TRECHO

Morte a crédito*



"...Você nunca tentou saber como um cérebro está organizado?... O aparelho que o faz pensar? Hem? Mas claro que não! Não lhe interessa nem um pouco!... Precisa convencer-se, sinceramente, de que a desordem é a essência da nossa própria vida! de todo o ser físico e metafísico! É a sua alma... milhões, trilhões de circunvoluções... intrincadas, em profundidade, cinzentas, recortadas, mergulhantes, subjacentes, evasivas... Ilimitadas! Esta é a Harmonia! Toda a natureza! Uma fuga do imponderável e não passa disso... Ponho ordem em meus pensamentos; não substituo essa tarefa por outras, materialistas, negativas, obscenas... É preciso procurar o essencial! Você vai, por causa disso, cair em cima do seu cérebro, corrigi-lo, descascá-lo, mutilá-lo, forçá-lo a obedecer a regras obtusas? À faca geométrica? Refaze-lo, crucificá-lo às limitações da burrice?... Armá-lo em camadas como um bolo de aniversário? Com uma pedra dentro! Hem? Responda. Com toda a sua franqueza. Que tal? Seria bom? interessante! Iria coroar tudo!... É a grande desordem que importa! Os pensamentos prósperos! Tudo tem seu preço... Depois que passa a oportunidade, acabou-se!... Você vai ficar, infelizmente, firme na sua lixeira da razão para sempre! O míope, o cego, o absurdo, o surdo, o maneta o palerma! É você que vem perturbar a minha desordem com esses seus pensamentos depravados... A Harmonia é a única alegria do mundo, a única liberdade, a única verdade. Em ordem! Merda! Em ordem! Habitue-se à Harmonia e a Harmonia descerá até você! E você achará tudo o que procura há muito tempo nos caminhos do Mundo... E muito mais! Uma emboscada inútil de armários! Uma barricada de folhetos! Uma vasta empreitada humilhante! Uma necrópole de mapas! Não sente a vida pululando, fremindo!? Ponha a mão só um pouquinho, um dedinho que seja... Tudo se agita! Vibra no mesmo instante! Está tudo prestes a se lançar, florescer, resplandecer... Não me acho com direito de dizer-te o que é... Muito menos de reduzir, corrigir, corromper, cortar, separar... Hem!?... Aonde é que eu ia achar esse direito? No infinito, na vida das coisas? Não, não é natural, são manobras infames!... Eu continuo em paz com o universo, deixo-o assim como encontro... Não o retificarei nunca!"

 

*Trecho do romance "Morte a crédito", reproduzido de http://celinedecamisacastanha.blogspot.com.br

celine

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) foi um médico e escritor francês, dizem, tão genial, quanto monstruoso


Voltar  

Confira também nesta seção:
19.06.18 18h00 » Aurélia
17.06.18 18h00 » Pergunta final
15.06.18 17h53 » Ficções
13.06.18 18h00 » Madona dos Páramos
11.06.18 18h00 » A casa dos cem cascos
09.06.18 17h58 » O diário de Frida Kahlo...
07.06.18 18h00 » Os condenados
05.06.18 17h16 » Contos Negreiros
03.06.18 18h00 » Yann Andréa Steiner
01.06.18 17h20 » O rosto perdido
30.05.18 18h00 » O inominável
28.05.18 17h45 » Morte a crédito*
26.05.18 17h55 » lorenzzojesus
24.05.18 17h46 » Envelhecer*
22.05.18 18h00 » Amor,*
20.05.18 17h41 » O orgasmo feminino e o quindim*
18.05.18 17h32 » Prova falsa*
16.05.18 18h00 » Livre-arbítrio*
14.05.18 18h00 » Totonha
12.05.18 18h00 » Supermãe*

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet