CONTO

Um amor anarquista*



Sobre uma banqueta de madeira, deixada ao lado de minha cama, estreita igual à dos demais solteiros, coloquei uma lata com flores silvestres, para que Jean Gelèac encontrasse ambiente agradável. Ele está com o grupo desde meados de 1891 e nunca teve mulheres, recusara o amor fácil de Narcisa, que mais espalhou a discórdia entre casados e solteiros do que amenizou a falta de fêmea. Tímido e jovem, um tanto romântico como sempre somos aos vinte anos, Gelèac tem se dedicado ao vício da virtude, resolvendo-se sozinho. Seu rosto está coberto de espinhas e, ao contrário dos homens casados, ou dos mais maduros, acostumados à solidão destas matas, ele tem a pele cor de papel e os olhos fundos, revelando ânsia de amor.

Falei seriamente com ele, estava precisando de mulher, e ele me disse que não, agüentava bem a vida na Colônia, mas bastava ver aquele rosto para perceber o quanto sofria. As mulheres casadas, mesmo se quisessem, e desgraçadamente elas não querem, não poderiam dar-lhe o carinho que merece. Decidi então compartilhar minha cama com ele.

Troquei também os lençóis — seria a primeira vez com uma mulher de verdade, e ele merecia algo bonito pelo que fizera à Colônia, por sua coragem e abnegação. Eu estava excitado por poder proporcionar aquele momento de amor.

Adele chegou quando a cama estava arrumada. Vinha com um de seus vestidos velhos, remendado na altura da barriga e ao lado da cintura, fino de tanto ser lavado, revelando o corpo miúdo, mas bem-feito, de mulher madura e saudável — esta saúde seria o remédio de Gelèac. Ela não estava nem expansiva nem acanhada, aproximou-se e me beijou na boca, numa entrega pacífica e silenciosa — senti sua pele fresca e os cabelos ainda úmidos do banho vespertino. Por um momento, tive vontade de ficar com ela no quarto, de trancar a porta de nossa casinha e convidá-la para se deitar; eu também me encontrava órfão de amor. Poderia ficar com ela até o amanhecer, não deixando ninguém tocar naquele corpo, mas este pensamento se desfez logo. Fui à janela e a fechei para que não entrassem pernilongos. Ela acendeu a lamparina pendurada na parede.

*Texto reproduzido do livro "Um amor anarquista" (Editora Record) 

hugo harada

mig

Miguel Sanches Neto (1965) é paranaense, crítico literário, professor e escritor. Vencedor de vários prêmios


Voltar  

Confira também nesta seção:
12.12.18 17h00 » Ladrões e como tratá-los*
10.12.18 14h00 » é tudo sal, plâncton, areia e bicho morto*
07.12.18 19h30 » Nem a Rosa, nem o Cravo...*
05.12.18 18h00 » A moça tecelã*
03.12.18 11h00 » Duplex...*
30.11.18 18h00 » Rotina sagrada*
28.11.18 17h00 » Madame Bovary*
26.11.18 13h00 » Bam-Bam
23.11.18 19h00 » As cores do arco-íris*
21.11.18 18h00 » Um e outro*
19.11.18 11h00 » Brooksmith*
16.11.18 19h00 » O Gato por Dentro (trechos)*
14.11.18 18h00 » Cantos de Maldoror (Trecho)*
12.11.18 16h00 » PanAmérica (trechos)*
09.11.18 19h00 » O Sorriso Roubado*
07.11.18 18h00 » Cego e amigo Gedeão à beira da estrada*
05.11.18 16h00 » Rosa dos Ventos - ou o desejo de uma ceia a dois*
02.11.18 18h00 » Ficção em sala de professores*
31.10.18 17h44 » Gente de quem?*
29.10.18 17h00 » Transas das sextas-feiras*

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet