BELTERRA...

Primeiro Episódio*



Chegamos no dia anterior a Santarém. Nesse primeiro dia, andamos pela cidade a esmo, como que procurando algo muito importante, que, no entanto, sabíamos de antemão que não íamos encontrar, mas, mesmo assim, procurávamos, olhando detidamente para as paredes em ruínas de velhas casas e casarões. Eu e meu pai procurávamos vestígios do tempo em que fôramos felizes em Santarém, um tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

No outro dia, bem cedinho, num carro alugado, reiniciamos essa busca desesperada por nós mesmos. Deixei que meu pai me levasse aonde quisesse. E o carro tomou o rumo de Belterra.

Enquanto eu dirigia, era capaz de ouvir, em silêncio, o que meu pai ia pensando. Ele olhava para a paisagem urbana que ia ficando para trás, para a desordenada ocupação do solo que ia transformando Santarém em mais uma cidade qualquer, com sua feiura arquitetônica e a miséria social e humana. Via seus olhos fixos nessa paisagem desoladora, nas margens da Estrada Santarém-Cuiabá (que há quatro décadas começara a ser construída e até aquele dia não fora finalizada!) com aspectos de “caabas” marroquinas, mas sabia que meu pai nada via. Seus olhos eram o seu pensamento fixo no passado. 

Como sempre, meu pai parecia tranquilo, mas eu sabia que, desde que saímos de São Paulo, ele estava agitado. Não falava no assunto, mas a promessa que lhe fiz de revisitarmos Belterra, onde ele viveu cinco inesquecíveis anos de sua vida juvenil, deixou-o em polvorosa expectativa interior, que se manifestava de vez em quando naquela tossezinha tipicamente nervosa que nos acomete quando achamos que algo muito ansiado está para acontecer.

Eu sabia que, enquanto a paisagem de beira-estrada ficava para trás, meu pai ia se lembrando da baralhada história de sua vida na Amazônia, cujo sentido ele ainda luta para encontrar. Como, por exemplo, o episódio em que um menino foi entregue pela mãe, ainda bem novinho, aos cuidados do “padrinho” (aquela pessoa em geral poderosa, a cuja proteção os pais pobres da Amazônia confiam seus filhos, resultando entre os pais e o “protetor” uma relação de “compadrio”, em que o protegido é “afilhado”). 

O padrinho do meu pai foi um fazendeiro do rio Amazonas, chamado Teodoro, que o levou para a Ilha dos Patos (torrão de várzea que se forma durante o verão, no Lago Grande, município de Santarém, de onde se origina a nossa família). Na Ilha dos Patos o velho tinha uma casa grande de madeira, coberta de telhas, avarandada, muito alta, para não ser afogada pela enchente que todos os anos inunda as várzeas do grande rio.

Num daqueles invernos diluviamos, fugindo das grandes águas, Teodoro foi com os bois para a terra-firme, porção de terra que as enchentes dos rios não conseguem inundar durante o período das grandes chuvas, que acontecem de janeiro a junho. Deixou na Ilha o filho mais velho, o Antônio, com a incumbência de cuidar dos carneiros, das galinhas, dos patos e animais menores.

E assim o pequeno e frágil menino ficou só, naquele ermo, com o forte e malvado Antônio. Um dia, Antônio derrubou o menino no chão e, com a palmatória que tinha um buraco no meio, bateu na sola dos pés do coitado, uma, duas, três, muitas veze, sem motivo, só pelo prazer de bater. O pequeno chorou e esperneou, mas Antônio segurou-o com uma mão e bateu com a outra; bateu tanto, tanto... que o menino, já sem sentir os pés, parou de chorar e esperou que o outro cansasse. Vendo que prendia o choro, Antônio se zangou e continuou a bater, cada vez mais forte, até que o menino voltou a chorar. Antônio então soltou uma gargalhada e largou-o, mas continuou nervoso, sossegando apenas quando voltou a bater. 

No outro dia foram pescar, Antônio e o menino, sozinhos, dentro da canoa. Na volta, de repente, sem quê nem pra quê,  Antônio olhou para o curumim fixamente, de um jeito esquisito, parecendo já outra pessoa, e parou de remar, soltando a seguir uma risada estridente. O menino pressentiu o que ia acontecer, mas não tinha para onde correr, a canoa não passava de um ponto entre céu e água. Sentindo-se um ninguém, o menino esperou, enquanto Antônio, à sua frente, ia crescendo, crescendo... Não compreendia por que aquilo tinha que acontecer.

“Qual a minha culpa? O que eu fiz? Foi pra isso que eu nasci?”, perguntava-se o pequeno, olhando para as águas turvas do lago e pensando em lançar-se fora da canoa, mas tinha apenas cinco anos e mal sabia nadar.

Como que adivinhando o pensamento do menino, Antônio largou o remo e esticou o braço na direção do pequeno, que se encolheu todo, mas não pode evitar que o outro lhe agarrasse os cabelos.

