CONTO

Missa de sétimo dia



Logo depois da missa. Aquela mulher linda e maravilhosa me explicando a cabeça do escritor que se foi. Eu e o meu amigo também amigo do escritor que havia se ausentado embasbacados. Aquela boniteza que fluía na aparência e no verbo. Aquela experiência jamais abandonou a minha cabeça - cravada na memória, dessas coisas que merecem ser emolduradas. E reproduzidas.

É o que o contista humilde trata de fazer aqui. A motivação toda desse 'revival' deve ser imputada à uma amiga que, dez anos depois daquela missa, também conhecia essa mulher lindeza. "Ela não repete roupa". Pronto, estava selado o comentário feminino de uma mulher em relação à outra. Dizem que as mulheres se produzem para outros olhares femininos, não para os homens. Passei a acreditar mais nessa teoria.

Não espero jamais me livrar do impacto do meu encontro e breve diálogo com o objeto do desejo (meu e) desta breve narrativa que, devo dizer, é meramente ficcional. 

Eu estava inebriado com a estética daquele rosto anguloso. Não tive como reparar na indumentária daquela fêmea arrebatadora. O que eu sentia mesmo, pra ser mais verdadeiro, a cada palavra que brotava daquela boquita mui discretamente pintada, era a vontade de me aproximar mais da mulher. Eu precisava sentir o frescor de seu hálito, amparado pela definição concisa de Rilke. Música: hálito das estátuas.

Bom, já que falei de Rilke, o único personagem nominalmente citado nesta ficção minúscula, aquela situação após a missa, quando fiquei diante da tal mulher, merece ainda a menção ao poema 'pantera', do artista de Praga. Um felino enjaulado, impotente  diante das grades, mas não aquelas grades diante das quais a poesia se desnuda como um meridiano. Mas, sim, aquelas grades que nos cerceiam e, estupefatos, nos vemos obrigados a interromper quaisquer gestos ou possibilidades animalescas. É quando nos resta apenas a acomodação do estado contemplativo.

Então, a mulher de beleza raríssima e conhecimento humano em demasia, com um domínio espetacular da comunicação verbal, prolongava meu estado hipnótico. Quanta estética, quanta precisão, ao tergiversar em torno das suas relações com o escritor ausente.

Cartas para o além. Eis um bom nome para uma possível nova narrativa breve, a sequenciar este conto. É que passado o efeito alucinógeno, que durou assim uma década, achei-me no direito de nublar a minha relação com o escritor que evaporou-se deste mundo. Uma raiva, uma raivinha 'do bem', brotou contra o escritor. Pelo simples fato de ele jamais ter me confidenciado sobre suas sessões de diálogos com aquela mulher que aqui estou a endeusar. O amigo escritor, que também era meu confidente, saiu de fininho e ficou me devendo essa.

Meus queridos e queridas leitores e leitoras, claro que o que estou aqui narrando, na vida real, não existe. Ou pelo menos não deveria existir. Nossas vidas, seriamente pensando e dizendo, não necessitam de experiências similares a esta. Embora, se nada semelhante nos acontecer ao longo da nossa trajetória por estas bandas, quando partirmos, ficará a sensação de que a vida nos ficou devendo algo.

Ora... Ora. Onde já se viu uma mulher que não repete roupa, uma mulher que sabe explorar as possibilidades infinitas das combinações do seu vestuário. Dos pés à cabeça, passando por um ventre celestial, (ul)trajes reinventados com elegância harmoniosa. E lembrar que as anáguas, faz tempo, já foram abolidas.

Retratar alguém assim só pode ser coisa de quem não tem o que fazer, ou não se contenta com a monotonia da realidade. 


(por motivos indesejados, o Tyrannus não foi atualizado no último sábado (31)... aceitem o nosso pedido de desculpas e agradecemos pela sua visita nesta nova edição) 

 

mauricio barbant

loro

Lorenzo é jornalista e ativista cultural. Também lhe cabe a função de redator do Tyrannus Melancholicus








 

 


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