CRÔNICA

Calças caindo



Andar com as calças caindo. De uns tempos pra hoje isso tem se mostrado algo assim meio modismo. No reino masculino, claro. Já que a mulherada, se assim o fizer, terá um motivo a mais para ser vitimada pelo estupro.

Não posso afirmar, mas essa moda bem que poderia resultar de uma articulação das marcas de cuecas. É. O que a indústria da moda é capaz de articular pra se dar bem é aquilo que podemos rotular como algo que vai além do que sonha a nossa vã filosofia.

E vamos para o território particular, quando o autor destas humildes palavras, passa a narrar experiências próprias que envolvem as "calças caindo". 

O problema todo, no meu caso pessoal, é que odeio os cintos. Com eles, passo a me sentir assim meio centauro, aquela figura mitológica homem/cavalo. É por que considero um baita dum desconforto aquela coisa de couro ou outro material que aperta a barriga da gente. Que nem aquele arreio (ou seria barrigueira?) com o qual a gente aperta a barriga do cavalo pra montar nele.

Não gosto de praticar o verbo encilhar. Nem nas montarias e, em especial, no meu próprio corpo nesse sentido. E também desaprovo toda e qualquer espécie de intervenção na anatomia dos animais, desde que ela venha a prejudicar o bem estar desse ser vivente.

Embora ainda não seja eu uma pessoa vegetariana e muito menos vegana, deparar-me com qualquer tipo de sofrimento animal, não é coisa que passa batida diante de meus olhos.

Mas essa minha postura, de odiar os cintos, é um troço que me faz ir... e voltar. Já que as calças caindo, que requerem o constante hábito de puxá-las para cima, são um desconforto.

Outro lance que joga lenha na fogueira da minha ira contra os cintos é algo que embuti no meu raciocínio ao longo da vida. Ora, cintos, parecem, ao meu ver, pedir que as camisas sejam colocadas por dentro das calças. Taí outro hábito que não combina comigo: camisa por dentro da calça. 

Pior do que isso, e em larguíssima escala, vem a porcaria da gravata. Eita treco que me estorva no vestuário. Gravata, entendo eu, é coisa de suicida, daqueles que têm opção pelo enforcamento. 

E o agravante, no caso das gravatas, é viver em Cuiabá. Aquele calor brabo no lombo, com nossos corpos pedindo espaços arejantes, e ter que apertar aquela porra de tecido no entorno do pescoço. Deus me livre. E me perdoe.

Como sou relaxado em relação ao vestuário, apesar de sempre me achar bonito e bem vestido, já passei por várias experiências confrontantes com as "calças caindo". Tudo porque me esqueci de sair de casa somente após ajustar minhas adiposidades abdominais com o maldito cinto.

Dobrar o cós da calça, às vezes, pode ser uma solução paliativa para quem sai de casa sem cinto e usando uma calça fora de medida à altura da cintura. Mais de uma vez, quando me despreveni nesse sentido, tive que lançar mão de um barbante para remediar a coisa.

Não sou muito pesquisador quando se trata de cronificar meus textos. Mas, desta feita, procurei o guru google e percebi que estava errado. Pois associava esse estilo calças arriadas ao visual grunge, que pintou no final dos anos 80. Mas não... essa moda é anterior.

Segundo constatei, os rappers, que também inventaram-se nos anos 80, um pouco antes dos grunges, teriam sido os pioneiros nessa moda 'sagger' ou 'sagging'. E há controvérsias em relação ao surgimento dessa moda. Moda que pegou, a princípio nos EUA, e se espalhou pelo mundo, inclusive, com grande aceitação no Brasil.

Uma das lendas em relação à 'sagger' é que ela teria surgido nas prisões americanas, onde aderir ao estilo, significava que o recuperando (é assim que se diz hoje em dia) estaria predisposto a uma relação homossexual. É mentira, dizem, embora a liberdade de usar a roupa do jeito que bem entender e com o significado que quiser, seja um inegável direito a qualquer cidadão. Enjaulado, ou não.

Esse papo de calça caindo entre os presidiários, aliás, tem uma fundamentação mais, digamos, plausível: vem da proibição do uso de cintos em estabelecimentos prisionais, com a finalidade de evitar suicídios e outros atos de violência com essa peça do vestuário.

Eu admito minha simpatia para com a verdade de que o 'sagging' é coisa rapper, já que quando essa turma do hip hop surgiu, as calças criadas pelos estilistas da hora eram muito apertadas para esses artistas urbanos. Então, eles compravam calças com tamanhos acima de seus modelos ideais e estas, naturalmente, ficavam caindo.

Acredito nessa teoria, até porque, os negros, bem mais do que os brancos, eu diria em termos de história da humanidade, sabem o incômodo que é o "aperto" em qualquer parte do corpo. 

Então, né, é isso. E vou fechando o palavreado. Mas não, sem antes, deixar a minha recomendação aos adpetos das "calças caindo". 

É que é preciso estar com o corpinho enxuto e/ou, pelo menos, a cueca tem que estar com a elasticidade em dia, para aqueles que pretendem aderir ao 'sagging'. 

Caso contrário, o panorama traseiro, aquele que a gente não consegue ver pelo retrovisor, mas que os outros percebem, sugere aquele visual "cofrinho". E a coisa piora quando o adepto da calça caindo está assim um pouco acima do peso. 

Nesses casos, aquilo que era um simples cofrinho, corre o risco de ser entendido como banco central...   

cal

foto meramente ilustrativa... não sou eu

 


Voltar  
2 Comentário(s).
Guapo, sua presença sempre bem vinda. É verdade mesmo o que você falou... Na hora de "armar o laço", principalmente pra quem estiver "cursando", o cinto é um "estrovo" só
enviada por: lorenzo    Data: 26/11/2017 13:01:56
Tá lindo o texto, mas antigamente quem andava aqui em Mato Grosso com calça sem cinto era considerado "dgente cagão", por que na pressa de "obrar" o cinto atrapalhava, principalmente criança que gostava de puxa-puxa. Abraços!
enviada por: Guapo    Data: 25/11/2017 21:09:05

Confira também nesta seção:
13.12.17 19h00 » Carioca da gema
11.12.17 17h49 » E pronto*
09.12.17 18h00 » Um coração simples*
07.12.17 20h00 » O livro de areia*
05.12.17 19h00 » Um estranho no cano
03.12.17 18h00 » Marquinhos*
01.12.17 18h44 » Clube Arsenal de Leitura
29.11.17 19h00 » Essa tal cultura mato-grossense
27.11.17 19h00 » As fadas da França*
25.11.17 19h00 » Calças caindo
23.11.17 18h27 » Arroba pontinho com*
21.11.17 18h30 » A Única Briga*
19.11.17 18h00 » Selfie
17.11.17 17h55 » 32 dentes
15.11.17 18h35 » Genealogia*
13.11.17 18h30 » Na soleira*
11.11.17 19h00 » A expedição
09.11.17 19h30 » Niterói*
07.11.17 18h48 » O secretário*
05.11.17 19h00 » Insepultos

Agenda Cultural

  • Em Cartaz:
  • 'Natal Iluminado"
  • Dia: 09 de dezembro
  • Local: Praça Alencastro
  • Informações: no link
Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet