EXCERTOS

Fragmentos da prosa Pynchoniana*



 

"Um grito atravessa o céu . Isso já aconteceu antes , mas nada que se compare com esta vez."

Primeiro parágrafo de "O Arco Íris da Gravidade"

 

***

 

"Quem se arroga a Verdade, abandona a Verdade . A História é contratada , ou coagida , apenas em favor de Interesses que sempre se revelam vis. Ela é inocente demais para que a deixemos ao alcance de qualquer um que detenha Poder – que , bastando apenas tocá-la – faz desaparecer todo o seu Crédito no mesmo instante, como se jamais tivera existido . O que ela precisa é do cuidado amoroso e honrado dos fabulistas e falsários, Cantadores de Baladas e Excêntricos dos mais variados Raios, Mestres do Disfarce que lhe proporcionem as Vestimentas, os Adornos e o Porte, Discurso ágil o bastante para mantê-la fora do alcance dos Desejos, e mesmo da Curiosidade , dos Governos."

trecho de  "Mason e Dixon"

 

***

 

"( … ) Não esqueçamos que no fundo a Guerra é uma operação de compra e venda . Os assassinatos e os atos de violência se autopoliciam, podendo ser confiados a amadores . A natureza massificadora da morte em tempo de guerra é útil sob diversos aspectos . Serve como espetáculo, para desviar a atenção dos verdadeiros movimentos da Guerra . Fornece matéria prima para ser registrada na História , de modo que as crianças futuras possam estudar a História  como sequências de violências , batalha após batalha, e desse modo preparar-se melhor para a vida adulta . O melhor de tudo é que a morte em massa estimula pessoas comuns , os pequeninos, a tentar agarrar uma fatia do Bolo enquanto ainda estão aqui e podem comer . A verdadeira guerra é uma comemoração de mercados . Mercados Orgânicos, que os profissionais têm o cuidado de rotular de  “negros” , surgem por toda a parte . Libras esterlinas, marcos , ações continuam a circular , solenes como num balé clássico , em suas anti sépticas câmaras de mármore . Mas aqui embaixo , no meio do povo , surgem moedas mais verdadeiras . Assim os judeus são negociáveis . Exatamente como cigarros , bocetas e barras de chocolate .  ( … )"

trecho de  "O Arco Íris da Gravidade"

 

***

 

