CONTO

Genealogia*



Levante-se, menina. Saia dessa fossa, desse buraco em que você se deixou enfiar. Porque não adianta dizer que a culpa é toda sua, como se não houvesse um mundo que lhe empurra coisas garganta abaixo. Você foi jogada nesse buraco. Você poderia ter resistido, isso é outra história. Só que quando você viu o que estava acontecendo, você se dirigiu para a entrada da fossa e ficou ali, imóvel, deixando cair algumas lágrimas e fingindo não saber o que ia acontecer. Então eles vieram e empurraram você, como é natural, rindo às gargalhadas da sua impotência. Pois bem, levante-se e ande, ainda que quem ordene não seja Ele. Ele não está nem aí. Ele está no meio de nós. Não de você apenas. Você não vê porque está escuro, muito escuro. Fale. O que você tem a dizer começa na sua infância e vai até um segundo atrás, que poderia ter sido o último para você, mas não foi. Só não foi porque você chegou à conclusão de que o remate previsto em acessos assim, de agonia e desespero, típicos de certas mulheres (e você é uma delas, claro) faria de você a vítima que você não quer ser. Você jogou fora os calmantes e os sedativos desde que assistiu àquela peça em que as mulheres uivavam. Eram como feras encarceradas, loucas varridas, para além do bem e do mal. Você não quer se liberar de nada, nem encontrar explicações para sua natureza. Você não faz parte da natureza. Aquelas mulheres, que você não consegue esquecer, berravam porque estavam condenadas. E você que não viu seu bebê sendo jogado de uma muralha pelo inimigo, que não perdeu seu companheiro, nem foi violada, que vive sua vida resguardada e protegida das guerras e da miséria, ainda assim você poderia (e talvez quisesse) encarnar o papel milenar. Com crises existenciais (que eles chamarão de histéricas), fortes dores no ventre e na cabeça, você representaria a clássica cena final e seria enterrada com o rótulo consagrado: coitada! Mas você quer dizer não ao desdobramento natural das coisas. Abrir a boca e mostrar seus dentes, como as mulheres desmioladas anteriores a Cristo. Sufocada debaixo dos lençóis, você se pergunta o que é preciso ser dito: que as coisas têm que sair do lugar. Que as coisas precisam sempre sair do lugar. Coloque a cabeça para fora e respire, depois de enxergar sua situação, presa num buraco que a areia cobriu e que de um momento para o outro se tornou buraco novamente. O bicho bota a metade do corpo para fora da toca e vira a cabeça de um lado para o outro, espreitando. Mas na dúvida sobre se deve sair ou não, esconde-se de novo para pensar. É justamente enquanto você pensa que as coisas acontecem. Você então vai achar que não faz diferença o que quer que você faça. Que a sua voz, ensaiada diante do espelho para soar coerente e sólida, só faz lembrar uma ambigüidade irremediável. É aí que você sempre se perde. Como se o jogo estivesse decidido de antemão. Como se você não captasse de uma maneira eficaz quais seriam as regras que evitariam aquela sensação, seja qual for o resultado, de ter sido vencida. Não vá ao cinema. Até o dia de hoje (quando por motivos físicos e psicológicos insondáveis você não conseguiu ir adiante) você resolveu quase todos os seus problemas existenciais (vide crises histéricas) indo ao cinema. Você nunca precisou de terapia. Você nunca tentou arranjar uma causa para seu sofrimento. Mas hoje você vai olhar para trás, mesmo vislumbrando que isso pode ser muito arriscado. Você olha para o início de tudo, quando foi parida por uma mulher: a mulher que ora você finge não ver, ora odeia, mas que lhe serve na maior parte do tempo de espelho, de quem você é imagem e semelhança. Ela é o espelho da bruxa. Aquela puta. Você se esforça em pensar que ela é a culpada e que é melhor odiá-la do que odiar a si mesma. Você a odeia por estar prostrada nesta cama como veio ao mundo. Você não sai do lugar. Não saímos do lugar. E a sua incompreensão em relação a ela chega ao máximo quando ela tenta lhe oferecer ajuda. É uma espécie de deformação do olhar que faz você ver tudo o que ela faz como se fosse o negativo de uma foto. Porém, você confia na deformação para mudar alguma coisa, qualquer coisa. Ou melhor, para mudar a ordem das coisas. Só que dando um passo atrás você começa a achar que antes de tudo você quer abalar a ordem dela, como se no mundo vivessem apenas duas mulheres e elas estivessem em guerra. Você nunca quis a guerra. Você quer ir além dela, dessa mulher. Mas retornam como