CONTO

Das parcerias que nascem desfeitas*



O fim: Souza achou que não faria a menor diferença, não pra Melanie. Estavam juntos há coisa de um ano, ela e o grupo, e eles dois há uns três meses. Mas em outro nível. Da cama pras reuniões pra cama pros assaltos pros bancos traseiros pros bares pros banheiros imundos com as portas de trinco quebrado.

O começo: ele foi o típico cara certo no lugar certo na hora certa.

Cara certo: Souza cresceu numa família pancada. Depois que o pai faleceu, baleado numa briga com um vizinho na cidadezinha em que moravam, viajou com a mãe roubando postos de gasolina e mercados de bairro. Sua irmã ainda era muito pequena pra entender qualquer coisa, então a maior parte do tempo ele ficava no banco traseiro cuidando dela, balançando a cadeirinha, enquanto a mãe ia e voltava, esbaforida, com a sacola cheia jogada no banco do carona. Até o dia em que ele, aos oito anos, perguntou onde tavam chegando, apontando uma placa. A mãe deixou os filhos com uma irmã, que os colocou na escola. Antes de se formar, a mãe voltou e o levou de volta pra estrada, treinando-o como motorista prum assalto a banco que acabou com ela plantada num hospital pra morrer pouco depois. Com 15 anos, ele escolheu continuar com o resto do grupo da mãe, um bando de salafras que vivia de roubos pequenos e arriscados, e assim terminou de se criar. Um morria, outro ia preso, outro desaparecia, e os grupos iam se metamorfoseando conforme os tempos, ele junto.

Lugar certo: o Furada, butecão de esquina no centro, com muitas mesas de plástico na calçada e umas boas mesas de sinuca lá dentro, residência certeira do baixo clero do crime. A contraparte puteiro com os quartos de teto baixo tava fechada há coisa de uma década, e o ocasional tráfico que rolava solto nas dependências, com os óbvios 10% escorregados na mão da Miriam, a dona, tinham se acabado há mais tempo ainda, quando um policial honesto resolveu dar de herói e acabou quase morto na porrada, o que não favorecia ninguém, e desde então a Miriam se contentava com a cerveja e os salames e as porções de coraçãozinho e torresmo e calabresa, reclamando dos impostos que não pagava e falando da época de ouro do bar, mesmo todo mundo sabendo que aquilo nunca tinha passado de um butecão ensebado com cerva barata e aporrinhação zero.

Hora certa: o grupo de Melanie tentava se distrair jogando sinuca num canto do Furada, falando da burrice do desfalque inesperado, o motora preso por não pagar a pensão da filha. Tinham planejado uma série de assaltos em bairros grã-finos da cidade. Os procuradores, juízes, fazendeiros, empresários que ainda não tinham se mudado pros condomínios fechados e guardavam algo graúdo nos cofres de armário, nas gavetas de relógios, nas caixas de joias, e acima de tudo nas garagens, as caminhonetes repassadas proutro grupo que vendia na Bolívia. Nada muito lucrativo, muito inteligente. Souza, por outro lado, amargava a dissolução das últimas companhias e pensava numa desculpa pra se livrar do Bolo, o único restante da última leva, um cara não muito sagaz que podia ser apontado como responsável indireto por duas mortes no passado recente. Aí Souza viu Melanie. Os dois se pegaram perto do balcão, e ele acabou na roda dela, e ouviu a história, contada meio que pra impressionar o desconhecido, e viu que eles precisavam de um motorista, e calhava dele ser um bom motora.

O fim, novamente: o problema era que Melanie, diferente dele, realmente se importava com os comparsas. Então quando ele propôs que os dois pegassem toda a grana desse assalto em questão, uma grana preta que tinham descoberto num escritório de advocacia que era do operador de propinas do partido do governador, e dessem no pé, ela hesitou. Hesitou porque não queria ir embora, não queria trair os comparsas, não queria, no fundo, ficar dependente de Souza, de quem gostava mas desconfiava, já que, no fundo, ele não levava nada a sério. Então ele sossegou, disse que era só uma besteira que tinha passado pela cabeça, e foram pro serviço. No fim, a polícia chegou no escritório logo depois de Melanie sair com a primeira e maior parte numa mala, e no tiroteio os outros morreram. Acabou que os dois repartiram a grana e Souza foi embora, sem Melanie saber se foi ele quem avisou a polícia.

Depois do fim: Souza voltou com o rabo cheio da grana pra casa da tia, que precisava, entre outras coisas, reformá-la. Não pisava ali desde que tinha partido com a mãe. A irmã de Souza estava terminando o colégio e pensava seriamente em fazer faculdade. Souza ficou feliz, que é o que sempre acontecia antes do dinheiro acabar, e deixou a maior parte da grana ali antes de voltar pra cidade pra encontrar o Bolo, que mandou mensagem avisando que tava andando com uma turma nova e porreta que ele precisava conhecer.

 

*Reproduzido de http://flashfiction.com.br/

fred gustavos

ss

Santiago Santos é jornalista, tradutor e escritor. Nasceu em Blumenau (SC) mas está refugiado em Cuiabá desde moleque. Lançou seu primeiro livro em 2016, "Na Eternidade Sempre é Domingo" (Carlini e Caniato) e prepara o segundo para 2018. É um dos editores da encruzilhada literária virtual Ruído Manifesto

 

 


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