"As Nacionalidades estão em movimento . É uma grande correnteza sem fronteiras a fluir .  Volksdeutsch vindos do outro lado do Oder, expulsos pelos poloneses e seguindo em direção ao acampamento Rostock , poloneses fugindo do regime de Lublin , outros voltando para suas casas, os olhos de uns e de outros , quando se encontram , ocultos sob as saliências dos malares , olhos muito mais velhos do que aquilo que os forçou a se deslocar, estonianos, letões, lituanos voltando para o norte , toda a sua lã de inverno enrolada em fardos escuros, sapatos em frangalhos , as canções são difíceis demais para cantar, não há sentido em conversar , gente dos Sudetos e da Prússia Oriental indo e vindo de Berlim e dos campos de deslocados de guerra de Mencklenburg, thecos e eslovacos , croatas e sérvios, toscos e gheghes , macedônios , magiares , valáquios, circassianos, espanhóis , búlgaros mexidos no caldeirão do Império e transbordando , colidindo, cortando as distâncias, deslizando , apáticos , indiferentes a todo ímpeto que não o mais profundo , a instabilidade tão abaixo dos seus pés que não se pode dar-lhe forma, pulsos e tornozelos brancos incrivelmente descarnados a destacar-se dos pijamas listrados de prisioneiros , passos leves como passos de aves nesse pó interiorano , caravanas de ciganos , eixos e cavilhas quebrando , cavalos morrendo , famílias abandonando à beira da estrada veículos que servirão de abrigo noturno para outras, pelas Autobahns brancas e quentes , trens abarrotados de alemães nos vagões que atravessam os viadutos, dando passagem para comboios militares, bielorrussos sofridos seguindo para oeste , ex prisioneiros de guerra casaques marchando para leste , ex combatentes da Wehrmacht oriundos de outras partes da velha Alemanha , tão estrangeiros na Prússia quanto qualquer cigano , carregando suas mochilas surradas , embrulhados nos cobertores do exército que ainda guardam , os triângulos verde  claros de agricultor costurados à altura do peito em cada túnica oscilando , a uma certa hora do poente , como chamas de vela numa procissão religiosa  – hoje supostamente seguindo para Hanôver , supostamente catando batatas no caminho , já faz um mês que andam atrás dessas inexistentes plantações de batata – “Saqueadas” , um ex corneteiro mancando com um pedaço comprido de uma dormente à guisa de bengala , seu instrumento , curiosamente intacto e reluzente , a tiracolo , ” devastadas pelas SS, Bruder, já , todas as plantações de batata, e por quê ? Álcool . Não é para beber , não – álcool pros foguetes . Batatas que a gente poderia estar comendo , álcool que a gente poderia estar bebendo . Não dá pra acreditar .” ” O que , os foguetes ? ” ” Não, as SS, catando batatas ! ” olhando a sua volta para ver se alguém ri  . Mas aqui não há ninguém para seguir os floreios de seu coração menos solene  . Esses homens eram infantes , sabem cochilar entre um passo e outro – a alguma hora da madrugada vão sair  da forma e da pista, um precipitado momentâneo da química industrial  destas noites inquietas, enquanto o fervilhar invisível prossegue, os longos vórtices espalhados  – ternos listrados , com cruzes pintadas nas costas , uniformes da marinha e do exército esfarrapados , turbantes brancos, meias descasadas , sapatos sem meias , vestidos xadrez , grossos xales de tricô com bebês dentro, mulheres com calças de soldados rasgadas à altura do joelho , cães pulguentos latindo e correndo em bandos , carrinhos de bebês transportando pilhas de móveis leves de compensado arranhado , gavetas ajustadas à mão que nunca mais vão entrar em gaveteiro algum , galinhas roubadas vivas e mortas , trompas e violinos em estojos pretos surrados , colchas, harmônios, relógios de pêndulo, caixas de ferramenta de carpintaria , relojoaria , cirurgia e trabalhos em couro , retratos de filhas rosadas em vestidos brancos , santos sangrando , arrebóis marítimos salmão e violeta , malas contendo boás com olhos de conta , bonecas que sorriem com lábios violentamente vermelhos , soldadinhos Allgeyer de três centímetros de altura pintados de creme , dourado e prateado , punhados de ágatas centenárias mergulhadas em mel que adoçou linguas de bisávos há muito transformados em pó , depois banhadas em ácido sulfúrico para queimar o açúcar em faixas, variando de marrom a negro , imortais interpretações ao piano registradas  em rolos Vorsetzer, lingerie preta com lacinhos , talheres de prata com enfeites de flores e uva , garrafas ornamentais de cristal facetado, xícaras jugendstil em forma de tulipa , fios de conta de âmbar … e as populações se deslocam , atravessando o campo aberto , uns mancando , outros marchando , arrastando-se , sendo carregados , levando consigo os detritos de uma ordem , uma ordem européia e burguesa que , eles ainda não sabem , foi destruída para sempre."

trecho de "O Arco íris da Gravidade"

 

***

 

"O que são as coxas abertas para o libertino, o vôo das aves migratórias para o ornitólogo, a parte móvel da ferramenta para o mecânico de produção , assim era a letra V para o jovem Stencil . Sonhava talvez uma vez por semana que fora tudo um sonho , e que agora que estava desperto ia descobrir que a busca de V. era apenas uma pesquisa escolar afinal , uma aventura da mente , na tradição de ” O Ramo Dourado ” ou da Deusa Branca  .

