CONTO

Niterói*



O casal se escorava na pequena motocicleta num gostoso amasso. Se abraçavam e se beijavam com gosto. Era uma cena tesuda, daquelas de deixar qualquer um em ponto de bala. Aquele terreno baldio e a imensa sombra da mangueira alcovitavam. Eram indicativos de um final tórrido. As mãos hábeis e bobas do rapaz tiveram que dar um tempinho para afrouxar o cinto e abaixar as calças. Ela estava ansiosa e ia aguardar desejosa. Mas ele começou a ter problemas. Queria tirar as calças sem tirar os sapatos e uma das bocas estreitas da calça emperrou no seu pisante 44. Se emputeceu com isso. Ela começou a achar graça e sentiu o tesão batendo as asas. Entrou em cena uma algazarra de moleques que os observavam de longe. Eles perceberam que eram observados e o resultado mais óbvio foi... foi... não foi, melhor dizendo. Motivo de sobra para que a raiva dele aumentasse, agora já sem a calça, só de cueca, com sapato e meia. Estava mesmo ridículo e ela não conseguia conter o riso. Riu mais ainda e com vontade, quando percebeu que em sua cueca, na parte da frente, estava escrito “toca do sucuri”. Ela rindo e ele parado defronte a ela, que nem um dois de paus. Puto da vida. Ela parou de rir e se recompôs. Disse-lhe em tom amigável: 

-Coloque a calça, vamos embora. Não precisa ficar tão puto.

Desencostou-se da moto para que ele subisse após vestir a calça, mas ele, na sua raiva surda e absurda, apenas dobrou a calça e colocou-a sobre o banco, subindo em seguida. Emitia grunhidos ininteligíveis e ela achou melhor nem dizer nada. Ele ligou a moto e ela subiu em seguida. Saíram. Ele uma arara e agora ela também já dava sinais de que não estava nem um pouquinho satisfeita em participar daquela cena vexaminosa. Cruzavam com carros, pedestres, ciclistas e nem todos reparavam no extravagante figurino do motociclista, apesar de não ser todo dia que a gente vê um homem de cueca pilotando uma motocicleta, ainda mais se estiver também com sapatos e meias. Ele virou numa rua mais movimentada e ela conseguiu se desvencilhar dele. Disse:

-Pare ali naquela próxima esquina, que eu vou na casa da Emily. Ela mora naquela casa azul clarinho e preciso conversar com ela. Depois eu te ligo.

Ele parou e não fez a menor questão de se despedir. Acelerou a moto com força e fez um grande barulho. Nessa hora, passou um ônibus cheio de estudantes e um deles percebeu o motociclista de cueca e mostrou-o aos demais. Foi a maior farra. Aquela bizarra cena era tudo que os estudantes precisavam para se animar. Isso,  logicamente, deixou-o ainda com mais raiva. Preferiu sair daquela rua movimentada e fugir dos jovens colegiais. Estava caçando encrenca, mas não ia querer um ônibus. Ele não raciocinava exatamente nesses termos, porém, indiretamente, suas ações davam toda a pinta de que ele queria descontar sua ira em alguém, um alguém que não gostasse de topar na rua com um motociclista trafegando de cueca. Usar ou não capacete, àquela altura dos acontecimentos, era um detalhe insignificante. Não lhe passava pela cabeça que poderia ser abordado por policiais, uma vez que estava sem capacete. Seguia retilíneo e ridículo, encuecado. Com sapatos e meias. E com sua raiva. Recebia olhares curiosos de gente que passava nos carros, mas ninguém ousava encarar, já que ele soltava chispas pelos seus belos olhos negros. Era curioso, reparava: todos que o viam parecia que lhe devotavam o maior respeito e não ousavam expressar qualquer espécie de reprovação ou indignação para com aquele seu estado que, até certo ponto, era um atentado ao pudor.  Não chegava a ser algo assim libidinoso, já que sua cueca não era tão sumária, mas qualquer pessoa em sã consciência há de convir que não é todo dia que a gente se depara com esse tipo de cena que, conforme a cabeça de cada um, pode ou não ser aviltante.

Nem toda a raiva do mundo dura pra sempre e lá se iam uns dez minutos que ele trafegava naquele estado exibicionista. Questionava porque as mulheres nunca se incomodam de adiar uma transa. Seu ódio era agora contra essa postura feminina. Mas estava passando. Ele não era uma pessoa tão raivosa assim. Era até um sujeito de boa índole, embora, quando mais jovem, tivera inúmeras crises de raiva incontroláveis. Pensava também nisso e começava a concordar que não estava fazendo um papel nada bonito. Estava a um passo de se render ao bom senso, envolto nesses pensamentos. Preocupava-se e tentava imaginar como faria para parar a moto, descer e vestir-se, já que estava numa via pública. Foi aí que aconteceu o que ele, bem no início dessa ridícula cena, desejara.  Alguém se desagradou com o fato de ele estar transitando assim livremente de cueca, sapato e meia. Um sujeito gordo, barrigudo e mulato, numa bicicleta motorizada daquelas bem de antigamente, emparelhou com ele e começou a olhá-lo com raiva.

A raiva dele voltou com força total e foi canalizada contra o mulato. Eles estavam lado a lado e compunham uma cena estapafúrdia. Poderiam parar a qualquer momento e rolar no asfalto numa briga estúpida. E teriam feito isso, provavelmente, mas aconteceu que o mulato sacou da cintura um velho trinta e oito, arma contemporânea do seu veículo e apontou-o ao motociclista. O motoqueiro de cueca empalideceu e sua raiva cedeu lugar a um medo estupendo. Acelerou fundo a motocicleta para fugir do outro. Teve início uma bizarra perseguição. Motoristas, passageiros e transeuntes não entendiam nada ao ver uma bicicleta motorizada perseguindo uma motocicleta. Apesar de mais potente, a moto não conseguia se distanciar muito do perseguidor. O motoqueiro de cueca entrou por uma rua estreita de menos movimento, acreditando que assim conseguiria despistar seu desafeto. 

Era uma rua de um bairro de classe média baixa e qual não foi o drama do motoqueiro, ao perceber que era uma rua sem saída. A casa do final da rua era uma construção abandonada e ele se viu forçado a descer da moto e correr para dentro da velha construção. O mulato da bicicleta motorizada fez o mesmo, com o revólver em punho. Ali dentro daquela casa inacabada começou um jogo de gato e rato, uma brincadeira de esconde-esconde, que poderia terminar em morte. Seria mais um caso de violência a figurar no noticiário cotidiano. A construção era ampla, com vários cômodos, o que favorecia um belo suspense que, no entanto, destoava com as características dos personagens, que seria coisa mais típica de um filme brasileiro de má qualidade.

Nada como o tempo para aplacar a fúria humana. O fugitivo, enquanto tentava livrar sua pele, imaginava se não seria possível resolver aquela situação amigavelmente. Quem sabe se ele pedisse desculpas por ter transitado de cueca na moto. Talvez o outro pudesse até aceitar o pedido e tudo ficaria bem. Mas, e se não fosse assim¿ Já o perseguidor, com sua volumosa barriga, começava a se cansar e também lhe passava pela cabeça se valeria mesmo a pena fazer o que havia pensado inicialmente. Ele também não era uma pessoa de todo má. Tinha lá seus momentos de baixaria, normalmente, quando bebia. Cero que estava meio chumbado, mas a correria e a adrenalina haviam contemporizado o efeito do álcool na sua cabeça. E foi exatamente num momento em que os dois eram invadidos por esses pensamentos pacificadores que aconteceu um desfecho muitíssimo mais para o inacreditável do que para o violento. Algo por demais imprevisível. O motociclista, que estava escondido num dos cômodos, sentiu a aproximação de seu oponente, criou coragem e bradou, mostrando-se de corpo inteiro, após sair de seu esconderijo:

-Chega, pelo amor de Deus. Não me mate, não atire... Eu quero te pedir desculpas. Eu estava errado...

Dizia isso olhando fixamente nos olhos do outro, já que estava bem próximo. Continuou:

-Estou arrependido de ter andado esse tempo todo de cueca na moto. Foi um momento de raiva incontrolável que eu senti e que me levou a fazer isso. Posso até te explicar com mais calma o que foi que aconteceu e que me levou a agir dessa maneira. Meu nome é Marini Niterói...

Eles já estavam frente a frente e a declaração pacificadora de Marini caíra como um brinco, mandando a raiva do mulato rotundo pra bem longe. Quando ele ouviu o cara da cueca dizer que seu nome era Marini Niterói, abriu um generoso sorriso mostrando seus belos dentes e trocou as bolas. Abaixou-se e depositou o revólver no chão. Levantou-se tirando do bolso a carteira e, dela, a identidade. Exibiu-a ao seu ex-inimigo. Mostrou o espaço na cédula de identidade onde se registra a naturalidade da pessoa e disse, aproximando-se, estendendo e já apertando a mão do outro e em seguida abraçando-o efusivamente, para depois se afastar um pouquinho e ter a oportunidade de dizer-lhe olhos nos olhos:

-Muito prazer, seu Marini. Eu também sou de Niterói.

 

*Reproduzido do livro "Motel Sorriso" (2002, edição do autor)

loro

Lorenzo Falcão é jornalista, escritor e poeta, "fazedor" do Tyrannus Melancholicus

 


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