CONTO

Um estranho no cano



Nem pisei e tive vontade de sair. Correndo. Era um ambiente pesado, as pessoas de mau humor, só reclamando. Eu não me sentia confortável ali. Sabia que era diferente. Nem melhor nem pior que ninguém. Diferente. Mas não teve jeito. O histórico da família, a dificuldade de adaptação a novos lugares, a necessidade do ganha-pão fizeram eu insistir.

Ali dentro acontecia de tudo. Uma hora parecia uma feira: pessoas gritando, falando ao mesmo tempo. Em outras um salão de beleza, no pior sentido: a fofoca rolando solta, cobra engolindo sapo e arrotando urubu. Um horror. Tinha dia que virava shopping: Boticário, Avon, Natura; roupa P, M, G, plano de saúde, clube de férias, conta em banco. Consumo, consumo, consumo.

Só não parecia um ambiente educativo.

O melhor era a recepção aos novos. Eu sempre ficava atento ao batismo. O que falariam desta vez? Parecia que havia um certo prazer em botar um pânico, um medinho. “Olha, foge enquanto é tempo.” A maior parte dos professores estava de saco cheio de escola, de direção, de alunos. Aquilo era um cabide de emprego e pronto. Nada mais disso.

Lembro que eu cheguei junto com um outro rapaz. Novinho. Cara de bebê. Quase não tinha barba na cara. Eles ficaram todos ouriçados com a nova cria. “Quem é esse? Estagiário? Voluntário? Tá perdido, filho?” Quando descobriam que era professor... Chovia conselho:

- Rapaz, seja firme, ou eles montam em cima.

- Aquilo é uma jaula. Só tem animal.

- Eles sentem o seu medo no ar...

O melhor para os novatos era ficar quieto. E fim de papo. Mas e quando resolviam retrucar? “Os Idealistas”. Aí ficava esquisito. A corporação se juntava, engrossava o caldo: - “Ah, você é novo, tá chegando agora. Quero ver daqui a dez anos. Quinze anos. Vinte. Aí a gente conversa.” Tinha também a frase clássica né:

- Ah, eu já fui assim.

Eu me colocava alheio a todos estes discursos. Desde o dia que cheguei, fiquei no meu canto. Calado. Não me misturava muito aos outros. A minha preocupação era a minha sobrevivência. Só me preocupava com o meu. E tudo certo.

Sempre fui muito observador. Vez em quando, quando não estava na sala, passeava pela escola. Passava na biblioteca, laboratório. A primeira, sempre fechada. O segundo, vazio. Observava o trabalho da secretaria, a cozinha, os corredores. As tias da faxina não gostavam muito de mim não. Não sei por quê. Sempre que me viam era um alvoroço. Bem, pratos limpos, ninguém simpatizava muito comigo.

Apesar do que ouvia na saleta sobre os alunos, eu ia até eles. Devagar. Com respeito. De canto ouvia algumas das conversas, observava. E me assustava. Falavam que alguns professores viviam xingando eles de tranqueira, estrupício, marginal. Êh nóia. Ô raça! Isso num é gente! Que alguns deles já haviam sido beliscados, tomado tapa, cróqui, chacoalhão. Até apagador já tinha voado na cabeça de aluno. Eu não duvidava. Da sala dos professores eu via que eles não morriam de amores uns pelos outros.

Foi assim que eu soube da história do Zóinho.

O moleque era mirrado, usava um óculos de três graus. Fundo de garrafa. Tímido, sentava na terceira carteira, da parede. Só no intervalo abria a boca pra conversar, e só um pouquinho. A maioria dos professores nunca tinha ouvido a sua voz. Ele respondia a chamada levantando o braço. Muitos se perguntavam se ele tinha algum problema, se era surdo, mudo ou alguma coisa do tipo.

Foi por isso que eu fiquei indignado quando aconteceu aquele Conselho de Classe. Na sala, o Zóinho, a mãe, o diretor e oito professores. Aquilo não era uma reunião, era uma sessão não-oficial de linchamento. Os professores com a boca espumando, afinal, o menino tinha jogado uma carteira em cima do pé de um professor. O cara quebrou o pé, ia ficar não sei quantos dias afastado. Aquele menino tímido, que não fedia nem cheirava virou uma ameaça. Um barril de pólvora. O que vai acontecer na próxima explosão? Vai esfaquear um aluno? Vai dar tiro? 

Só que eles não tinham falado o que aconteceu. O porquê dele ter feito tudo aquilo. Eu sabia. O Clóvis passou uma prova. O Robson, Zóinho, ficou vinte minutos com ela na mão. Colocou o nome e entregou. Em branco. O professor falou: - Olha, não é porque você tem essa cara de bobo e nunca fala nada que pode fazer isso. Vai, faz essa prova. Agora. E devolveu pra ele. Ele ficou ali, olhando a prova mais uns três minutos. Amassou e jogou no chão. O professor ficou irritado: “- Você tem algum problema? É débil mental? Vai fazer essa merda agora!” Pegou a prova do chão, desamassou e colocou na mesa do Zóinho. Vai. Escreve aí. Escreve! Ah, o garoto desembestou: fez picadinho da prova, saiu empurrando cadeira, colega, carteira, e pá: uma caiu no pé do professor. E deu nisso.

Tava todo mundo metendo o pau, dizendo barbaridades pra mãe. O moleque acuado, calado. Ninguém se referia ao fato de ele estar na quinta série e não saber ler e escrever. Caramba, será que eles não percebiam isso? Não levavam em consideração? Que o moleque tava triste, chateado, não conseguia desenvolver, e o professor ali, em cima, enchendo o saco? Bom, não dava mais pra eu ficar ali, omisso no meu canto. Precisava defendê-lo. Interrompi, pedi licença, comecei a falar. Expliquei que...

Expliquei nada. Nem comecei a falar uma professora arregalou os olhos, subiu em cima da mesa e soltou um grito. Foi um pega pa capá danado. Professora correndo, o diretor com a vassoura na mão. Até a mãe do Zóinho ficou assustada. Aí eu vi que tinha feito merda. O melhor era ter ficado quieto, em silêncio, como sempre fiz. Foi um tal de jogar cadeira, bater com a vassoura. Eu com as minhas patinhas ziguezagueando, desviando. Até que eu entrei pelo cano.

Bom, terminou a reunião né? Eles reviraram armário, trocaram cadeira, poltrona de lugar. Espalharam ratoeira, veneno. Só que eu era ligeiro. Desviava de tudo, tinha bom faro. Comia as sobras que caíam no chão no intervalo dos professores e voltava pro meu esconderijo. 

Até ontem eu ainda podia ouvir eles condenando a minha presença, a minha atuação. Imagina, em pleno Conselho de Classe, eu fazer aquela intervenção? Absurdo. Estavam revoltados. Deve ser por isso que hoje quando eu acordei não consegui mais sair. Tinha essa massa fria, úmida, cobrindo o buraco do cano. É, acho que foi cimento que passaram por aqui. 

guilherme

ciriaco

Rodrigo Ciríaco é escritor e educador, formado em História (USP). Participa há anos de saraus da periferia paulistana. Desenvolve ações de incentivo à leitura, produção escrita e difusão literária em escolas públicas de São Paulo

 


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