Mas logo despertava uma segunda vez, a vez real , e fazia de novo a cansativa descoberta de que aquilo na verdade nunca deixara de ser a mesma busca obstinada , literal ; V. ambiguamente uma besta venérea , caçada como o veado , a corça ou a lebre , caçada como uma forma mórbida, obsoleta ,  bizarra, ou esquecida, do prazer sexual . E o palhaço Stencil cabriolando atrás dela , chocalhos  badalando , brandindo um chuço de madeira , de brinquedo .

Seu protesto para Margravine di Chiave Lowenstein ( desconfiando de que o habitat natural de V. seria o estado de sítio , fora diretamente de Toledo a Mollorca, onde passara uma semana andando à noite pelo Alcazar, fazendo perguntas , recolhendo lembranças inúteis ) : ” Não é espionagem ” ,  fora , e ainda era , dito mais por petulância que por qualquer desejo de estabelecer alguma pureza de motivo . Gostaria que tudo pudesse ser tão respeitável e ortodoxo quanto a espionagem  .

Mas , de algum modo , em suas mãos as ferramentas e atitudes tradicionais acabavam sempre empregadas para fins menores : a capa para saco de roupa suja , a adaga para descascar batatas ;  os dossiês , para anotar tardes mortas de domingo ; pior que tudo , o próprio disfarce  não era para alguma necessidade profissional , mas apenas um truque ,  simplesmente para envolvê-lo menos na caça , passar parte da dor do dilema para várias “personificações ” .

Herbert Stencil , como as crianças em certo estágio e Henry Adams em “Educação” , e autocratas vários desde tempos imemoriais , sempre se referia a si mesmo na terceira pessoa . Isso ajudava ” Stencil ” a aparecer como uma das várias identidades do seu repertório . “Forçoso deslocamento de personalidade ” era o nome que ele dava à técnica geral , o que não é exatamente o mesmo que ” ver o ponto de vista de outro cara ” ; pois envolvia , digamos , o uso de roupas nas quais nem morto ele gostaria de ser apanhado , comer comidas que o fariam ter engulhos , morar em antros desconhecidos , frequentar bares e cafés de caráter não stenciliano , e tudo isso por semanas a fio ; e por quê ? Para manter Stencil em seu lugar  : isto é , na terceira pessoa .

Em torno de cada semente de dossiê , portanto , desenvolvera-se uma nacarada massa de inferência , licença poética , forçoso deslocamento de personalidade para um passado que ele não lembrava e ao qual não tinha direito , a não ser o direito de ansiedade imaginativa ou cuidado histórico , que não é reconhecido por ninguém . Ele cuidadva de cada concha marinha de sua fazenda submarina , terno e imparcial , movendo-se desajeitado em torno de seu cercado no leito do porto , evitando cuidadosamente o pequeno buraco bem no meio das conchas domesticadas , no fundo do qual só Deus sabia o que vivia : A ilha de Malta , onde seu pai morrera , onde Herbet nunca fora e da qual nada sabia , porque alguma coisa ali o mantinha à distância , porque o assustava."

Trecho de "V"

 

***

 

"Nessa noite , 15 de Abril , David Ben – Gurion avisou ao seu país , num discurso do Dia da Independência , que o Egito planejava massacrar Israel . Uma crise no Oriente Média vinha se avolumando desde o inverno . A 19 de abril , entrava em vigor um cessar fogo entre os dois países  . Grace Kelly casava-se com o Príncipe Rainier III de Mônaco no mesmo dia  . A primavera esvaía-se assim , grandes correntes e pequenas marolas resultando igualmente em manchetes  . As pessoas liam as notícias que queriam e construíam de acordo com elas seus ninhos de rato com os trapos e palhas da história . Na cidade de Nova York  , só Deus sabia o que se passava pela mente dos ministros de gabinete , chefes de Estado e funcionários públicos  das capitais do mundo . Sem dúvida suas versões pessoais da história se mostravam em ações  . Se prevalecesse uma distribuição normal de tipos , mostravam-se.