espectros velhas discussões, cenas de vocês duas engalfinhadas, se esgoelando por algum motivo que você agora tenta lembrar: um dia você descobre horrorizada que ela é capaz de mentir para você. Ela diz que tem 35 anos e é feliz. Sorri. Você conta os anos e a cifra não bate. Você diz isso a ela entre uma colherada e outra de sopa durante o jantar, como quem não quer nada. E ela olha para você sem entender e depois sorri mais uma vez, feliz com a vida que Deus lhe deu. Repete: 35 anos. A diferença entre 35 e 40 anos cresce proporcionalmente à importância que você supõe que aquela cifra tenha para ela. Para você esses números são como as contas de um colar que se arrebenta. Você fica muda, você perde o chão. Ela mente. Ela não é feliz. Uma mulher aos quarenta é o que resta de uma mulher. Você se lembra de ter ouvido essa frase, por mais absurda que ela soe agora. Sua mãe já tem quase sessenta anos. E você? Um terço de vida se passou para você, dois terços para ela. Você a vê num barco, escondendo o corpo por trás de um pano florido, dizendo que detesta água fria, enquanto as amigas se despem com naturalidade e mergulham animadas no mar. Nesse momento você deseja ser sua cúmplice e saber por que e até onde o olhar dos outros a fere. Agora você sente que está pronta para ser sua cúmplice, mas isso é exasperante. Suas pernas se parecem cada vez mais com as dela. Sob os lençóis você consegue esconder suas formas para que as comparações se dissolvam. Você se movimenta vagarosa como uma cobra, deslizando pela cama, exibindo uma sensualidade da qual você a julga incapaz. Suas pernas são perfeitamente desenhadas, sua pele é macia como uma seda, sua bunda volta a ser como a de uma garota. Ela está cada vez mais distante. Você se convence: não há nada em comum entre nós, além do jeito ansioso de mexer as mãos e o nariz muito reto. Mas tomada de uma curiosidade pelo seu próprio corpo, você se descobre. Você está cada dia mais perto dela, mas vocês não são a mesma pessoa. À espera de um sinal, você está atenta aos passos no corredor. Mas você está certa de que ela não vai se entregar por enquanto. Vocês já conversaram e você se mostrou decidida. Quando ela disse a você que achava absurdos e insuportáveis os seus questionamentos, você simplesmente saiu da mesa e foi tomar um banho, com despeito. Grite seu nome e peça ajuda, se é o que você precisa. Não é isso exatamente. Você precisa ir adiante sem ela, porque você sente que alguma hora seus destinos se separaram. Você se esforça para detalhar todos os traços que a tornam diferente dela. E como se a vida consistisse numa série indefinida de encruzilhadas que vão se desfazendo à medida que se caminha, você vai enxergando os momentos em que suas escolhas a afastaram dela. Você se sente como se esta encruzilhada fosse a última. Desta você não conseguirá sair, seja espelhando-se nela ou partindo o espelho. Levantese, menina. Veja como este quarto é mínimo, como estas paredes são ilusórias. Você não está protegida. O barulho dos carros e dos ônibus atinge seus ouvidos mesmo debaixo dos lençóis. Você tem contas a pagar. Há pessoas que dependem de você. Porque o mundo é feito de pequenos gestos, ainda que os pequenos gestos não façam história. Você vai sair e falar com um vizinho, comprar o jornal e dar uma opinião sobre a mais recente pesquisa científica. Ao lembrar do jornal de ontem, você se esconde de novo sob os lençóis. Fraca! Você se pergunta o que há para fazer, além de esperar que um disco voador caia sobre nossas cabeças. Você acredita nas ficções que lhe contam. E em vez de se sentir enriquecida pelo conhecimento que a experiência lhe traz, você se acha cada vez mais inapta para enfrentar com dignidade as pessoas que andam pelas ruas. Você não anda mais ereta. Grite pela janela. Interpele os passantes. Exponha-se. Você sente todo o peso da claustrofobia, mas não consegue se mexer. Atingir algum objetivo, é disso que se trata. Ainda que os objetivos pareçam insignificantes. Os pequenos sonhos se transformam em realizações. Você não acredita nisso, pois você se apega às palavras, efêmeras. Então você memoriza as frases que as pessoas dizem por aí e depois as repete esperando que elas se reconheçam nas suas palavras. E o mesmo malentendido ocorre centenas de vezes. Até que você se cala e se encolhe. Mas ao se deitar há uma cama com lençóis à sua espera. Entre você e a noite há uma porta e uma janela. Levante-se e vá ver a criança que se encolhe