ROMANCE (trecho)

Xibio*



Acordo confusa, com a saudade no peito, uma dor de não sei onde. Como se o meu dia fosse regido necessariamente pela figura masculina. Começo o dia lavando a roupa suja que se acumula. A máquina vai batendo enquanto preparo o café bem quente. Ouço as notícias na televisão - está ligada pra me fazer companhia apenas. Não presto atenção ao que o repórter noticia. Penso nele. Como teria acontecido sua morte? Vou me distraindo com esses pensamentos enquanto lavo a louça e vejo escorrer pequenos pingos de água por entre as peças no escorredor. O cachorro late e pede um pouco de atenção. Esfrega o nariz com a ponta da pata direita e lambe-se vagarosamente pra demonstrar meiguice. Deita e rola aos meus pés, fazendo tudo pra ganhar um chamego. E eu existo. Ele desiste, coloca o rabinho entre as pernas e deita longe, olhando pra mim. Deixo pra trás as coisas da cozinha e subo com o balde pra passar pano nos quartos. A faxina é necessária e me faz bem. Vou esparramando o cheio dos produtos e a limpeza vai reinando com um cheiro bom, feito triunfo. As leituras se acumulam no criado mudo, que apenas me olha enquanto limpo seus pés. Puxo pra frente e pra trás cada um dos pequenos móveis a fim de deslizar o pano com o rodo entre as partes. O movimento de vai e vem vai trazendo a poeira, pelos, pequenas partículas de sujeira que vão amarronzando o pano e a água do balde. Saco com pouca destreza e distração um dos criados de seu lugar e me surpreendo com um pequeno incidente. Do alto de meu altar diminuto pro qual não olho há dias, vejo cair lentamente a estátua de São Sebastião, do querido e amado santo. Vejo-a partir-se em poucos pedaços em contato com o chão. Pareço levar uma flechada agora, o peito lacerado pela quebra da imagem que se despedaça. Eu era como a estátua de meu santo, possuidora de ossos frágeis, abdome estreito e um quadril avantajado. Por dentro parecia meiga, mas não o era. Sugeria submissão, mas não oferecia a cabeça baixa pra qualquer um.

 

*Trecho do romance "Xibio" (Carlini & Caniato), de Luiz Renato Souza Pinto, livro que fecha trilogia do autor e está em vias de ser lançado

bela

luiz

Luiz Renato, além das lides com as letras, tem experiências em outras artes. Na foto acima, por exemplo, está paramentado como um garçom que serve versos e letras

 


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