Stencil fugia ao padrão  . Funcionário público sem graduação , arquiteto de intrigas e conspirações por necessidade , devia ter-se inclinado , como seu pai , para a ação . Mas em vez disso passav seus dias numa certa vegetatividade , conversando com Eigenvalue , esperando que Paola revelasse como se encaixava naquela grande e gótica pilha de inferências que ele se esforçava por criar . Claro , havia também suas ” pistas ” , que ele perseguia agora afetadamente e apenas meio interessado , como se devesse afinal estar fazendo alguma coisa mais importante  .

Mas sua missão não se tornava mais clara , na verdade , do que a forma última daquela estrutura em V – não mais clara , na verdade , que o motivo pelo qual tivera de começar a buscar V . inicialmente . Sentia apenas ( dizia “por instinto ” ) quando um fiapo de informação era útil , quando não  : quando uma pista devia ser abandonada , quando acuada até o inevitável beco sem saída . Naturalmente , em investidas intelectualizadas como as de Stencil , não se pode tratar de instinto : a obsessão era contraída , sem dúvida , mas em que ponto ao longo do percurso , e como , diabos ? A menos que ele fosse , como insistia , apenas um homem do século , algo que não existe na natureza  . Seria simples , no dialeto de Rusty Spoon , chamá-lo de homem contemporâneo em busca de identidade  . Muitos deles já haviam concluído que este era seu problema  . O único problema era que Stencil tinha todas as identidades que podia aguentar convenientemente no momento: era , em seu estado mais puro , Aquele que busca V.  ( e quaisquer encarnações que isso envolvesse ), e ele não era mais sua identidade que o dentista da alma Eigenvalue ou qualquer outro membro da Turma.

Isso trazia , contudo , uma nota interessante de ambiguidade sexual . Que piada se no fim daquela caçada ele se visse frente a frente consigo mesmo sofrendo de uma espécie de travestismo da alma . Como a Turma iria morrer de rir . Na verdade ele não sabia qual seria o sexo de V. , nem mesmo seu gênero ou espécie . Seguir presumindo que a turista Victoria ou a ratzana de esgoto Verônica eram uma única e mesma V. não era nada que exigisse mentempsicose alguma  : apenas afirmar que sua caça se enquadrava na Grande , na cabala mestra do século ,como Victoria se enquadrava na conspiração de Vheissu e Verônica na nova ordem dos ratos . Se ela era um fato histórico , então continuava ativa hoje e agora , porque a última Conspiração Anônima ainda estava irrealizada , embora V. pudesse não ser mais ela do que um navio ou um país.

No início de maio , Eigenvalue apresentara Stencil a Bloody Chiclitz, presidente da Yoyodyne Inc. , uma empresa com fábricas espalhadas ao acaso pelo país afora e com mais contratos com o governo do que realmente sabia o que fazer deles.  Em fins da década de 40 , A Yoyodyne funcionava confortavelmente como a Cia de Brinquedos Chiclitz , uma lojinha de brinquedos minúscula de fabricação independente nos arredores de Nutley , New Jersey . Por algum motivo , as crianças da América conceberam por essa época um desejo simultâneo e psicopático de simples giroscópios , do tipo que se movimenta com um barbante enrolado em torno do eixo de rotação . Chiclitz, reconhecendo nisso um mercado potencial , decidiu expandir-se . Estava bem encaminhado para açambarcar o mercado de giroscópios de brinquedo quando surgiu um grupo de colegiais em excursão e observou que aqueles brinquedos funcionavam segundo o mesmo princípio do girocompasso .

– Do quê ? – perguntara Chiclitz .

Explicaram-lhe o girocompasso , e outros de outros tipos.

