CONTO

Catástrofe*



— Vai ser uma catástrofe!

— O que eu podia fazer?

— Você podia ter falado pra ela não vir.

— Eu ia falar uma coisa dessas?

— Por que não?

— Uma pessoa me telefona falando que quer vir passar uns dias na minha casa: aí eu falo pra ela não vir?

— Por que não? 

— Você falaria?

— Claro que eu falaria.

— Pois eu não.

— Eu falaria: "Escuta, fulana, eu fico muito feliz de você ter se lembrado de mim e da minha casa, mas seria melhor você não vir, porque meu marido não só não aprecia visitas, como também, e principalmente, não aprecia crianças, tanto é que nós não as temos.”

— Muito engraçado... Já imaginou eu dizendo isso pra ela ou pra quem quer que seja?

— Você não disse; o resultado aí está: eles vêm.

— São só seis dias, Artur.

— Só seis dias...

— Ela quer aproveitar a Semana da Criança. 

— E nós com isso?

— Ela queria dar um presente para os meninos, e aí ela escolheu esse passeio.

— Muito bonito: ela dá o presente, e nós pagamos a conta...

— Ela me disse: "Mimi, sabe de que os meus filhos estão precisando? Sabe de quê? Eles estão precisando de um banho de interior."

— Se depender de mim, eles vão ter é um banho de sangue.

— "Você acredita, Mimi, você acredita que até hoje alguns dos meus meninos nunca viram uma galinha de verdade?” 

— Por que eles não vão numa granja? Perto de São Paulo existem dezenas.

— Ah, Artur; você sabe que não é isso.

— Então é o quê?

— Você sabe que... É como a Dininha disse: "Uma galinha passando na rua, os pintinhos atrás...”.

— Galinha passando na rua...

—"A galinha ciscando..."

— Essa sua amiga é maluca...

— São essas coisas, entende? São essas coisas que ela quer...

— É maluca sua amiga.

— Não, maluca ela não é não.

— Começa pelos filhos. Ou melhor: por ter filhos, já que ter filhos é um ato de insanidade mental.

— Ter filhos é um ato de amor, Artur.

— Os ratos que o digam.

— Ter filhos...

— Já começa por aí, por ter filhos; agora, ter sete, sete filhos: isso é a própria loucura.

— Por quê? 

— Porque é.

— Eu não acho.

— E os nomes? Os nomes dos moleques...

— Quê que tem os nomes?

— Repete aí pra mim...

— Pra quê?

— Repete...

— Dagoberto, Delmiro, Dilermando, Donato, Durango, Dorval e Durval.

— Santa Maria...

— Os dois últimos são gêmeos.

— Bem feito. Deus castiga.

— Eu tenho muita dó da Dininha; muita. Já pensou, ser abandonada nova ainda, com sete filhos pequenos?...

— Eu imagino o cara: um dia ele olhou ao redor, viu aquele bando de meninos e aí pensou: "Meu Deus, quê que eu fiz?..." Pegou então a maleta, saiu de fininho e caiu no mato.

— Além do mais, a Dininha foi minha amiga de infância, minha melhor amiga. ÍJ um jeito de eu agora ajudá-la; de nós dois a ajudarmos.

— Ajudar...

— 0 que é hospedar por alguns dias uma família?

— Isso não é uma família: é uma horda.

— Nossa casa é grande; nós temos recursos, felizmente...

— 0 problema não é esse, Mimi; o problema nem é a nossa paz, que eles vão perturbar.

— Então qual é o problema?

— O problema é que eles vão acabar com tudo!

— Acabar com tudo como?

— Acabar com tudo, tudo o que tem aqui: acabar com os quadros, com as esculturas, os tapetes, as orquídeas, os bichos; eles vão acabar com tudo!

— Como você pode falar isso, se você nem conhece os meninos, Artur?

— É preciso?

— Você nem sabe como eles são.

— É uma equação, Mimi; uma equação matemática.

— Equação...

— Pensa bem: sete meninos, sete meninos de três a onze anos, sete meninos engaiolados num apartamento no centro de São Paulo: de repente esses meninos são soltos, levados para o interior e despejados numa casa ampla, com jardins, quintal, bichos... O que vai acontecer?

— Não vai acontecer nada.

— Não, não vai não...

— Não vai acontecer nada.

— Eles só vão acabar com tudo.

— Imaginação sua, Artur.

— Imaginação...

— Você que está imaginando isso.

— Os quadros e as esculturas, eu ainda podia levar para um banco, podia fazer isso. Mas e as orquídeas? E os bichos? Como que a gente vai tirá-los daqui? Onde que a gente vai pôr? E quem iria cuidar deles?

— Pense um pouco, Artur...

— Pensar o quê?

— Pense no que seria essa viagem para os meninos...

— Por que eu vou pensar nisso? 

— Você também já foi menino... 

— Já, já fui, e dou graças por não ter sido menino de capital e por nunca ter morado em apartamento; e, se mais alguma coisa preciso acrescentar por ter visto galinhas desde pequeno.

— Você também já foi filho...

— Fui, embora não exatamente por minha vontade. Mas, de qualquer forma, posso dizer que ter sido filho foi, pela mãe que eu tive, a melhor coisa de minha vida.

— Então? A Dininha também está querendo ser uma boa mãe para os filhos dela.

— Filhos...

— O quê?

— Para que filhos?...

— Para quê?...

— Será que não vão um dia parar com essa bobagem?

— Se parar, a humanidade acaba.

— Alguma objeção?

— Se não fossem os filhos, uma hora dessas nós dois não estaríamos aqui.

— Nem estaria essa debilóide nos ameaçando com essas sete pragas, com essa catástrofe.

— Bom: nós já falamos muito.

— Já.

— Vamos encerrar?

— Vamos.

— Eu não vou fazer nada.

— Não.

— Eles vêm.

— É.

— Eu até já vou comprar uma lata de biscoitos.

— E eu uma caixa de balas.

— Balas? Você?...

— Balas de revólver, my dear.

 

*Reproduzido do livro "A cabeça" (Cosac & Naify)


vil

Luiz Vilela é um premiado e veterano escritor brasileiro, nascido em Ituiutaba (MG)


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