Antônio jogou o menino dentro d´água e este foi lá no fundo e voltou batendo os braços, mas logo afundou novamente sob a forquilha de um varejão que Antônio meteu em seu pescoço e segurou um tempão lá no fundo, depois afrouxou. O menino voltou á tona quase morto, mas Antônio empurrou e afrouxou, empurrou e afrouxou. O pequeno afundava e boiava, afundava e boiava, passando-se nisso muito tempo, até que Antônio se cansou de afogar e puxou o menino pra dentro da canoa, mas ele não teve sossego. Enquanto respirava, Antônio abaixou o calção, defecou dentro da cuia e jogou-o no fundo da embarcação; depois botou um dos pés sobre o pescoço do menino e forçou-o a abrir a boca, enfiando o excremento para que o comesse, mas o pequeno trancou a garganta e não engoliu. Antônio tornou a jogá-lo dentro d´água e pôs-se a afogá-lo com a forquilha. O menino afundava e voltava, afundava e voltava...

Antônio ia matar o menino, mas a canoa, à deriva, aproximou-se do capinzal da margem, e o pequeno, reunindo todas as forças, bateu seus bracinhos por baixo do capinzal e nadou até boiar lá na frente, no meio do capim. 

Antônio gritou:

-Seu filho duma puta! Onde estás? Vem pra cá senão te mato!

Apenas com o nariz de fora, sentindo a corrente fria por baixo de si, mal escutando os gritos de Antônio, o menino se perguntava “E agora? O que faço?”, quase morrendo só em pensar que debaixo do capinzal moravam sucurijus gigantes, que chegam a 10 metros de comprimento e  são capazes de engolir uma pessoa inteira, mas pouco a pouco foi se acalmando.

Antônio havia parado de chamar e enfiara a proa da canoa no capinzal à procura do menino, o qual, criando coragem, foi nadando por baixo do capim. Nadava e boiava, nadava e boiava, deixando de fora apenas o nariz.

Pensando que o menino havia morrido, Antônio parou de bater no capinzal e se aperreou. Como explicaria ao pai a perda do afilhado?

Enquanto isso, o pequeno seguia nadando. Mergulhava e respirava, mergulhava e respirava, a esmo, sem saber qual rumo tomar, parecendo que o capinzal nunca ia acabar.

Já escurecia. Sapos coaxavam por todos os lados. Cada vez que um relava em seu corpo, o pequeno pensava que era uma sucuriju e estremecia, mas não parava de bracejar, tinha que sair do capinzal.

O aspecto do meu rosto se altera toda vez que eu conto essa história a alguém, pois sempre o interlocutor olha-me de um jeito diferente e pergunta o que me acontece.

-Nada, apenas uma coisa à toa, que eu nem sei de onde vem – respondo, fingindo estar tudo bem, mas, na verdade, ao pensar nos sofrimentos que meu pai amargou quando era menino, sinto-me muito triste, como se a minha vida fosse também um imenso capinzal, do qual jamais sairei. 

Olhando para o meu rosto estampado no retrovisor do carro que nos leva para Belterra, enxergo refletida a mesma tristeza que também deve estar sentindo o meu pai, o qual continua em silêncio ao meu lado, apenas de vez em quando apontando para alguma coisa que atrai a sua atenção na beira da estrada, coisa que de algum modo se conecta com o seu passado. Piso devagar no acelerador do carro, sabendo que, depois de tantos anos de espera, não precisamos agora ter pressa em chegar a um lugar que de antemão sabemos que estará lá, sim, com a mesma área e o mesmo nome, mas, na verdade, existirá? E meu pai estará preparado para se deparar com os fantasmas que visitam as suas lembranças mais remotas? Eu também me preparo mentalmente para ser testemunha de instantes únicos na vida do meu pai. 50, 45, 40, 35, 30, 25, 20, 15, 10, 5 quilômetros nos separam do lugar em que meu pai diz ter sido muito feliz. Vamos tão absortos em nossos pensamentos, que me passa despercebido o ponto em que devemos deixar a eternamente inconclusa Estrada Santarém-Cuiabá e entrar na estrada que leva a Belterra. Percebemos o nosso “cochilo” somente dez quilômetros depois, quando somos parados pelos operários que consertam a estrada e que levantam uma placa onde se lê: ATENÇÃO: PARADA OBRIGATÓRIA. 

 

*Reproduzido do livro “Choro por ti, Belterra”, de Nicodemos Sena, publicado pela LetraSelvagem (www.letraselvagem.com.br)

nico

Nicodemos Sena é natural de Santarém (PA), mas está radicado em São Paulo há vários anos. Sua ficção, porém, tem se mostrado ancorada na região onde nasceu e é correto afirmar que ele é um dos principais autores amazônicos nos dias atuais

 

 

 


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