Chiclitz lembrava-se vagamente de ter lido numa revista comercial que o governo vivia sempre em busca dessas coisas no mercado . Usavam-nas em navios , aviões, e mais recentemente em mísseis . ” Bem ” , imaginou Chiclitz , ” e por que não ? ”  As oportunidades para pequenas empresas na época eram descritas como abundantes . Antes que ele soubesse como , estava também na instrumentação de telêmetros, componentes de aparelhos de testes, equipamentos de pequenas comunicações  . Continuou expandindo-se , comprando , fundindo-se . Agora, menos de dez anos depois , construíra um reino entrelaçado responsável por administração de sistemas , fuselagens aéreas , propulsão , sistemas de comando , equipamento de apoio de terra . Dyna  ( dina ) , dissera-lhe um engenheiro recém contratado , era uma unidade de força . Assim , para simbolizar os humildes começos do império Chiclitz e dar idéia de força , empreendimento, habilidade em engenharia , capacidade e brutal individualismo também , Chiclitz batizara a companhia de Yoyodyne .

Stencil percorrera uma fábrica em Long Island . Entre instrumentos de guerra , raciocinava , poderia surgir alguma pista da cabala . E apareceu . Ele vagava por uma região de escritórios , pranchetas de projetos , arquivos de plantas . Logo descobriu , sentado meio escondido numa floresta de arquivos, e bebendo de vez em quando o café em copo de papel que para o engenheiro de hoje é praticamente o uniforme do dia , um cavalheiro calvo e porcino , num terno de corte europeu . O engenheiro chamava-se Kurt Mondaugen , e trabalhara , sim , em Peenemunde, desenvolvendo Vergeltugswaffe Eins and Zwei.

A inicial mágica ! Em breve a tarde passara e Stencil marcara um encontro para renovar a conversa .

Mais ou menos uma semana depois , num dos escondidos cubículos laterais de Rusty Spoon, Mondaugen contava histórias, diante de uma abominável imitação de cerveja de Munique , sobre seus dias de juventude no Sudoeste Africano .

Stencil ouvia atento . A história propriamente dita e o interrogatório depois não levaram mais de trinta minutos . Contudo , na tarde da quarta feira seguinte , no consultório de Eigenvalue , quando Stencil a contou , a história sofrera considerável mudança : tornara-se, como disse Eigenvalue , stencializada."

trecho de “V.”

 

***

 

ESCUTANDO A PRIVADA

A ideia básica é que Eles vão vir e desligar a água primeiro . Os criptozoários que vivem perto do medidor serão paralisados pela grande eclosão de luz vinda do alto …depois vão dispersar-se, enlouquecidos , rumo a níveis mais baixos , mais escuros , mais úmidos .  Fechada a água , a privada fica interditada : só restando um tanque cheio , não se pode mais livrar-se de praticamente nada : droga ,merda, documentos  . Eles bloquearam os fluxos de entrada/saída aqui , e você está preso no fotograma d’Eles, esperando que Eles acionem sua lâmina de montador . Lembrando-se , tarde demais , do quanto você depende d’Eles, menos da boa vontade do que da negligência : a negligência d’Eles é a sua liberdade . Mas quando Eles vêm é como Apolos de baile de debutante, tangendo a lira

ZONGGG

Tudo se imobiliza . O acorde doce , grudento , paira no ar … não há como sentir-se á vontade com ele . Se você tentar o gambito do “O senhor já terminou , superintendente ? ” , o homem vai responder  : ” Não , não terminei não , seu sujeitinho metido a besta . Você vai ter que me aturar por um bom tempo … ” .

Assim , não custa manter a válvula da descarga sempre um pouco aberta , para manter o fluxo na privada de modo que , quando parar , você tenha um ou dois minutos de lambuja . O que não é a paranóia normal de esperar que alguém bata à porta ou que o telefone toque  : não , há que ter uma doença mental específica para ficar sentado esperando o cessar de um ruído  . Porém –

Imagine esta mentira científica muito requintada  : o som não se propaga pelo espaço sideral . Pois bem , imagine que ele se propaga, sim . Imagine que Eles não querem que a gente saiba que existe um meio lá fora , o que outrora chamava-se “éter” , o qual permite que o som se propague para todas as partes da Terra . O Éter Sônico . Há milhões de anos que o Sol ruge , um rugido de fornalha gigantesca a 150 milhões de quilômetros, tão perfeitamente uniforme que incontáveis gerações de seres humanos nasceram e morreram ouvindo-o , sem jamais escutá-lo . Pois, desde que ele não se alterasse, como é que alguém poderia percebê-lo ?

