CRÔNICA

A doce vida



Estou patinando e cheio das esperanças de entrar mesmo pra valer em 2018. É tudo simbólico. E escravizante. Virar o ano não é brincadeira. É período sério. Além da exatidão da passagem, entre o 31 de dezembro e o primeiro de janeiro, um punhadinho de dias pra trás e pra frente atropelam a zona de conforto da rotina. Aí, a gente patina.

Deve ser pelo fato de que a vida é um atoleiro. Estamos atolados, pois somos terráqueos. Algo interno ou externo, e quem sabe os dois, é necessário pra nos empurrar. Ficar parado nessa sensação de passagem, coisa que precisa ser passageira.

Dizem que quem fica parado é poste. "E os cachorros usavam fazer de poste as suas pernas", diz o verso de Manoel de Barros. A arte do verso tem mesmo explicação para tudo. Deve ser por isso que "todas as coisas que escrevo são tentativas desesperadas de dizer o indizível", conforme teria vaticinado Merleau-Ponty.

Independente do dito (e o não dito) até agora, queira ou não, chegamos em 2018 e começamos a manobrar nossas vidas ao longo desses próximos doze meses que já vão se esvaindo. E vem o discurso encalacrado, segundo o qual, nada acontece antes do carnaval. 

"Tô me guardando pra quando o carnaval chegar" faz parte do universo poético/musical de Chico Buarque, artista genial que balançou e ainda balança, por ser uma espécie de pivô entre as discussões que separam coxinhas e mortadelas. Coitado do Chico... ele não merecia isso. Ora, coxinhas e mortadelas que ainda não conseguiram superar esse episódio, francamente... 

Não são mais coxinhas, tampouco mortadelas. São pamonhas!!!

Que coisa mais chata essa lenga-lenga. Bom, também não posso reclamar muito desse chove não molha, já que esta crônica, até agora, não foi muito longe. Escrevi muito mais do que disse. Propositalmente, no entanto, comecei assumindo que estou patinando.

Não disse nada de novo e apenas me apropriei de letras de gentes famosas. Mas é mais ou menos assim que essa tal da crônica rola. E enrola. O leitor e o próprio autor, ainda mais, aquele que escreve-a, porque não aguenta mais a mesmice do texto meramente jornalístico. 

Está caindo uma chuva fina aqui no meu bairro. Esse barulhinho de água é gostoso e serve como trilha sonora para a pasmaceira do meu lar, onde habitamos eu, meu filho e mais cinco gatos. Além de uma outra felina que é assim meio agregada. 

Gatos são animais de rara beleza. Mas não é a boniteza o que mais invejo deles. É a vocação com a qual nascem para a preguiça. Dormem, entre cochilos e sonos profundos, dezesseis das vinte e quatro horas do dia. E entre as oito horas que ficam acordados, em parte delas, ficam fingindo (ou posando) de esfinges.

Aqui no lugar/sala da minha casa onde escrevo, defronte minha cadeira de costume, tem um belo desenho do Ricardo Guilherme Dicke, grande escritor, que começou nas artes como pintor. "Mulher gato", hidrocor sobre papel, que ganhei do próprio. Não chega a ser mais um gato, apenas uma referência explosivamente visual. 

Como é uma obra de arte frágil e já levou um tombo, desintegra-se. Penso em restaurá-la, mas, um amigo do meu filho veio aqui em casa e indagou se ela não seria assim mesmo "desintegrada".

Está quase pronto o texto e sinto nessa prontidão mais próximo verdadeiramente o interior desse ano que acabou de chegar. 

E assim (e assado) fecho a minha primeira crônica de 2018. Como que me vingando da pressa do mundo moderno, em conluio com a pasmaceira inevitável que habita a cabeça daqueles que escrevem.  

É... E de tanto mencionar felinos, fui parar em Felinni na nominação deste arrazoado. Poderia colocar também "pasmaceira" como título, já que viver não remete a um objetivo explícito e então tratei de caçar um'outra metáfora. 

dicke

"Mulher gato", de Ricardo Dicke, a arte em estado de desintegração

 


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