CONTO

Selfie



Enquanto ouço sem prestar atenção um longo depoimento sobre a experiência de ser pai outra vez, deixo-me levar pela aterradora visão de um crânio. Os cabelos, embora longos, produzem o mesmo efeito de uma armação de arame cuja trama é larga demais para esconder qualquer coisa embaixo. À luz que entra pela janela, os ossos que formam a cabeça de Frederico compõem, com o vaso de flores e o telefone celular sobre a mesa, um inesperado e assustador arranjo de memento mori. 

É a segunda vez que nos encontramos sem que o motivo seja a nossa filha. Uma troca de mensagens não era o suficiente. Ele precisava de um encontro, escreveu, uma conversa na qual pudesse medir o tamanho do problema que tinha de enfrentar. Não pelo que eu diria, acrescentou, mas pelo meu silêncio. Você é boa de silêncios, pôs numa linha à parte. 

Ele se demora no elogio à prole. Que os meninos usam qualquer aparelho eletrônico com intimidade, que possuem uma habilidade verbal inacreditável, e são pessoas (três e cinco anos) cheias de pensamentos próprios. Verdade que ele sempre foi bom pai. Agiu de acordo ao ser empurrado para a assustadora responsabilidade de pôr no mundo um filho. Mas agora é diferente. Está tomado de perplexidade. Olha para as crianças e vê sábios de um templo que logo será derrubado. Uma catástrofe que ele antecipa e sabe que não pode controlar. Estica demais o assunto, evitando chegar, decerto, ao ponto que realmente importa. 

Não tínhamos o costume de falar de nossos novos cônjuges a não ser de passagem, rindo de alguma cena patética da vida a dois. Se o nosso casamento tinha fracassado, os outros também fracassariam — era o que ficava no ar, numa última fidelidade que prometíamos um ao outro. Eu tinha dois fracassos. Estaria Frederico no terceiro? No caso dele era pior. Ele não conseguia estar com uma mulher sem formar uma família. Nossa filha o odiava por isso. A mim também ela odiava, mas pelas razões tradicionais que filhas odeiam mães. 

Ele contava com o meu silêncio, escreveu, apontando como qualidade o que fora um defeito monstruoso noutros tempos. O meu cetro imperial, Frederico dizia, no auge da revolta, quando queria um nome, um motivo, uma explicação. Eu tinha um nome, e um caderno de motivos, que nunca revelaria. Precisava aguentar a crise, só isso, esperar aquele solo ininterrupto de bateria virar o som de outro instrumento, um cello, um piano com longos intervalos entre as notas. O silêncio é que nos salvou dos ferimentos graves, eu poderia dizer agora, e me calo. Gosto de pensar que tenho um cetro. 

A garçonete de avental preto vem à mesa. Prometi a mim mesma não beber álcool. Da outra vez, quando ele precisou do meu conselho sobre a troca de editora, acabamos num hotel. A conversa, é verdade, tinha sido melhor, nada desse pasmo com a própria capacidade afetiva. Uma prova, afinal, do climatério que avançou sobre ele do mesmo modo que avança sobre mim, amarrotando as últimas folhas de um suposto papel que tínhamos no mundo. Qualquer papel. 

Um expresso duplo e uma água mineral, peço. Frederico hesita. Pela primeira vez parece interessar-se pelo que acontece à sua volta, pelo instante em que vive. 

Se importa se eu beber? 

Qualquer coisa que faça você trocar de assunto, respondo, provocativa. 

Frederico faz um muxoxo de estudante repreendido. A garçonete recita a carta de cervejas. Quando ele não identifica uma das marcas, ela repete a lista inteira, erguendo a voz, como a dirigir-se a um avô que não escuta direito. Tem vinte e três anos, vinte e cinco no máximo. Aperto os olhos e leio um nome na gargantilha. Jade. Uma pedra. Quem a batizou esperava muito dessa menina. Não vai durar no emprego, é voluntariosa demais para o cargo. Quer ser gerente, mas vai ser atropelada logo, logo pelo colega, que sorri mais que ela e, ainda por cima, é homem. 

Frederico pergunta que marca ela sugere, pondo na fala um tom suave de flerte. Não consegue evitar, é uma segunda natureza nele. Talvez a primeira. Sempre gostou de mulheres, sabe conversar com elas. O que piora a sua culpa em relação à filha, sua única filha, com quem não se entende. 

Jade aconselha a cerveja mais cara do cardápio. Bingo. Ele não percebe, ou finge não perceber, a simetria que se estabelece no par. O coroa rico e a moça ambiciosa. Ela passa a elogiar o gosto de Frederico, como se a escolha tivesse partido dele. Um cara de meia idade, endinheirado, avalia, a um passo da cremação. Dificilmente enxergará, diante dela, duas ovelhas negras disfarçadas sob o talco da idade. Jamais atribuirá a origem de nossas rugas a tinas de vodka e a uns bons punhados de cocaína. A noitadas a três. Em grupo. Com pessoas do mesmo sexo. Não adivinhará tampouco a ficha corrida das traições, das louças quebradas e das portas batendo com violência. Para todos os efeitos, somos o equivalente a duas corujas aboletadas num canto, um pouco feias, mas dignas às vésperas da extinção. 