Só que à noite , de vez em quando , em alguma parte do hemisfério escuro , devido a torvelinhos no Éter Sônico, ocorre um mínimo bolsão de silêncio . Por alguns segundos, num lugar específico , quase todas as noites em algum ponto do Mundo , a energia sonora que vem do espaço se interrompe .

O rugido do Sol para. A breve existência desse cone de sombra acústica pode transcorrer a trezentos metros acima de um deserto , entre dois andares de um prédio comercial vazio , ou exatamente em volta de um indivíduo sentado num restaurante para trabalhadores onde lavam o chão com mangueiras às três da manhã todos os dias … tudo ladrilho branco , cadeiras e mesas cravadas no chão , comida coberta por mortalhas rígidas de plástico transparente … logo em seguida vem de fora o rrrnnn ! planc, guincho de válvula se abrindo e sim , ah sim , Lá Vêm Os Homens Das Mangueiras Para Lavar O Chão –

Eis que senão quando , sem aviso prévio , a ponta de pena da Sombra Sônica toca você , envolvendo-o em silêncio solar , digamos , das 2h36min18 às 2h36min24 , fuso horário central , horário de guerra , a menos que a localidade seja Dungannon, Virgínia, ou Bristol , Tennessee, ou Asheville ou Franklin , Carolina do Norte , ou Apalachicola , Flórida , ou quem sabe Murdo Mackenzie , Dakota do Sul , ou Phillipsburg , Kansas ou Stockton, Plainville, ou Ellis, Kansas – é mesmo , parece uma Lista de Homenageados , não é ?, sendo lida em algum lugar da pradaria , cores de fundição riscando o céu em longas calhas , vermelhas e roxas , multidão escura de civis eretos e quase se tocando , como talos de trigo , e um único velho de preto diante do microfone , lendo os nomes das cidades que perderam os filhos na guerra , Dungannon … Bristol … Murdo Mackenzie … cabelos brancos que um vento vossas – cidades – alabastrinas transforma numa juba , seu rosto velho , tenso e corroído polido pelo vento , amarelado da luz , os cantos das pálpebras descendo sérios cada vez que os nomes das cidades mártires , um por um , ecoam na bigorna da planície , e certamente Bleicheröde ou Blicero será mencionada agora  …

Pois bem , você está redondamente enganado , campeão  – essas cidades são todas localizadas nas fronteiras de Fusos Horários , só isso . Ha , ha ! Apanhei-te com a boca na botija . Vamos , agora mostre tudo que você estava fazendo ou então caia fora da área , não precisamos de gente da sua laia , não . Nada é mais asqueroso do que um surrealista sentimental .

“Pois bem – as cidades do Leste que citamos são todas do fuso horário do leste , em horário de guerra. Todas as outras da interface são do fuso central . As cidades do Oeste que acabam de ser lidas são do fuso central , enquanto as outras cidades daquela interface são do fuso montanhês … “

