CRÔNICA

De como a literatura entra em nossas vidas



Não tenho e nem almejo ter algum tipo de certeza absoluta a respeito de pra que serve a literatura. Só sei que ela entra em nossas vidas e nunca mais sai. Cravada e gravada, conosco, em nossas cabeças e desdobrando-se em nossos cotidianos segue se enraizando. Depois cresce como uma árvore, cuja copa, vai sombrear nossa existência.

Acho que é meio poesia o que afirmo aqui, mas vamos lá. Se você gosta de ler e o faz bastante, a tal da literatura há de produzir frutos, que antes de materializados, serão flores, habitando a sua cabeça. E enquanto flores, as letras estarão se formatando na sua cachola. Vão virar frutos quando você escrever. Em prosa, ou verso...

Claro que ninguém que gosta de ler é obrigado a escrever. Escrever, ou não, é uma questão pessoal. Algo que, talvez, precise ser resolvido. 

Noutros casos a literatura não é tão invasiva em nossas vidas. Ela entra e fica por ali, como quem nada quer, mas, acaba pontificando quando pinta uma oportunidade.

Foi assim, por exemplo, que surgiu Troppo, um gatinho abandonado que começou a frequentar a casa do Tyrannus em 2011. Ele vinha, a princípio, seguindo um gato mais velho, o Zé Preto, que nasceu aqui em casa, mas desde bem jovem mostrava-se um felino com tendências a explorar as vizinhanças. 

Troppo entrava pelo portão na cola de Zé Preto. Habitava uma casa vizinha que tinha pouco movimento, refugiando-se sob um monte de tábuas velhas, quando se sentia ameaçado. A princípio, vinha até o nosso jardim, soltava um pequeno miado e, quando saíamos para conferir a sua voz, fugia desesperado para o seu esconderijo. 

Tratamos de ir cevando-o, pois era muito bonito. Meio siamês, com olhos azuis aguados, e com o porte de um lince, foi achegando-se. Aos poucos acabou se estabelecendo por aqui. E lá se vão mais de sete anos que habita o espaço doméstico deste Tyrannus. É um dos seis felinos com os quais convivemos. Mesmo castrado, meio que exerce o papel de macho alfa, embora o necessário empoderamento feminino também seja confirmado no lar Tyrannus. 

Já assumido como habitante da casa, mas apreciador dos passeios noturnos, num dia triste, Troppo voltou pra casa com o fêmur quebrado. Foi tratado com os devidos cuidados veterinários e operado, mas, não houve jeito de recuperar o osso da sua perna. Tornou-se manco.

"Ele vai ficar aleijado", disse a saudosa Fátima, com lágrimas nos olhos. A veterinária que acompanhava o caso de Troppo, confidenciou-me que o gato não teria o menor problema com isso, pois não tinha a menor ideia de o que era ser aleijado. De fato, Troppo, mesmo com apenas três patas cem por cento, fazia de tudo, correndo pra lá e pra cá, demonstrando a felicidade de um ser vivente que não tinha problemas.

...

Mas, e onde é que a literatura entra nessa história?

Ora, entrou por causa do Cristóvão Tezza, um dos escritores mais respeitados da contemporaneidade das letras barsileiras. Ele veio a Cuiabá, para palestrar, justamente, na época em que Troppo estava se ambientando no domicílio Tyrannus, em 2011. 

Eu e a Fátima fomos à palestra e compramos "Trapo", livro do Tezza, que devoramos rapidamente. Aqui em casa, escolher o nome de um bicho é coisa a ser feita caprichosamente. Influenciado pelo romance do escritor, sugeri:

"Vamos chamá-lo de Trapo...". Mas eu mesmo percebi que o nome poderia soar um pouco depreciativo para um bichano tão garboso.

"Ah, não... e se a gente o chamar de Troppo?", argumentou a Fátima.

E assim ficou. E ai de quem disser que Troppo ("muito" ou coisa que o valha em italiano) não tem nada a ver com literatura.

troppo

Troppo e o livro de Cristóvão Tezza, em 2011, fotografado por Fátima Sonoda




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