MINICONTOS

Clube Arsenal de Leitura



Minicontos do Clube Arsenal de Leitura – Ciclo 1 – Elvira Vigna


Como foi

 

O Clube Arsenal se reuniu no dia 14/11/17 para discutir o romance “Como se estivéssemos em palimpsesto de putas”, da Vigna, e voltou a se reunir no dia 28/11/17 para ler e discutir minicontos feitos pelos participantes (foram 8 textos), a parte prática do projeto. A proposta para os exercícios foi essa:

-Escrever um miniconto de 500 palavras (variação 300-700) com as seguintes características:

- Narrado em primeira pessoa por uma mulher de meia-idade (~40-60 anos).

- Ambientado em alguma cidade (clima urbano) nos dias atuais, que você conheça, em cenário que conheça (não precisa ser descrito em detalhes, mas pode ser, se quiser)

- Linguagem coloquial, próxima da fala.

- Caso exista diálogo, utilizar aspas, não travessão.

O enredo, os demais personagens, o conflito; tudo é livre. Dica: focar nos relacionamentos, com os/as parceiros/as ou núcleo familiar. Não há restrição formal para o miniconto. Cabem todas as experimentações possíveis: arco narrativo completo, cena isolada, perfil de personagem, fluxo de pensamento, entrevista, relatório, diário, diálogo puro, etc.

 

Os contos

 

Aniversário da senhora

Andreza Pereira


“O sistema está me dizendo que hoje é aniversário da senhora. Parabéns!” Ele me disse olhando para a tela preta com letras brancas, que são as cores do sistema do banco por dentro, enquanto atualizava a minha renda bruta. Os sistemas por dentro têm sempre as mesmas cores e um tipo de letra parecido. Por fora, os bancos têm cores diferentes, logo, marketing, artes que colocam casais jovens num fundo de chave e casa. Por dentro, as entranhas dos bancos devem ser todas parecidas. A entranha do banco disse para o homem que atendeu a senha K32 que hoje era o meu aniversário. Eu agradeci e ele disse que o banco tinha liberado novos limites a partir de hoje.

“É aniversário da Senhora”. Senhora. Afonso. Ele estava no carro me esperando, lendo jornal, fumando. Depois do senhora, ele não me perguntava mais se podia fumar perto ou se eu queria dirigir o nosso carro. Depois que ele parou de perguntar, eu parei de saber qual era o cheiro da barba dele e qual era o cheiro do cigarro. Depois que ele parou de perguntar, eu ia sempre no banco do lado e ele guiando, não precisando mais calçar de novo os saltos depois de estacionar. 

“Novos limites a partir de hoje”. A partir de hoje. 1962.

Naqueles 1962, que recomeçavam a volta hoje, já devia ter gente esperando muito para poder falar com alguém no banco. Gente pegando empréstimo que não cabia na renda bruta. Engraxate na porta pra engraxar os sapatos dos homens que trabalhavam no banco e negavam os empréstimos. Pais para querer genros que trabalhavam engraxados no banco. Ladrão de banco. Guarda de banco. Senha.

“Está me dizendo. Parabéns!”

Quando voltei pro meu lugar no carro, o sol estava gritando na cobertura, que queria amolecer. Três esquinas, sete andares, toalha bordada e números iguais espetados no glacê. Apagaram as luzes, ficou tudo preto escrito de velas brancas: as entranhas parecidas. Quando as luzes voltaram, ele me beijou com a sua boca e a sua barba e eu agradeci.

 

Fora da arca é preciso saber nadar

Ásbel Torres

 

A ventosa no para-brisa facilita o chacoalhar dos bichos de pelúcia, feito penca de banana ao vento da 364. E aqui dentro a gente fica parecendo os habitantes da arca de Noé, com o barbudo dirigindo do meu lado, levando Sem, Cão e Jafé no banco de trás. Só que no nosso caso são Samuel, Bazuca e JF. Bazuca é o cachorro do Samuel, nosso filho. Não é Cão no nome, mas é cão na forma. E a arca está completa: Noé, a esposa, Sem, Cão, Jafé e todos aqueles animais.

Aliás, já parou pra pensar que ninguém nunca diz o nome da esposa do Noé? Ela ficou lá, junto dele, o tempo todo. Enquanto os outros achavam que ele era doido, construindo o Titanic da idade da pedra, ela ficou do lado do cara. E nenhuma alma sabe dizer o nome dela.

