965, em Juazeiro do Norte (CE), e mora no Recife (PE). É contista e romancista e já faturou prêmios como o Jabuti e o Osman Lins

 

 

 


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