CRÔNICA

Prosas com Manoel de Barros*



Chegou a hora de falar sobre meu conhecimento com Nequinho. Manoel de Barros nasceu no bairro do Porto, aqui mesmo em Cuiabá, e isso ouvi da própria boca do poeta. Agora, antes de ser cuiabano, ele é mato-grossense, e de um tempo em que esse Estado era uma coisa só. Tive poucos, mas primorosos contatos com o poeta. E sempre com muita espontaneidade de ambas as partes. A última vez em que estive com ele foi na Literamérica 2005, mas, sobre isso, vou falar mais pra frente, só para dar uma certa cronologia na narrativa. 

Primeiro, a minha visão particular sobre sua poesia e a poesia de uma forma geral. Nada científico, nada pelo viés do conhecimento sistematizado que habita as academias. Como já disse, literatura, para mim, é prazer. Gosto de ler e de me emocionar com a leitura. E o incrível da poesia é que ela é que nem a música. Ela é como que sensorial, a gente lê e lê e lê, quantas vezes quiser, sem a preocupação de que é uma história ou coisa que o valha que está sendo passada. Embora o aspecto racional e as maravilhas da filosofia estejam presentes num minúsculo verso, quando se trata de um bom poeta. Que é o caso de Manoel. E bota bom nisso. 

Eu gosto de pesquisar definições de poesia. “Poesia é voar fora da asa”, disse Manoel, o cuiabano. Bonito e muito. Mas eu prefiro o conceito do poeta russo/estadunidense – nobel de literatura em 1987, Joseph Brodsky: “Poesia é a educação do sentimento”. 

Voltando a Manoel de Barros, preciso cravar que ele fez a sua tarefa escolar da vida de artista: canta a sua terra e a contextualiza universalmente. E com quanta propriedade! É impressionante a sua economia de palavras a contracenar com a dimensão infinita de sentidos. Em cada verso. Ele me faz lembrar os desenhos eróticos de Picasso que, com pouquíssimos traços, expandia suas galáxias de criatividade.

Uma vez, participando de conversação com alunos que se preparavam para o vestibular, um professor doutor em literatura me passou a bola para falar sobre Manoel de Barros. De estalo eu disse, com muita sinceridade, que me assombrava o fato de ele, Nequinho, contrariar abusivamente uma máxima do jornalismo, segundo a qual “uma imagem diz mais do que mil palavras”. Ora, quem conhece a poesia de Manoel de Barros sabe do que estou falando. Você lê um poema, ou, algumas vezes, apenas um verso dele... e a magia da combinação das palavras, carregada de emoção e provida de uma estética que justifica plenamente a definição de arte como “a ciência do belo” acontece bem ali, debaixo das suas retinas.

Um poema de Manoel de Barros, por exemplo, costuma ter uma carga emocional superior a uma foto da paisagem pantaneira. E vai dizer que é pela “pegada” racional da palavra... Agora quando??? Mas essa abordagem não é bem a que me toca. Antes de narrar meus entreveros com Nequinho, só mais uma cosita: eu penso que quem conhece a ambiência pantaneira e o próprio cerrado, que circunvizinha o pantanal, quem conhece a fauna e a flora e suas relações gerais, beneficia-se muito mais com a poesia de Manoel de Barros, já que é uma chance de comparar o que se vê e se conhece com um magistral jogo de palavras cheio de re-significados e significâncias.

Uma vez Manoel de Barros veio a Cuiabá para receber um prêmio e ele estava na Casa Barão de Melgaço. Fui lá imbuído da missão de entrevistá-lo. Já na entrada me disseram que ele não daria entrevista. Entrei e o vi bem na frente de um monte de gente sentada. Logo atrás dele, algumas jornalistas. Envernizei minha cara e cheguei junto ao poeta puxando assunto. Esse foi meu primeiro contato com ele. No meio da conversa, arrisquei: “mas por que essa história de não dar entrevista, poeta?”. “Ora, vocês escrevem coisas que eu não disse, exageram em outras...”. Tentei contemporizar: “ah, poeta, isso faz parte... essas coisas, esses acidentes são até necessários, às vezes...”. Ele fechou com a minha cara: “pode ser bom pra vocês... pra mim é uma merda.”

Passado algum tempo consegui o telefone do poeta em Campo Grande e espreitei o cara. Ele topou a entrevista, desde que fosse feita por carta. Meio desesperançoso, enviei-lhe as perguntas, que elaborei com carinho. Quinze, talvez vinte dias depois, estava eu em casa quando eis que chega o carteiro com suas respostas escritas numa letrinha miúda e graciosa. Que felicidade. 

Na Feira Sul-Americana do Livro (Literamérica), que Cuiabá sediou em 2005 e 2006, e espero que volte a acontecer, eu trabalhava na Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso e, entre os organizadores do evento, rolava uma grande dúvida em torno de quem homenagear na Feira: Ricardo Dicke, Wlademir Dias-Pino ou Manoel de Barros. Numa reunião eu sugeri: “Por que não homenagear os três?”. Fui acatado. Melhor do que isso, durante a Feira, o então secretário de Cultura, João Carlos Vicente Ferreira, incumbiu-me de ciceronear os três escritores. E o fiz com um prazer inenarrável. 

Nequinho chegou e abordei-o na primeira oportunidade. Sei que essas celebridades conhecem muita gente e depois nunca mais cruzam com essas pessoas. Perguntei se ele se lembrava de mim e ele disse que sim. Eu disse “mentira!!!”. E ele não me desmentiu. Comunicativo como sou, e ele, espontâneo, logo ficamos amigos. Me propôs: “Lorenzo, esse cachê que eu recebi (três mil reais), quero gastar tudo em cerveja. Trouxe meu filho e meu sobrinho pra me ajudar”. Eu respondi: “beleza, poeta, a gente pode também ir pra zona depois”. E rimos muito. 

Estava acertado que ele estaria à disposição do evento durante uma das tardes, no local onde a Feira se realizava. Nesse dia ele chegou e fez questão de cumprir a promessa, parcialmente. Lógico que não fomos para a zona. Mas nos sentamos num bar dentro da Feira e ele mandou descer todas. Falamos, entre outras coisas, da antiga rivalidade que havia entre Cuiabá e Campo Grande, antes de Mato Grosso ser dividido. Oportunidade ótima para eu reviver uma antiga piada, na qual, um campo-grandense chegou para um cuiabano e disse, carregando no sotaque ao mencionar os points de Cuiabá nos anos 70 e 80: “Em Cuiabá é tudo `tchoppão´, `tchuá´ e `tchalé´”. O cuiabano deu um suspiro e retrucou: “Ocê esqueceu de dois: tchô cu e tcha mãe, disgramado”. E rimos com muito gosto. Chegou uma certa hora em que eu já estava empapuçado. Ele, com seus 90 anos, parecia estar mais preparado para a beberagem que eu. Mas, graças a deus, disse: “Tchega... eu num aguento mais”. E pagou a conta. 

Nos últimos anos, até que tentei uma nova entrevista com o cara. Tá difícil. Então, quem sabe mais uma cerveja...   

 

*Texto produzido para o livro “Dos labirintos e das águas: entre Barros e Dickes” (2009), da Editora Unemat

NEQ

Neste 19 de dezembro são completados 100 anos de nascimento do bravo poeta cuiabano, que saiu de cena em 2014. Além de saudades, deixou um bravo legado literário



 


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