Qual o nome dele? Arnaldo? Bernardo? Sei lá. Vai ver é Ronaldo. Hoje em dia todo mundo se chama Ronaldo. Dane-se. A gente se encarou por meio segundo. Mas foi sem maldade. Acho que foi. O Samuel teria ficado lindo com aqueles olhos, só que aí não seria o Samuel. Já pensou que loucura, fugir com um atendente de conveniência no meio do nada? Deixar marido, filho, amigo do filho e cachorro pra trás. Ou levar o Bazuca. Até porque ninguém mais sabe dar ração e limpar o quintal. Ficaria melhor comigo.

Coisa de doida pensar nessas coisas. Ainda bem que a gente não tem tela na testa. Ia ser muito Black Mirror. Quando a gente começou, o Dantas dizia que queria ler meus pensamentos. Hoje em dia ele reclama e diz que não tem telepatia. Isso pra mim é preguiça de fazer o que precisa ser feito. Tipo dobrar as próprias meias. É pra acabar.

Agora faz tempo que a gente saiu da estrada. Estamos perto de casa, mas antes temos que deixar o JF com o pai. Acho que hoje é o dia do pai. Ou a mãe inventou isso porque queria fugir o restinho do feriado com o namorado da vez. “Entra na Fernando Corrêa, Dantas. E vira na segunda depois do viaduto. Sei lá se é pra contar a rua na contramão.”

Tem umas casinhas novas ali. Coisa bonita, parecendo a casa da Barbie. Até no tamanho. Tudo tipo microcondomínio, com o pessoal dividindo um espaço menor que estacionamento de mercado. Deve ter umas dez casas ali. Idênticas. Imagina o saco de sair de casa e olhar tudo igual do lado de fora. A mesma parede branca, a mesma varanda de dois metros quadrados, o mesmo gramado com caminho de concreto furado. Imagina que droga essa vidinha pasteurizada. Parece côntrol cê, côntrol vê. Acho que o pai do JF mora na segunda casa. “Aperta qualquer um, Dantas. Quando alguém atender você se desculpa e pergunta onde mora o pai do guri.”

O nome do pai do guri é Sávio. Uma menina do pilates ficou com ele e disse que foi terrível. Vai ver por isso ele tá solto na pista: por não saber dançar.

Eu tenho uma teoria sobre isso: homens que não dão conta do recado e como seus genes passam pra frente até hoje. Acho que eles têm consciência disso e não esperam a hora certa de fazer gol. Eles se garantem na primeira oportunidade, porque às vezes também pode ser a última. Não tentam entrar pra história genética da humanidade com gol de bicicleta.

Roberto.

O nome do rapaz era Roberto. Tava no crachá, junto com a chave do cadeado da bicicleta. Olhos maravilhosos, mas um baita dum sorriso sem graça. Ainda bem que o Samuel puxou o sorriso do Dantas. Porque guri tem que ter sorriso bonito. Já pensou, fazer igual todo mundo e fugir com um desconhecido só pra ter filhos com olho azul-piscina? Odeio ser igual todo mundo. Nunca ia saber nadar no leite dessa vida pasteurizada.

 

Pedro não está

Marília Bonna

 

Seria Pedro, não Olívia. É um palpite. Olhos de Augusto, riso de Alberto, pés de Caio. Pés de Caio, certamente: vacilantes, subindo a Joaquim Murtinho para me ver. Gostava de caminhar, o Caio. Caminhou para tão longe, nem sei. Não tive mais notícias dele, mas acho que não se casou – gostava muito de partir dos lugares, de estar de saída. Pedro seria assim, eu acho. Quase consigo me enxergar, sonâmbula, sempre esperando Pedro voltar de não sei onde. Pedro voltaria e acharia engraçado meu zelo, sorriria para minha aflição. Noite após noite. Acho que, se houvesse Pedro, eu estaria mais magra, os cabelos mais brancos. Talvez fumasse mais. Pedro entraria pela sala e sorriria, para minha aflição, um sorriso de Alberto.