no chão da rua. Porque agora está chovendo lá fora e você chora dentro do seu quarto como se a chuva fosse mais um sinal de que o mundo é mesmo tristíssimo. A chuva é chuva, não é um símbolo. Há coisas reais no mundo. Há coisas tão reais como um acidente de carro, como uma doença inesperada, como uma facada no meio da noite, como um estupro. Você pediu conselhos a um padre, um homem obeso que escondia meninos imberbes debaixo da batina. Ele explicou a você, enquanto mastigava uma bolacha de maizena, que na vida há sempre injustiças, mas que elas serão resolvidas de uma forma ou de outra, porque é assim que Ele quer. O padre obeso foi o primeiro a empurrar você para dentro do buraco dando risadas. Você saiu persuadida daquele cubículo atrás do altar e rezou cerimoniosamente dez ave-marias. Ele indicou a você algumas leituras do livro sagrado, mas você não conseguiu alcançar o significado secreto das parábolas. Talvez você nunca chegue a entender como é mesmo que se separa o joio do trigo. Ainda assim você acompanhou o homem gordo nas suas aulas de catecismo e cantou com as velhinhas durante a missa. Até que elas chamaram você de herege e a expulsaram para sempre quando você insinuou que havia algo de estranho acontecendo entre o comedor de bolachas e os coroinhas. Terminou-se assim sua saga cristã. A partir de então você optou definitivamente pelo paganismo. Aos cantos sagrados você prefere os ritos diabólicos. Sua mãe não cansa de dizer que você dorme enroscada, pronta para dar o bote. O ar angelical que ainda transparece no seu rosto é só mais uma prova de que por você ninguém deve pôr a mão no fogo. Você descende daquelas que morreram queimadas. E por isso você se retorce na cama ardendo de angústia e de medo. Levante-se. Porque o que paralisa você nunca vai desaparecer. Conte até três, como se os números fossem mãos que se estendem até você. Você não é auto-suficiente. Você não é Aquiles que se ergue como um leão. Só se assegurando da existência dos outros você deixará de se arrastar. Por isso você terá filhos. Porque você precisa desse amor, como ela caminhando baratinada pelo corredor precisa do seu. Você quer encontrar respostas cósmicas, mas sua orelha está colada na parede para ver se ela vai se decidir a entrar. Seu drama é a pessoa do lado, seu vizinho. Aquele ser muito próximo e ao mesmo tempo desconhecido. Teorias céticas não lhe trazem alívio. O mundo externo existe, você é incapaz de duvidar disso. O problema é que ele está se metamorfoseando em imagens numa tela diante dos seus olhos. Sua ação não pode se restringir a apertar botões. Você quer sentir a respiração de alguém, sentir o coração pulsando, a carne se mexendo, os olhos piscando. Você quer segurar o corpo de alguém nos braços. Você quer que alguém segure seu corpo. Abrace, afague, aconchegue seu corpo. Você não precisa esperar que o sapo se transforme em príncipe. Nem precisa jogar o sapo na parede. O movimento vale mais que o ideal. Por isso pouco importa o buraco infinitamente fundo. E as gargalhadas cínicas. Não se trata de quem ri por último nem de quem ri melhor. Você quer o riso sincero. A sinceridade é a corda bamba pela qual você caminha pé ante pé. Lá embaixo eles observam você ansiosos. Você vai conseguir. Você dá o primeiro passo sobre a corda, oscilante. Você ouve uma música sem saber exatamente de onde vem. Uma música que você conhece desde pequena, que alguém já cantou para você, que se ouve cantar nas ruas quando menos se espera, que toca no rádio. Se você soubesse de onde vem, você iria até lá? Por trás desses sons há uma pessoa ou quem sabe mais de uma. Uma festa. Amigos que se encontram e festejam. Por que motivo? Ou talvez uma pessoa sozinha dentro de um quarto que não consegue sair e então coloca uma música para passar o tempo. E essa música sai pelo buraco da fechadura, pelas fendas da porta e da janela. Essa música chega até você e até ela. Chega até seus vizinhos. Até as pessoas que passam por acaso pela rua. Você se lembra daquela coitada que depois de perder tudo sai dançando ao som de uma música de carnaval. É uma forma de se salvar. Você se senta na beirada da cama e olha para seus pés. Você pisa no chão, e anda. 

 

*Reproduzido de https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/

paloma

Paloma Vidal é escritora, crítica e tradutora. Nasceu na Argentina, mas mora no Brasil desde os dois anos de idade

 

 


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