CRÔNICA

lorenzzojesus



Fui obrigado a criar um novo e-mail e e-mail é importantíssimo. Lembro-me do comecinho do século XXI, quando li algo sacramentando que esse tal do endereço eletrônico se tornaria mais importante do que o defasado RG. Mas, o que eu queria dizer é sobre o meu novo mail.

Lorenzo Falcão é um nome imponente e, quando optei por migrar para o gmail, há mais de quinze anos, fui correndo registrar esse novo mail, valendo-me da força do nome que acredito ter. Que decepção... Já havia um lorenzo falcão e, se não me falha a memória, tinha sido registrado pela mãe de um cara que ainda ia nascer. Mesmo assim, e esbarrando no bairrismo, optei pelo lorenzo falcão, acrescentando um mt. Tivesse pensado melhor, não faria isso, já que bairrismo é importante e coisa e tal, mas também é uma merda.

Acho bairrismo pior do que nacionalismo, algo também pobre e 'demodê', diante dessa globalização arrebatadora. E adoro a frase do Gilberto Dimensteim: "o nacionalismo é a prova de que a humanidade não dá certo".

Bom, mas, registrado o mail com a sigla do estado onde vivo, Mato Grosso, sempre pairava um certo arrependimento. Não é que eu desgoste de MT, embora não aprecie a transformação nefasta que o agronegócio vem aplicando em Mato Grosso. Mas, a questão é que eu gosto mesmo e mais é de Cuiabá. E não me perguntem qual a razão dessa gostança...

Feita essa ressalva, vivi feliz por um tempo com esse mail, portador da sigla do estado (com letra minúscula, por opção). Parecia uma placa de automóvel, um cep, ou coisa assim. Nada criativo para um sujeito como eu que, às vezes, se acha o máximo em matéria de criatividade. 

Mas aí, e agora sim, começo a falar do verdadeiro motivo desta crônica. Que é o fato de que eu, quando me vi forçado a criar um novo mail, sem pensar muito, optei por usar um outro nome intermediário entre o lorenzo e o falcão. Um nome forte, também... "Jesus". Ai meu jesus!!!

O novo mail foi criado diante de uma situação urgente. Tempo pra pensar, sem chance, na ocasião. Tentei registrar 'lorenzojesus', putz, mas já estava registrado. Dobrei o 'z', ideia problemática, já que, todas as vezes que oralizo o endereço pra alguém e digo lorenzo com dois 'Zs', fica a impressão de que são dois 'Es'. É foda. 

Claro que, sendo eu um cara otimista (às vezes em demasia), não me pus a pensar nos tipos de problemas que esse novo mail haveria de me causar. Sequer associei esse novo endereço eletrônico com a minha opção religiosa... sou ateu e gosto de dizer isso, embora o complemento "não praticante" seja de bom tom.  

Quando criei o novo endereço não avaliei com a devida atenção o impacto que poderia causar nos meus círculos de relações. Círculos que, devo frisar, são bastante liberais e permissivos. Pelo menos, assim espero.

E não demorou pra eu perceber que poderia (e deveria) ter escolhido um e-mail que fosse mais a minha cara. "Não estou nem mais abrindo seus mails... ora, você mudou de falcão para jesus", disse uma amiga que está assim unha e carne comigo. O que quer dizer que se eu estiver com sinais de uma unhada em vias de cicatrização, pode ser que tenha cometido o pecado da carne com ela. 

Outra amiga, esta religiosa, também demonstrou estranheza para com a presença de 'jesus' no meu novo mail. Ela sabe da minha não religiosidade.

Com essas duas ocorrências que me chegaram, passei a ter certeza de que uma crônica explicando a razão (precipitada, tudo bem) da minha escolha pelo novo e-mail, mais do que tentadora, poderia ser também necessária.

É o seguinte: quando nasci, cheguei ao mundo com um pezinho torto e a minha vovó Mita, religiosíssima, sugeriu à minha mãe que colocasse o Jesus entre o lorenzo e o miranda falcão, que são nomes herdados de meus pais. Deu certo.

Quer dizer, relativamente. Meu pezinho endireitou. Mas, apesar de ter feito até a tal da primeira comunhão, nunca desenvolvi nenhuma religiosidade pra valer. Me basta ser “do bem” e verdadeiro, em busca da felicidade que é viver, o que já é uma tarefa árdua. 

No poema que reproduzo abaixo, explico-me um pouco mais sobre tão vasto assunto.

 

deus

a ideia que tenho de deus
é como um sujeito
que saiu pra comprar cigarros
e depois...

             você já sabe.
não é que eu seja
um ateu convicto, ou à toa.
o problema todo
é que eu também fui,
com ele, comprar os malditos cigarros.
dizem que deus é bom
e é pai.

e eu sempre gostei
de andar muito bem acompanhado.

loro

Willem Dafoe no papel principal de "A Última Tentação de Cristo" (1988), filme de Martin Scorsese


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