Alberto ria de tudo, sobretudo da minha aflição. Isso acabava comigo, Alberto rindo. Ele riu quando eu falei que não queria Pedro, duvidou de mim. Disse que me imaginava fazendo Pedro dormir, tão bonita. Era um tempo em que isso bastava para me tirar do sério. Eu não queria Pedro, e Alberto achava engraçado. Foi por isso que ele foi embora, por rir da minha aflição. E foi um pouco por isso que Pedro não veio: porque, eu sinto, teria no rosto aquele sorriso do Alberto, que debocha da gente. Imagino Alberto me olhando agora, da janela de seu apartamento no Jardim das Américas, debochando. Eu aqui, sozinha, na casa mesma da infância, as paredes mofadas, no Porto. Sem Alberto. Sem ninguém para rir dos meus fracassos, da minha felicidade. Sem ninguém para perturbar a minha paz de mulher sem Pedro.

Desde menina, soube que seria Pedro. Acho o nome bonito.  Se houvesse Pedro, definitivamente, ele teria os olhos de Augusto. Os olhos eternos de Augusto. Não me lembro muito de Augusto, mas me lembro de seus olhos: ele me olhava com devoção, do jeito que mais tarde imaginei que Pedro me olharia. Mas Pedro nunca olhou. Nem para mim nem para nada: Pedro não tem olhos.

Há muitos anos, quando eu soube que Augusto ia se casar, perdi a noite de sono, como viria a perder mais tarde por Caio e por Alberto. Por Pedro, nunca. Nunca perdi uma noite de sono por Pedro. Nunca perdi uma noite de festa por Pedro.

Não sei se é bom ou ruim o fato de saber que jamais alguém ligará para minha casa perguntando por Pedro, e que jamais terei de responder que “não, ele não está, eu estou sozinha”.

 

José

Thereza Helena

 

Josemari, corre lá e desliga a panela de pressão pra mim. Quem que viu a chupeta do nenê? Joselina, você já pegou o troco que eu tinha deixado aqui na mesinha? Josenira, passa já pra cá que não quero seo ninguém refestelando até essas horas na rua. Ah, menina. José Junior, larga isso aí, meu filho. Joselânia e Josilene, querem parar, vocês duas!? Mas eu não posso virar as costas um segundo que vocês duas ficam nessa aloitação. Acha pra mim a chupeta do nenê. Josefina, não tá vendo José Junior pegando aquele negócio do chão? Você é a mais velha, tem que me ajudar com seus irmãos. José Junior, não põe esse troço do chão na boca. Se você me engasga seu pai ainda me mata. Josirene, olha o tipo que tá o chão dessa casa, pode tratar de passar uma vassoura aqui, já já. Cadê essa chupeta, meu Deus do céu? Josenilda, olha a cor desse pé, eu fico aqui me matando pra não deixar a meia encardir pra bonitinha aí calçar com o pé sujo. A próxima vez que eu te pegar descalça quem vai lavar é você. Sem a chupeta essa criança não para de chorar? José Junior, larga esse trem sujo aí no chão. Eu já não falei que não é pra ficar pondo troço sujo do chão na boca, guri? Josefina, dá jeito de caçar a chupeta pra essa criança parar de berrar. Essa chupeta que eu não acho. José Júnior, desce já daí que você vai cair. Josefina, a lá seu irmão subindo no mocho. Se ele cair de lá você apanha. Essa chupeta que eu não acho. Essa criança berrando no meu ouvido. José Junior, eu já falei pra você que se você cair e quebrar a perna não tem nem vaga no pronto-socorro pra te engessar. Josefina, amorna lá a água que eu vou dar banho no nenê. Tá boa a água? Lava o cabelinho, mergulha a cabecinha. Shhhhhhh. Paradinho, não me molha, fica, shhhhhh. “Tó, mãe, a chupeta do nenê”.

Não precisa.

Não mais

 

Cano de Escape

Aldi Nestor

 

Esparramado no sofá da sala, segurando uma latinha de cerveja, com os pés em cima da mesinha do centro e ainda com a roupa do trabalho, Armando adormece todas as noites assistindo TV. Mal dá tempo de jantar.

Às vezes, quando o nosso cachorro não adormece em cima da barriga dele, consigo convencê-lo a ir dormir no quarto. Às vezes, não. E às vezes nem me dou o trabalho de tentar. Não me lembro quando foi a última vez em que fizemos amor. Não sei se faz um ano, dois. Talvez faça mais que isso. Também não me lembro de como foi. Se foi à noite, à tarde. Nada. Talvez nem tenha sido amor.

