CRÔNICA

O orgasmo feminino e o quindim*



Minha avó acordava pregando a vontade de comer quindim.

Logo cedo, no café, suspirava dedilhando o fundo da porcelana.

– Desejos de quindim, meu neto.

O doce estava vulnerável, feito na noite anterior, e ela não o retirava da bandeja. Não o tocava, sequer em pensamento.

Ela falava dele numa tortura dócil e maníaca. Uma seqüência obsessiva. A cada quinze minutos, o quindim aparecia de um jeito em sua conversa, como prendedor de palavras. Desde cedo, o dia ensolarado e ela ia lavar as roupas, mexer a horta, fazer compras, com a camada do quindim enrubescendo as ideias.

No almoço, garantia que terminaria a extravagância da espera.

Mas não, o quindim era a exclamação do final de suas frases. Postergava. Tomava o café e seguia com seus afazeres de pano e paciência.

Simulava que não estava pronto. Simulava aguardar uma jangada para circular nos canais venezianos de gema e açúcar.

A guloseima lembrava um parente distante; ela a arrumar a casa para sua visita.

Talvez a avó não estivesse pronta ao quindim. E não o esquecia e não sofria por lembrar.

Durante a tarde, o quindim permanecia surdo. Na jantar, o quindim ainda imóvel. Ela explicava a receita, o controle do coco, o tempo para construir as paredes cristalinas de seu doce. E não o devorava.

Na manhã seguinte, o quindim não mais residia nas grades da geladeira.

Ela comeu de madrugada, em segredo, depois de um dia inteiro a mastigá-lo sem os dentes.

Minha avó – e a afirmação cheira a blasfêmia – me possibilitou entender o orgasmo feminino.

A mulher é feita de narração. Ela deve engravidar o desejo. Cortejá-lo, rodeá-lo, ouvi-lo. Não dar conta dele para que ele passe a dar conta dela.

Diferente do homem, a mulher avisa o seu corpo. Prepara seu corpo. Informa seu corpo. Mantém seu corpo atento.

Seu prazer demora porque ela vai mais longe do que o homem.

O homem entenderá a mulher caso o seu prazer seja o dela, assim como toda a vida a mulher entendeu que seu prazer era o dele. Nenhuma pressa, não entrar na água, seguir o rio andando pelas margens.

Abandonar mais de uma vez, e recomeçar. Não finalizar. Abrir um lado da cama ao vento, ao som da língua, ao alarido da rua.

Permitir a ela acreditar que não conseguirá após vários adiamentos. Quando ela duvidar, prosseguir. É na desistência que o corpo cresce.

O prazer feminino mente a si. Mente que está chegando e volta, mente que está concluído e volta.

E quando vem, percebe-se que tudo o que voltou não foi desperdiçado.

 

*Reproduzida do livro "Canalha!" (Bertrand Brasil)

carpi

Fabrício Carpinejar é gaúcho. Um versátil e bem humorado jornalista, cronista e poeta


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