TRECHO DE ROMANCE

O inominável



Acrescento, para maior segurança, isto. Estas coisasa que digo, que vou dizer, se puder, não são mais, ou ainda não, ou não foram nunca, ou não serão nunca, ou se foram, opu se são, ou se serão, não foram aqui, não são aqui, não serão aqui, mas em outro lugar. Mas eu, eu estou aqui. Sou portanto obrigado a acrescentar isto. Eu, que eis aqui, eu, que estou aqui, que não posso falar, que não posso pensar, e que devo falar, portanto pensar um pouco, não o posso somente em relação a mim que estou aqui, aqui onde estou, mas o posso um pouco, o suficiente, não sei como, não se trata disso, em relação a mim que estive em outro lugar, que estarei em outro lugar, e a esses lugares onde estive, ou onde estarei. Mas nunca estive em outro lugar, por mais incerto que seja o futuro. E o mais simples é dizer que o que digo, o que direi, se puder, relaciona-se com o lugar onde estou, comigo que ali estou, malgrado a impossibilidade de pensar nele, de falar nele, devido à necessidade que tenho de falar dele, portanto de pensar nele talvez um pouco. Outra coisa: o que eu digo, o que direi talvez sobre isso, sobre mim, sobre minha morada, já está dito, pois, estando aqui, desde sempre, ainda estou aqui. Por fim um raciocínio que me agrada, digno de minha situação. Não tenho portanto que inquietar-me. Apesar disso estou inquieto. Não vou portanto ao desastre, não vou a parte alguma, minhas aventuras terminaram, meus sonhos ditos foram ditos, chamo isso de aventuras. Não obstante sinto que não. E temo muito, pois não se pode tratar senão de mim e desse lugar, que eu esteja mais uma vez a ponto de dar-lhe fim, falando dele. O que não acarretará nenhuma consequência, pelo contrário, seria apenas a obrigação que eu teria, uma vez desembaraçado, de recomeçar, a partir de parte alguma, de ninguém e de nada, para chegar novamente, por caminhos novos é certo, ou pelos antigos, irreconhecíveis a cada vez. Donde uma certa confusão nos exórdios, o tempo de situar o condenado e fazer-lhe a toalete. Mas não desespero de poder um dia me salvar, calar-me. E esse dia, não sei por quê, poderia calar-me, poderia acabar, eu o sei. Sim, a esperança existe, ainda uma vez, de não habituar, de não me perder, de ficar aqui, onde me digo estar desde sempre, pois era necessário dizer depressa alguma coisa, acabar aqui, seria maravilhoso. Mas será isso de desejar? Sim, é de desejar, acabar é de desejar, acabar seria maravilhoso, quem quer que eu seja, onde quer que esteja.

beckett

É do romance acima (Editora Nova Fronteira - 1989) o texto reproduzido nesta edição. É de Waltensir Dutra a tradução

beckett

Samuel Beckett (1906-1989) foi dramaturgo e escritor irlandês, ganhador do Nobel de Literatura (1969)





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