Eu usava calça tamanho 38, Armando, 42, quando nos conhecemos. Tudo começou há uns 25 anos, numa loja de autopeças, lá na Avenida Miguel Sutil, onde trabalhamos até hoje.  Foi no meio do serviço que fomos surpreendidos pelo que acreditávamos ser uma paixão e começamos a namorar.  Namorávamos escondidos dentro da loja, em pleno expediente, no meio do atendimento, entre as prateleiras, os pneus, os canos de escape, os discos de freio, as calotas.

Eu tinha certeza, no início, de que esse trabalho seria por pouco tempo, só até terminar a faculdade de administração e conseguir algo melhor. Mas aí apareceu Armando, o tempo foi passando e eu fui ficando com o trabalho e com ele.  Depois não sei.

É que o encanto do namoro foi quebrado logo na primeira transa. Eu esperava muito mais. Achei Armando precipitado, ansioso, parecia que tinha uma meta a cumprir. Fora da cama dava pra levar. Mais ou menos bonito, engraçado e sabia fazer comida. E eu não sei se algum homem consegue ser mais que isso. No começo foi estranho, mas acabei descobrindo com o tempo que sexo é uma coisa fácil de se resolver. Fazer comida é mais difícil.

A autopeças é bem próxima da minha casa, 10 minutos de caminhada, pouco mais de um quarteirão de distância e tudo na mesma calçada. É cômodo trabalhar lá.  Eu morava com minha mãe no começo, depois ela faleceu e eu fiquei morando na casa, e continuo até hoje, com Armando. Não fizemos nenhuma reforma. Tudo ao redor cresceu. Encheu-se de prédios.

Nossa casa se enchia nos fins de semana. Armando fazia churrasco, os colegas do trabalho pintavam por lá.  Começava no sábado à tarde e varava a noite. Havia uma alegria naquilo.

Eu sorria. 

Depois isso foi minguando. Os colegas de trabalho foram sendo substituídos. Foi surgindo uma galera nova na loja, com pouca afinidade com a gente, o pessoal das antigas morava longe e fomos ficando sós. E menos jovens também.  

Descolei uma dança de salão aqui perto de casa. Até convidei Armando, mas ele não quis ir. Saio pra dançar segunda, quarta e sexta à noite.

Armando sai toda quarta à noite e domingo à tarde pra assistir jogos de futebol num bar que abriu, nem sei quanto tempo faz, aqui vizinho de nossa casa. Ele vai, toma as cervejas dele, volta e dorme. A gente é um casal que não briga. Não há muito porquê. Penso às vezes na tristeza de não conseguir brigar com ele.

Cheguei a pensar, quando achava que ainda valia a pena, numa separação. Mas não consegui ter clareza de que um relacionamento possa ser mais que isso. Afinal, Armando continua fazendo a nossa comida e é alguém com quem vivo, divido as tarefas de casa e as contas há mais de 25 anos.

Não tivemos filhos. Hoje eu uso calça tamanho 50, Armando, 54. O nosso cachorro anda muito doente.

 

Catálogo arbitrário das tuas reações

Santiago Santos

 

Acho que se você tivesse aqui, primeiro reclamaria do preço e depois encheria o prato de croissants e omelete e bacon e diria que, afinal, não é todo dia, não é mesmo, Rê, a gente pode fazer graça de vez em quando. Engraçado como tenho pensado nisso, nas tuas reações, tão diferentes das minhas. Vira e mexe me pego com um sorrisinho besta na boca diante do garçom, do porteiro, da caixa do mercado, eles talvez achando que tô rindo de qualquer coisa, deles, até, o que é sempre um problema, quando as pessoas acham que tamos rindo delas e não é o caso.

Gosto de vir aqui na Moinho. E de sentar nesses sofás inteiriços diante das janelas, a mesa grande pra espalhar as coisas da bolsa, a agenda e as folhas, o notebook ao lado do prato, trabalhar comendo e bebendo um suco. É minha rotina favorita pra começar o dia, e você já sabe disso. Tanto que a notificação no Whatsapp é você perguntando que suco pedi. Tamarindo.

Não é só a mesa e o espaço, é a janela também. Quem entra e sai do estacionamento essa hora do dia. Gente recebendo visita de fora e querendo mostrar o que tem de chique em Cuiabá. Reuniões informais. Pais ou mães que já deixaram os filhos na escola ou no curso e vêm tirar um tempinho pra eles, mais que merecido, bem sei. Gosto de sacar quem passa, decifrar um pouco pelo jeito que andam e se vestem e comem e pelos carros que dirigem, estacionados entre os seguranças haitianos com os apitinhos pendurados no peito.