E isso é tudo que nosso Surrealista Sentimental , caindo fora da área , tem tempo de ouvir . Menos mal . Ele está mais envolvido , ou ” morbidamente obcecado ” , se você preferir, com o momento de silêncio solar dentro do boteco de ladrilhos brancos .  Parece-lhe um lugar onde ele já esteve ( Kenosha , Wisconsin ? ), se bem que ele não lembra em que circustâncias . Outrora o chamavam de ” Garoto Kenosha ” , se bem que isso talvez seja apócrifo . A essa altura , o outro recinto onde ele já esteve de que se lembra era uma sala em duas cores , só havia exatas duas cores , em todos os abajures , móveis , cortinas , paredes , teto , tapete , rádio , até mesmo as sobrecapas dos livros nas estantes – tudo era bem (1) Azul Marinho Escuro de Perfume Barato (2) Marrom Chocolate Cremoso de Sapato de Agente do FBI . Isso talvez tenha sido em Kenosha , talvez não . Se fizer força , ele vai conseguir lembrar , dentro de um minuto , como é que foi parar naquela sala de ladrilhos brancos trinta minutos antes da hora de lavar o chão com mangueiras . Ele está sentado , com uma xícara de café meio cheia , muito açúcar e creme de leite , restos de um folheado de abacaxi sob o pires, onde seus dedos não alcançam . Mais cedo ou mais tarde ele vai ter que levantar o pires para pegá-los . Ele está só adiando . Mas não é nem mais cedo nem mais tarde porque

a sombra sônica desce sobre ele ,

instala-se em torno de sua mesa, com as invisíveis superfícies alongadas do vórtice que a trouxeram aqui avançando como torvelinhos de um Folheado Etéreo , audíveis apenas graças a fragmentos eventuais de som que por acaso tenham sido envolvidos pelo redemoinho , vozes longínquas em alto mar nossa posição é vinte e sete graus vinte e seis minutos norte , uma mulher chorando em alguma língua aguda , ondas oceânicas em meio a um vendaval , uma voz recitando em japonês :

Hi wa Ri ni katazu

              Ri wa Ho ni katazu

                            Ho wa Ken ni katazu

                                             Ken wa Ten ni katazu

o que é o slogan de uma unidade de Camicases , equipada com Ohka – o significado é :

Injustiça não pode conquistar Princípio

Princípio não pode conquistar Lei

Lei não pode conquistar Poder

Poder não pode conquistar Céu

Hi , Ri , Ho , Ken , Ten saem falando japonês pelo longo torvelinho solar e deixam o Garoto Kenosha na mesa fixa , onde o rugido do Sol cessou . Ele está ouvindo , pela primeira vez , o caudaloso rio de seu sangue , o tambor titânico de seu coração .

Venha sentar-se  com ele à luz da lâmpada, com o estranho na pequena mesa de botequim . É quase hora da mangueira  . Veja se você consegue entrar na sombra também . Mesmo um eclipse parcial é melhor do que jamais descobrir –  melhor do que passar o resto da vida encolhido sob o grande Vácuo celeste que lhe ensinaram , e um Sol cujo silêncio você nunca ouve .

E se não houver vácuo ?  Ou se houver – e se Eles o estiverem usando para enganar você ? E se Lhes interessar pregar que a vida é uma ilha cercada por um vazio  ? Não apenas a Terra no espaço , mas sua própria vida individual no tempo  ? E se interessar a Eles que você acredite nisso ?

” Esse ai não vai nos incomodar por algum tempo ” , comentam Eles . ” Eu acabei de mergulhá-lo no Sono Escuro ” . Bebem juntos, injetam drogas sinteticíssimas sob a pele ou na veia , canalizam incríveis formas ondulatórias eletrônicas para dentro de Seus crânios, diretamente no bulbo raquiano , e falam um com o outro a meia voz , de brincadeira , rindo boquiabertamente  – você sabe , não é ? estampado naqueles olhos sem idade  … Falam em pegar Fulano e  ” mergulhá-lo no Sono ” . Usam a expressão referindo-se um ao outro , também , numa ternura estéril , quando as más notícias são transmitidas , nos Banquetes d’Escárnio anuais, quando as infindáveis brincadeiras mentais pegam um dos colegas desprevenido – ” Puxa , a gente mergulhou o fulano no sono direitinho ” Você sabe , não é ?."

Trecho de  ” O Arco Íris da Gravidade ”

 

*Textos reproduzidos do site https://ilhavirtual.wordpress.com



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