Quando ela se vai, Frederico massageia as têmporas. As pálpebras, com o tempo, desenharam uma tristeza falsa em seu semblante. Ele as mantém baixas, concentrado nos próprios punhos, e quando me encara um lume de sagacidade atravessa o seu rosto, me puxando para outro lugar. Uma fogueirinha, um fósforo aceso no fundo de seus olhos bastam: já estamos em outro lugar. 

Num movimento rápido ele estica os braços sobre a mesa e segura as minhas mãos, que se congelam sem retribuir, enquanto ele insiste em mantê-las firmes, pressionando-as e sacudindo-as, como se quisesse me tirar de um sonho. 

Estou ficando cego, diz. 

E começa a medir o meu silêncio. 

Um riso irrompe no outro lado da cafeteria. Vozes se elevam sem controle, numa reação que teriam se um pé de vento ameaçasse estragar a cena de um piquenique. Todas as conversas parecem ter subido o tom. Ou foi só a nossa que se enforcou em uma frase. Frederico abranda a força com que me continha e se afasta, retomando a postura na cadeira. Sinto as mãos vazias num primeiro instante, depois a impressão de ter entre elas um objeto incorpóreo, pulsante e levemente frio. A descrição que eu faria ao segurar, se fosse possível, uma nuvem. 

Ele desvia o olhar e estala a língua, como a reconhecer a inutilidade de tudo. Tenho palavras para dizer, ao contrário do que ele imagina. Um palavrão, para começar. Depois perguntas sobre o diagnóstico, a tecnologia existente, os tratamentos em outros países. Mas não foi para isso que Frederico me chamou. Os joelhos dele tremulam de impaciência, sacudindo o piso de madeira até incluir-me no território instável onde a vida foi parar. Ainda assim, posso marcar com um alfinete o centro do seu desespero. 

Tem de dar um jeito de continuar escrevendo, digo. 

É só no que eu penso, ele concorda. 

É no que deve pensar, afirmo, e sinto o chão alisar-se sob os meus pés. 

Não é preciso dizer mais nada. Os minutos à frente irão retomar as rédeas e ditar o que deve ser feito. A normalidade será reencontrada, luta para isso. Lutará até no leito de um hospital — ou no outro. Mas não é ela, penso, sentindo um alívio de quem escapou por pouco. Não é a morte, ainda. 

A garçonete traz os pedidos. Reacomoda o vaso de flores perto da janela enquanto Frederico recolhe o telefone. Ela inclina o corpo sobre a mesa, alterando sutilmente a luz e o calor do espaço que ocupamos. Dispõe primeiro a xícara, depois o copo de cerveja e o líquido dentro. Método. Ordem. Leve traço de lavanda. Quando se vai, Frederico a segue com o olhar, apreciando, como se movido por uma força maior, o balanço de quando ela caminha. Ao voltar-se, suspira e, sem dizer, inclui mais esta às coisas que vão se perder na neblina. Então começa a falar de Dora. Não tenta escondê-la, como fazia antes, na tentativa de separar os mundos e pôr-se no centro de uma rivalidade que, admito, existia. 

A xícara à minha frente permanece intocada. O motivo que me levou a escolher o café se apequena, envergonhado por sua pretensão. Eu não cansava de fazer esse teste. Tinha de saber, a cada vez, a minha importância para Frederico. Vinha preparada para um escrutínio devastador. Trocara de vestido três vezes e gastara meia hora para prender o cabelo nesse coque frouxo, falsamente desajeitado, soltando duas mechas no alto da cabeça, uma de cada lado, que se encontravam no queixo para emoldurar o rosto, e afiná-lo, num dos infinitos truques para diminuir os estragos da idade e combinar com os cosméticos caros, feitos para dar a impressão de não se ter aplicado maquiagem nenhuma. Tudo para avaliar-me aos olhos de Frederico, encontrar no discreto tremor de suas pupilas uma sentença de vida. 

A estabilidade é uma boa coisa, Frederico prossegue, referindo-se ao casamento com Dora, à serenidade com que ela recebeu a notícia e o quanto isso os aproximou. No nosso tempo era diferente, diz, como se ao mencionar as vantagens de agora me devesse um crédito por outra espécie de felicidade. Extremada. Selvagem. Instável. Em lugar de ironia, contudo, há um tom de arrependimento em sua voz. 

É uma despedida, compreendo. Uma nova separação. 

Tenho de me acostumar, penso, a viver num tipo de exílio. Sem aquele olhar, serei só o resultado de uma primeira impressão, da avaliação rápida que se faz de alguém sentado em uma cafeteria onde circulam Jades cada vez mais jovens. Por enquanto, trato de preencher as pausas da fala de Frederico. Peço que me mostre a foto dos filhos e ele busca um álbum no telefone, voltando à derramar-se de afeto. 

A luz atenuou a fúria de antes. No lugar de traços firmes, uma nesga dourada reflete partículas suspensas entre mim e Frederico. Aqui começam, penso, nossas bodas de pó. E mantenho a voz viva, tagarela, como a de uma moça que entretém as visitas na sala, sabendo que só quando estiver sozinha, no fundo da lavanderia, onde um poço de luz se abre sem janelas para os vizinhos, poderá dizer de verdade o que sente.

lunardi

A catarinense Adriana Lunardi é contista, romancista e roteirista. Segundo Deonísio da Silva, é a nossa Tchekhova


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