Volto a pensar na tua reação quando chega uma encomenda no escritório, à tarde. É um buquê. Penso que você exagerou dessa vez, querendo mostrar pra todo mundo que é quem a dona do escritório de advocacia, a patroa, escolheu pra dividir a cama, porque buquê no trabalho é isso, é pros outros, não pra pessoa. Mas o buquê é pro Armando, do noivo dele. Armando, sendo o recepcionista bonachão que todo mundo adora, talvez te fizesse inventar outra resposta, pra não soar rígido. Mas eu sei o que você diria mais tarde, nós dois tomando um vinho no meu apê ou no teu, que funcionário recebendo presente no escritório é um exagero. Eu diria, direi, que isso é besteira, não tem nada de mais, acho é bom pra dar uma sacudida nas reuniões, nos telefonemas, nas petições.

É na reação, de novo, que eu penso quando troco o dia do jantar com a filha e o genro e o neto por causa da tua mensagem de que a nova temporada de The Crown na Netflix combina com margherita. É o jeito que daqui a pouco, depois que a gente trepar de novo, depois que o vinho acabar, você vai dizer e quando você vem pra cá de vez, Rê?, mais uma vez, porque o apartamento é bem grande pros dois, porque só tem uma camisola no meu lado do armário e é muito pouco. Essa risadinha de olho que você dá quando esconde um desejo genuíno na pergunta vai continuar ainda, por alguns minutos, não sei como, mesmo depois que eu responder brincando, mudando de assunto, puxando a toalha que você amarrou na cintura. Tenho pensado muito nisso.

 

Um corpo ébano sobre o chão

Janete Manacá

 

Envolto em vestes pretas e uma camiseta escura sobre a cabeça escondia os cabelos e expunha uma rala e despontada barba branca. Lá estava ele! Amigos disseram que o encontraram na rodoviária de Cuiabá. Havia virado mendigo e tinha escolhida a rua por companhia há 5 anos. Mil coisas passaram pela minha cabeça. Todos os dias eu me deparava com pessoas em situação de rua e me parecia normal. Mas agora se tratava de um amigo.

De longe o avistei, sentado no primeiro piso da rodoviária. Fiquei estarrecida! Retrocedi alguns passos e me escondi atrás de um pilar. Respirei fundo, tomei coragem e segui em sua direção. Agora eu estava parada na sua frente. Nos abraçamos entre declarações de intensas saudades.

O motivo de sua mudança para a rua nunca ficou claro para mim, mas ele estava ali, vivo, e isso era motivo de celebração. Disse que aquele era o último ano que faria da rua sua morada, mas não me pareceu verdadeiro. A rua é traiçoeira e seus mistérios seduzem quem dela prova.

Fiquei imaginando o que levara aquele intelectual a morar na rua, exposto à fome e toda sorte de violência. Sim, a rua seduz pela possibilidade de liberdade. Ao mesmo tempo, torna a pessoa invisível. Essa antítese é cruel! Qual seria o real motivo de sua opção pela rua? Penso que terei que carregar pela eternidade essa dúvida.

Rua não tem endereço fixo, é metafísica em demasia para a minha vã e frágil compreensão de infinito. E quando a tempestade rasga o céu noturno e despeja água em abundância sobre ruas, becos e vielas, eu me pergunto: aonde estará? Tenho tanto pavor a tempestades que os maus pensamentos invadem minha mente.

Alguns anos se passaram. Fiquei sabendo que continuava na rua como quem tem domínio de todos os fenômenos. Com a serenidade dos desapegados, dizia: “Quando chega a noite eu faço a meditação da árvore, aprendi com um sábio xamã dos Andes”. Talvez essa prática o mantivesse protegido de toda a maldade humana.

Estaria querendo chamar a atenção de algum amor do passado? Afinal, são tantos rostos femininos impregnados no passado de um homem. A verdade é que uma enxurrada de incertezas ainda passa pela minha cabeça e talvez continuem passando para sempre. Ele se tornou a extensão da própria rua. Um corpo ébano estendido sobre o chão que se confunde com a gélida escuridão.

