PROESIA

Primavera*



vou morrer vou morrer e as violetas se arrebentam em cores sob um céu como este aqui Azul Azul Azul Azul e tranquilo eu vou morrer e é primavera pode um homem morrer na primavera?

ostenta o dia os seus verdes laranjas e azuis para um homem que vai morrer vamos morrer todos mas vou eu antes o braço meu no fim da cadeia de ações e é primavera talvez a morte já engatinhe nas veias minhas não sei onde a morte debaixo de um céu destes? Aqui Aqui Aqui Aqui pode um homem morrer na primavera? 

não há doença e crueldade e dor na primavera o americano errou que fazer? que faço? espero espero e pressinto os passos d'Ela na escada só um segundo mais e a porta a porta se abre e eu: fecho inapelavelmente. não.

pode um homem morrer na primavera? e o grito todo e toda a lágrima e o fio branco e a vida engasgada na garganta de quem fica? o fruto o fruto o fruto da vida engasgado na goela da mãe quando o fruto do seu ventre – cai? (é primavera é primavera é primavera caem os frutos? caem os frutos na primavera? caem caem os frutos?)

ainda há tempo olha escuta ausculta vê ela ainda não abriu a porta não abriu ainda o passo eterno ainda soa ainda soa na escada ainda soa nunca acaba de soar há tempo ainda há tempo ainda para o amor para o riso para 

não. o tempo se faz presente quando é passado está quando sai e eu saio também assim que a porta se abrir saio não me tiram saio mas fecharei atrás de mim que ninguém ninguém nenhum homem mulher mais morra tenha de morrer nem mesmo um nenhum que nenhum homem mais morra fecharei eu a porta a chave 

e agora você faz o que, morte?! rá rá rá e agora morte faz você o quê?

arromba mas me deixa me deixa pensar me deixa cantar me deixa viver morte me deixa viver me jogo aos seus pés sem honra sem pátria sem amor honra para que pátria para que amor para que agora no umbral do que já não há me jogo eu aos seus pés ó morte me deixa me deixa me deixa viver

não me deixa morrer, morte 

é primavera. pode um homem morrer na primavera? 

 

*Reproduzido do livro "a máquina de carregar nadas" (7 Letras)

mat

Matheus Guménin Barreto, cuiabano nascido em 1992, é poeta e tradutor brasileiro, pós-graduando da USP. É editor do site cultural mato-grossense Ruído Manifesto

 


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