 

A mente cega e confusa mente...

Maria Otília

 

“Pois é, mane coité, mamá na gata ocê num qué… quem vai botá o guiso no gato?” gritou Gonçalino. 

Pois foi aí e assim mesmo que Ditinho (apelido de Benedito) saiu catando cavaco do lugar onde esteve na última metade do dia. Já era altas horas da noite e ele estava num bulicho ali no Beco da Marinha, no Bairro do Porto, em Cuiabá. Esse é um beco de casas simples, algumas destruídas pelo tempo e pelo descaso, muitas portas e janelas lacradas com cimento, lugar de maioria de gente despossuída de bem material.

Eu, que presenciei a cena, sei que foi ali mesmo que nasceu um grande poeta cuiabano, Manoel de Barros, pra quem toda inutileza, todo abandono e o que não serve pra nada, serve pra poesia. Apesar dessa beleza cultural e do sagrado que pode ser para uns, Ditinho e os amigos não conheciam a informação e não tinham a menor noção da possibilidade desses outros mundos que ali habitaram em outros tempos e por isso davam ao lugar a desimportância que tinha pra eles. Fico me perguntando: como se pode abrigar tão diferentes histórias na história de um mesmo lugar? Pra mim o antigo Porto é um lugar poético – porto, porta – chegada de mantimentos, roupas, lugar de vai e vens, de despedidas, esperanças e de remédio pra saudade. Logo ali na frente o Rio Cuiabá, majestoso em porte, desnudo de matas nas margens, cheio de restos descartados pelos humanos, ditos civilizados, lixos que boiam como bosta e que são mil vezes pior que merda, pois não alimentam peixes, não adubam as plantas e demoram séculos pra serem destruídos na natureza. E pensar que essa água passa no Pantanal... 

Perdida e pensando com meus botões, quase nem vi que Ditinho continuou andando, pisando alto e bem duro pelas ruas do Porto, num balé assincrônico ou anacrônico, resvalando nos ressaltos geométricos da arquitetura do bairro. A dança irregular era interessante e coerente, como é comum a quem mora na rua, tem a cabeça a partir da fome, regada a álcool e outras coisitas mais. 

Acompanhando a cena, vi quando Ditinho entrou na ponte que liga Cuiabá a Várzea Grande e li seu pensamento, confuso: “Por que ir? Por que ficar? Ir onde? Ir ou ficar pra quem ou com quem?” Tudo se misturava na sua mente. De mente insana. Demente. E isso de mente… é isso que a mente faz… distorce… confusa mente… confunde e mente. “Tô muito confuso, num entendo mais nada…”.

E ele de repente parou e empacou no meio da ponte. Subitamente voltou seu rosto na contramão pra onde estava indo, mas foi meio cegado pelos faróis que não voltavam como ele, agora, mas iam em frente, como ele fazia há poucos instantes. Assim, ficou um pouco cego de tanta luz e, ainda mais confuso, insistiu nos passos que pareciam seguir adiante, mas que iam para trás… E cego e cambaleante, insistiu, insistiu e não desistiu até que escutou buzinadas, freadas, os faróis foram chegando mais perto, mais perto, e aí o cegaram completamente. Pensei: como a luz pode cegar? Pelo jeito não se ouvia nem se sentia também... Não estava mais ali?

Dois dias depois fiquei sabendo, por Ditinho mesmo, os detalhes de tudo isso que contei, quando ele tinha dentro de seus olhos um outro farol, uma luz também forte que sondava a existência de vida pelo seu reflexo pupilar. Ele respondeu, agora sem vacilar, fechando aquele diafragma, como que anunciando: “Tô inteiro vivo, mesmo no pronto-socorro. O socorro chegô pronto e eu ainda tô por aqui”. 

E eu ainda me pergunto até hoje por que naquele dia eu vi o Ditinho, o segui, chamei o SAMU e agora constato a sua vida? Contatar, constatar… vou pensar melhor sobre essas palavras e sobre os poderes sonoros do abandono, das luzes, das palavras, dos lugares, das histórias, dos portais, do porto, da poesia, dos poetas, enfim, sobre a vida e o que a habita e habilita. Centelhas. Histórias.

clube

Os protagonistas da primeira jornada do Clube de Leitura do Arsenal mandando bala no Tyrannus. Que venham outras jornadas!!!

 


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Agenda Cultural

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